Quarto 1208: Uma Noite sem Destino

**Quarto 1208: Uma Noite sem Destino**
O saguão do *Grand Hotel Excelsior* respirava o mesmo ar condicionado de sempre, aquele frescor artificial que prometia alívio depois de horas sob o sol escaldante da cidade. As luzes douradas dos lustres refletiam-se no mármore polido, criando um jogo de sombras e brilhos que dançava sob os passos apressados dos hóspedes. Entre eles, Laura Vasconcelos deslizava como uma figura saída de um catálogo de luxo: o tailleur cinza-chumbo impecável, a saia justa na altura dos joelhos, os saltos altos que ecoavam com precisão militar. O cabelo castanho-escuro, preso em um coque baixo, não ousava um fio fora do lugar, e os óculos de armação fina escorregavam pelo nariz enquanto ela conferia algo no celular, os lábios pressionados em uma linha fina de concentração.
Ela não olhou para os lados. Não era do tipo que se distraía com o ambiente, não quando havia relatórios para revisar, e-mails para responder, uma apresentação crucial na manhã seguinte. O cansaço pesava nos ombros, mas era um peso conhecido, quase reconfortante. Laura sabia lidar com ele. Sempre soubera. Desde que assumira o cargo de diretora de operações na multinacional, aprendera que o sucesso não era uma questão de sorte, mas de disciplina—e ela tinha disciplina de sobra.
Do outro lado do saguão, perto do balcão de recepção, Daniel Menezes assinava o livro de check-in com um floreio desnecessário, como se a caneta fosse um instrumento musical e o papel, uma partitura. O terno preto que vestia—emprestado do baixista da banda para a ocasião—caía um pouco largo nos ombros, mas ele não se importava. Afinal, não era um terno que definia um homem, mas a maneira como ele o usava. E Daniel sabia usar. O cabelo cacheado, ainda úmido do banho rápido no camarim, caía sobre a testa em mechas rebeldes, e os olhos verdes, sempre meio sorridentes, percorriam o ambiente com curiosidade.
— *Quarto 1208*, certo? — ele perguntou ao recepcionista, inclinando-se levemente sobre o balcão. A voz era grave, com um timbre quente que parecia feito para sussurros noturnos.
— Sim, senhor Menezes. No décimo segundo andar, à esquerda assim que sair do elevador. — O jovem funcionário entregou-lhe a chave magnética com um sorriso profissional, mas Daniel notou o modo como os olhos do rapaz desviaram rapidamente para o violão encostado na parede ao lado. — O senhor precisa de ajuda com a bagagem?
— Não, obrigado. — Daniel pegou o estojo do instrumento com um movimento fluido, equilibrando-o no ombro. — Sou leve como uma pluma.
O recepcionista riu, mas Daniel já estava se afastando, os passos leves, quase saltitantes. Ele adorava hotéis. Adorava a sensação de anonimato, a promessa de encontros inesperados, a maneira como as paredes guardavam segredos que ninguém jamais saberia. E aquele, em particular, tinha algo no ar—uma energia elétrica, como se as moléculas estivessem carregadas de possibilidades.
Laura chegou ao elevador segundos antes de Daniel. As portas de metal polido se abriram com um *ding* suave, revelando um espaço vazio, iluminado por uma luz amarelada que suavizava os contornos. Ela entrou primeiro, pressionando o botão do décimo segundo andar sem hesitar. Daniel a seguiu, equilibrando o violão entre as pernas enquanto as portas se fechavam.
Por um instante, nenhum dos dois falou. O elevador começou a subir com um leve solavanco, e Laura manteve os olhos fixos no painel digital, contando os andares como se cada número fosse uma etapa a ser vencida. Daniel, porém, não conseguia tirar os olhos dela. Não era apenas a elegância—embora fosse impossível ignorar a maneira como o tecido do tailleur moldava as curvas de seu corpo, ou como os saltos altos alongavam suas pernas. Era algo mais sutil: a tensão nos ombros, a rigidez na postura, como se ela estivesse sempre se segurando para não desabar.
Ele queria saber o que aconteceria se ela relaxasse.
— Longo dia? — A pergunta escapou antes que pudesse se conter. A voz de Daniel era baixa, quase íntima, como se eles já se conhecessem.
Laura ergueu os olhos, surpresa. Os óculos escorregaram um pouco mais, e ela os ajustou com um gesto automático, os dedos finos roçando a armação.
— O que te faz pensar isso? — A voz dela era firme, mas havia um leve tremor, como se a pergunta a tivesse pego desprevenida.
Daniel sorriu, encostando-se levemente na parede do elevador. — Você tem aquele ar de quem está prestes a desabar, mas não vai deixar que ninguém veja.
Ela arqueou uma sobrancelha, mas não negou. Em vez disso, cruzou os braços, como se quisesse se proteger. — E você? Também teve um longo dia?
— Ah, eu? — Daniel riu, passando a mão pelos cabelos. — Eu tive uma noite incrível. Show lotado, público enlouquecido, aquela sensação de que tudo é possível. Mas agora? Agora estou exausto de um jeito bom. Sabe como é?
Laura não sabia. Não exatamente. Mas algo na maneira como ele falou—na cadência da voz, no brilho nos olhos—fez com que ela sentisse uma pontada de inveja. Quando foi a última vez que ela se sentiu assim? Exausta, sim, mas de um jeito bom?
— Não — ela admitiu, surpreendendo a si mesma. — Não sei como é.
Daniel a observou por um instante, como se estivesse decidindo se deveria ou não insistir. Então, as portas do elevador se abriram com um *ding*, salvando-a de ter que continuar a conversa.
— Décimo segundo — ele anunciou, gesticulando para que ela saísse primeiro.
Laura passou por ele, os saltos ecoando no corredor acarpetado. O cheiro de lavanda e madeira polida invadiu suas narinas, misturado ao aroma discreto do perfume masculino que Daniel usava—algo cítrico, com um toque de especiarias. Ela não olhou para trás, mas sentiu o peso do olhar dele nas costas, como se ele estivesse memorizando cada detalhe.
Daniel seguiu alguns passos atrás, observando a maneira como Laura se movia—com precisão, mas sem rigidez. Havia algo de hipnótico naquilo. Quando ela parou diante da porta do quarto 1210, ele diminuiu o passo, fingindo procurar algo nos bolsos.
— Boa noite — ela disse, sem se virar, enquanto inseria a chave magnética na fechadura.
— Boa noite — ele respondeu, parando diante da porta do 1208, logo ao lado.
Por um segundo, os olhares se encontraram. Não houve palavras, apenas um reconhecimento silencioso—como se ambos soubessem que aquele momento, breve e insignificante na superfície, era na verdade o começo de algo.
Laura entrou no quarto e fechou a porta atrás de si, encostando-se nela por um instante. O coração batia mais rápido do que deveria. Ela respirou fundo, tentando se recompor.
Do outro lado da parede, Daniel sorriu ao ouvir o clique da fechadura. Ele colocou o violão no suporte ao lado da cama e tirou o paletó, jogando-o sobre uma cadeira. Depois, foi até a janela e abriu as cortinas, revelando a vista noturna da cidade—luzes piscando, prédios iluminados, o brilho distante dos faróis dos carros.
Ele não sabia o que aconteceria a seguir.
Mas tinha a sensação de que seria interessante.
O elevador subiu com um zumbido suave, como se carregasse consigo o peso de todas as coisas não ditas naquela noite. Laura pressionou o botão do décimo segundo andar com mais força do que o necessário, os dedos ainda formigando pelo toque rápido da chave magnética contra a palma. A porta se fechou com um suspiro metálico, e ela se viu sozinha no espaço pequeno demais para conter o eco de seus próprios pensamentos.
Ou quase sozinha.
Daniel entrou no último segundo, os passos leves apesar do cansaço que lhe marcava os ombros. Ele não a olhou de imediato—ou fingiu não olhar—, mas Laura sentiu o momento exato em que ele a registrou. O ar entre eles se adensou, como se alguém tivesse jogado um punhado de pó de estrelas no ambiente, algo que brilhava e queimava ao mesmo tempo. Ela se manteve de costas para ele, os olhos fixos no painel luminoso que marcava os andares em números frios, mas a pele do pescoço se eriçou quando percebeu que ele havia parado bem ao seu lado, perto o suficiente para que o calor do corpo dele atravessasse o tecido fino de sua blusa.
— Doze também? — A voz dele era baixa, rouca, como se tivesse passado a noite inteira cantando em um bar lotado. Ou talvez fosse só o efeito do álcool, do cansaço, daquela tensão estranha que parecia puxá-los um para o outro como ímãs.
Laura assentiu, sem se virar. — Sim.
Um silêncio. O elevador parou no oitavo andar, mas ninguém entrou. As portas se fecharam de novo, e o movimento ascendente recomeçou, mais lento agora, como se o próprio prédio soubesse que ali dentro havia algo que merecia ser prolongado.
— Você é hóspede ou...? — Daniel deixou a pergunta no ar, como se soubesse que ela não responderia com a verdade completa. Laura era executiva, sim, mas naquele momento não queria ser nada além de uma mulher em um elevador com um homem que a fazia sentir-se observada de um jeito que não era invasivo, mas sim... curioso. Como se ele quisesse desmontá-la peça por peça só para ver como funcionava.
— Estou aqui a trabalho — ela disse, por fim, virando-se apenas o suficiente para que ele visse o perfil de seu rosto, a linha do maxilar, o brilho discreto do batom que já começava a desbotar. — E você?
— Show. — Ele sorriu, e foi como se o elevador inteiro se iluminasse. — Acabei agora.
— Deve estar exausto.
— Não tanto quanto parece. — Os olhos dele desceram por um segundo, rápidos demais para serem grosseiros, mas lentos o suficiente para que Laura sentisse o peso daquela avaliação. Ela usava um tailleur cinza, elegante, impecável, mas a blusa de seda por baixo tinha um decote sutil, e o tecido se moldava ao contorno dos seios sempre que ela respirava fundo. Daniel notou. Ela percebeu que ele notou. E nenhum dos dois disse nada.
O elevador parou de novo. Décimo andar. As portas se abriram, revelando um casal de idosos que conversava em voz baixa. Eles entraram, e de repente o espaço ficou ainda menor, sufocante. Laura se aproximou da parede, os dedos roçando o corrimão de metal frio. Daniel fez o mesmo, mas de propósito, como se quisesse que seus braços se tocassem. Não se tocaram. Mas quase.
— Vocês vão para o décimo segundo? — A mulher idosa sorriu, simpática.
— Sim — Laura respondeu, antes que Daniel pudesse abrir a boca. Havia algo de possessivo naquele "sim", como se ela estivesse reivindicando algo. Ou alguém.
O homem apertou o botão, e o elevador recomeçou sua ascensão lenta. Laura podia sentir o perfume de Daniel—algo amadeirado, com um toque de couro e suor limpo, como se ele tivesse acabado de sair de um palco e ainda carregasse consigo a energia da música. Ela inalou discretamente, deixando que o aroma se misturasse ao seu próprio, um perfume caro, floral, com notas de baunilha que sempre a fazia se sentir poderosa. Juntos, os cheiros criavam algo novo, algo que não pertencia nem a um nem a outro, mas ao espaço entre eles.
— Você toca o quê? — Laura perguntou, surpreendendo a si mesma. Ela não costumava puxar conversa com estranhos, muito menos em elevadores. Mas havia algo em Daniel que a fazia querer quebrar suas próprias regras.
— Violão. — Ele inclinou a cabeça, como se estivesse decidindo se contava mais ou não. — E canto um pouco.
— Um pouco? — Ela arqueou uma sobrancelha, desafiadora.
Daniel riu, e o som reverberou no peito de Laura como uma vibração. — Tá, canto bastante. Mas só quando estou bêbado o suficiente para achar que as pessoas querem me ouvir.
— E elas querem?
— Na maioria das vezes, não. — Ele deu de ombros, mas os olhos brilhavam com uma confiança que desmentia as palavras. — Mas eu gosto de cantar mesmo assim.
O elevador parou. Décimo segundo andar. As portas se abriram, e o casal de idosos saiu, deixando-os sozinhos de novo. Laura hesitou por um segundo antes de sair, como se não quisesse que aquele momento acabasse. Daniel também não se moveu.
— Então... — ele começou, mas não terminou a frase.
— Então — ela repetiu, como se as palavras pudessem se completar sozinhas.
O silêncio voltou, mais carregado do que antes. Laura deu um passo à frente, mas Daniel não se mexeu. Ela sentiu o calor do corpo dele atrás de si, tão perto que, se se virasse, seus lábios estariam a centímetros de distância. Ele não a tocou. Não disse nada. Mas o ar entre eles estava tão denso que ela quase podia sentir o gosto dele—algo doce e amargo, como uísque envelhecido em barril de carvalho.
— Boa noite, Laura — ele disse, finalmente, a voz tão baixa que ela quase não ouviu.
Ela se virou, surpresa. — Você sabe meu nome?
Daniel apontou para a chave magnética que ela segurava. O nome estava impresso em letras pequenas, quase invisíveis. — 1207. Laura M.
Ela riu, um som suave e inesperado. — E o seu?
— Daniel. — Ele estendeu a mão, como se fossem selar um acordo. — Prazer.
Laura olhou para a mão dele—longa, dedos finos, unhas curtas, uma cicatriz fina no dorso, como se tivesse se cortado com uma corda de violão. Ela hesitou, mas então colocou a sua própria mão na dele. O toque foi elétrico. Não um choque, mas uma corrente lenta, quente, que subiu pelo braço dela e se instalou no peito, fazendo seu coração bater mais forte.
— Prazer, Daniel — ela sussurrou, sem soltar a mão dele.
Ele não soltou também. Por um segundo, ficaram ali, parados no corredor vazio, as mãos unidas como se fossem a única coisa que os mantinha ancorados àquele momento. Então, Laura puxou a mão devagar, sentindo a resistência suave dos dedos dele antes de se soltarem.
— Boa noite — ela disse, recuando um passo.
— Boa noite — ele respondeu, mas não se moveu.
Laura caminhou até a porta do 1207, sentindo o olhar de Daniel queimar suas costas. Ela inseriu a chave magnética na fechadura, mas antes de entrar, olhou por cima do ombro.
Ele ainda estava lá.
E sorria.
Ela entrou no quarto e fechou a porta, mas não antes de ouvir o clique suave da porta do 1208 se abrindo ao lado. Por um instante, ficou parada, encostada na madeira fria, ouvindo os sons abafados do outro lado—o tilintar de uma garrafa sendo colocada sobre uma superfície, o rangido de uma cama, o suspiro longo de alguém que se deixa cair sobre ela.
Laura levou a mão ao peito, como se pudesse acalmar o ritmo acelerado do coração. Mas não era medo. Era antecipação.
E ela sabia, com uma certeza que vinha das entranhas, que aquela noite estava longe de acabar.
Laura girou a chave magnética entre os dedos com uma distração quase deliberada, como se o pequeno retângulo de plástico fosse um amuleto capaz de adiar o inevitável. O corredor do décimo segundo andar estava mergulhado em um silêncio dourado, iluminado apenas pelos abajures de luz âmbar que projetavam sombras alongadas sobre o carpete espesso. O ar cheirava a cera de limão e ao perfume residual dos hóspedes que haviam passado por ali—um aroma cítrico e quente que se misturava ao leve traço de suor seco da própria pele, depois de horas trancada em salas com ar-condicionado agressivo.
Ela parou diante da porta do 1207, os saltos afundando levemente no tecido macio, e inclinou a cabeça para o lado, como se escutasse algo além do próprio batimento cardíaco. O eco da porta de Daniel se fechando ainda reverberava em sua memória, aquele *clique* suave que havia soado como um convite. Ou talvez fosse apenas o desejo transformando sons banais em sinais. Laura respirou fundo, sentindo o peso do blazer sobre os ombros, a seda da blusa grudando levemente nas costas. Precisava de um banho. Precisava de uma taça de vinho. Precisava, acima de tudo, decidir se iria ou não bater na porta ao lado.
Foi nesse exato momento—entre a indecisão e o movimento—que a chave escorregou de seus dedos.
Não houve drama no gesto. Apenas um deslizar quase imperceptível, como se o objeto tivesse decidido, por conta própria, que não era hora de entrar. Caiu sobre o carpete com um baque surdo, e Laura soltou um suspiro frustrado, mais consigo mesma do que com a situação. Abaixou-se devagar, os joelhos estalando levemente, e estendeu a mão para pegá-la. Foi então que percebeu que não estava sozinha.
Daniel estava parado a poucos metros de distância, encostado na parede oposta do corredor, os braços cruzados sobre o peito. Ele a observava com um meio-sorriso, como se já soubesse que aquilo iria acontecer. Os olhos dele—escuros, quase pretos sob aquela luz—brilhavam com uma intensidade que fez Laura hesitar antes de se mover. Ele não disse nada. Apenas ergueu uma sobrancelha, desafiando-a a fingir que não o tinha visto.
Laura endireitou-se lentamente, segurando a chave contra o peito como se fosse um escudo. O tecido da blusa roçou nos mamilos, já endurecidos pelo frio do ar-condicionado e pela presença dele. Ela podia sentir o calor subindo pelo pescoço, queimando as bochechas.
— Você sempre fica aí parado, espionando hóspedes desastrados? — perguntou, tentando soar mais segura do que se sentia.
Daniel descolou-se da parede com um movimento preguiçoso, os músculos dos braços se contraindo sob a camiseta preta. Ele deu um passo à frente, depois outro, até parar a menos de um metro dela. O cheiro dele chegou antes mesmo que pudesse tocá-la—uma mistura de couro envelhecido, sabonete cítrico e algo mais profundo, algo que lembrava madeira queimada e pele aquecida pelo sol.
— Só quando a hóspede desastrada é interessante — respondeu, a voz baixa, quase um murmúrio. — E você, Laura, é *muito* interessante.
O nome dela soou como uma carícia na boca dele. Laura sentiu um arrepio percorrer a espinha, descendo até a base das costas. Ela não se lembrava de ter dito seu nome no elevador. Talvez ele tivesse ouvido na recepção. Talvez tivesse perguntado. Ou talvez—e essa possibilidade a excitou mais do que deveria—ele simplesmente soubesse.
— Você é um observador — ela disse, sem desviar os olhos dos dele. — Isso é perigoso.
— Ou fascinante — ele retrucou, estendendo a mão. — Posso?
Laura hesitou por um segundo antes de colocar a chave na palma dele. Os dedos de Daniel eram longos, calejados nas pontas, como se passassem horas pressionados contra cordas de violão. Quando ele fechou a mão sobre a dela para pegar a chave, a pele áspera roçou na sua, enviando uma corrente elétrica pelo braço. Ela não se afastou. Nem ele.
Daniel se aproximou da porta, inserindo a chave magnética na fechadura com uma precisão que denunciava familiaridade. O mecanismo fez um *clique* suave, e a luz verde piscou. Ele girou a maçaneta e empurrou a porta alguns centímetros, mas não a abriu completamente. Em vez disso, virou-se para Laura, ainda segurando a chave entre os dedos.
— Funciona melhor se você segurar assim — disse, mostrando como posicionar os dedos. — Menos chances de deixar cair.
Ele segurou a mão dela novamente, guiando-a para envolver a chave. Os dedos dele cobriram os seus, quentes e firmes, e Laura sentiu o calor se espalhar pelo corpo, como se ele estivesse tocando muito mais do que apenas sua mão. O polegar dele roçou levemente a palma dela, um movimento lento, deliberado, e ela prendeu a respiração.
— Viu? — ele murmurou, a boca tão perto do ouvido dela que Laura sentiu o hálito quente contra a pele. — Agora você não vai mais perder.
Ela deveria ter se afastado. Deveria ter agradecido e entrado no quarto, fechando a porta atrás de si. Mas as palavras morreram na garganta quando ele inclinou a cabeça, os lábios quase tocando o lóbulo da orelha dela.
— Ou será que você *quer* perder? — sussurrou.
Laura fechou os olhos por um segundo, sentindo o corpo inteiro reagir àquela pergunta. Quando os abriu novamente, Daniel estava olhando para ela com uma expressão que misturava diversão e desejo, como se já soubesse a resposta.
— Talvez — ela admitiu, a voz saindo mais rouca do que pretendia.
Ele sorriu, lento e perigoso, e soltou a mão dela devagar, os dedos deslizando pelos seus até se soltarem completamente. O toque deixou um rastro de fogo na pele de Laura.
— Nesse caso — ele disse, recuando um passo —, acho que você deveria me convidar para um drinque.
Laura sentiu o coração bater mais forte. Um drinque. Era uma ideia simples, quase inocente. Mas nada entre eles parecia inocente naquele momento.
— E se eu disser não? — ela provocou, inclinando a cabeça.
Daniel deu mais um passo para trás, as mãos nos bolsos da calça jeans. O tecido se esticou sobre as coxas, delineando músculos que Laura não pôde deixar de notar.
— Então eu vou ter que aceitar que você é mais forte do que eu — ele disse, com um encolher de ombros. — Mas algo me diz que você não é do tipo que recua diante de um desafio.
Laura sorriu, sentindo o peso da chave na mão. Ele estava certo. Ela nunca recuava.
— O bar fica no térreo — ela disse, finalmente. — Dez minutos.
Daniel assentiu, o sorriso se alargando.
— Dez minutos — repetiu. — Vou estar esperando.
Ele se virou e caminhou de volta para o quarto 1208, os passos silenciosos sobre o carpete. Laura o observou entrar, a porta se fechando com um *clique* suave, e só então percebeu que estava prendendo a respiração.
Dez minutos.
Ela tinha dez minutos para decidir se aquela noite terminaria como havia começado—com portas fechadas e desejos reprimidos—or se, finalmente, deixaria que algo acontecesse.
E, pela primeira vez em muito tempo, Laura não tinha certeza do que queria.
O bar do hotel era um daqueles espaços que existiam para serem esquecidos pela manhã, mas que à noite se transformavam em um refúgio de sombras e promessas. As luzes eram baixas, douradas, filtradas por abajures de vidro fosco que espalhavam halos difusos sobre as mesas de madeira escura. O ar cheirava a bourbon envelhecido, a couro dos bancos e a algo mais sutil—o perfume cítrico de Laura, que Daniel já reconhecia antes mesmo de vê-la.
Ela chegou primeiro.
Estava sentada no canto mais afastado do balcão, um copo de vinho tinto pela metade à sua frente, os dedos longos brincando com a haste da taça. O vestido preto, antes impecável, agora parecia ter sido feito para aquele momento: o decote discreto revelava apenas o suficiente para sugerir, não para entregar, e a saia justa terminava alguns centímetros acima dos joelhos, deixando à mostra as pernas cruzadas, uma delas balançando levemente no ritmo de uma música que só ela ouvia. Quando Daniel se aproximou, ela ergueu os olhos, e o sorriso que lhe dirigiu foi lento, quase preguiçoso, como se já soubesse que aquela noite seria diferente.
— Você veio — ela disse, e havia algo de desafio na voz, como se ainda não acreditasse que ele teria coragem.
Daniel se sentou ao lado dela, deixando um espaço mínimo entre os dois, o suficiente para que o calor do corpo de Laura irradiasse contra o seu. Pediu um uísque com gelo, o barman assentindo com a familiaridade de quem já tinha visto aquele tipo de encontro antes. Quando o copo chegou, ele girou o líquido âmbar uma, duas vezes, antes de levar aos lábios.
— Eu disse que estaria esperando — respondeu, a voz rouca. — E eu cumpro minhas promessas.
Laura riu, um som baixo e musical que fez Daniel querer gravar cada nota na memória. Ela inclinou a cabeça, estudando-o com um interesse que ia além da curiosidade casual.
— Você sempre é assim? — perguntou. — Tão seguro de si?
— Só quando tenho motivos para ser.
— E qual é o motivo agora?
Ele não respondeu de imediato. Em vez disso, estendeu a mão e roçou os nós dos dedos contra o dorso da mão dela, um toque leve, quase imperceptível, mas que fez Laura prender a respiração. O vinho em sua taça tremeu levemente.
— Você — disse, finalmente. — Você é o motivo.
Laura não desviou o olhar. Não era o tipo de mulher que se derretia com palavras fáceis, mas havia algo na forma como ele falava—como se cada sílaba fosse um convite, não uma armadilha—que a fazia querer acreditar. Ela levou o copo aos lábios, deixando que o vinho se espalhasse pela língua, doce e terroso, antes de engolir.
— Você é músico — ela disse, mudando de assunto, mas não de tom. — Deve conhecer muitas pessoas assim. Mulheres que caem aos seus pés depois de um show.
Daniel riu, um som grave que vibrou no peito de Laura.
— Mulheres caem aos pés de qualquer um que saiba tocar três acordes e sorrir no momento certo — ele disse, girando o uísque no copo. — Mas você não é o tipo que cai. Você é o tipo que observa. Que escolhe.
— E o que faz você pensar que eu escolhi você?
— Porque você está aqui.
Laura não respondeu. Em vez disso, estendeu a mão e pegou o copo dele, levando-o aos lábios sem pedir permissão. O uísque queimou sua garganta, mas ela não se importou. Quando devolveu o copo, seus dedos roçaram nos dele, e Daniel não se afastou. Por um segundo, nenhum dos dois se moveu, como se estivessem esperando para ver quem quebraria o feitiço primeiro.
Foi Laura quem falou.
— Você é perigoso — ela murmurou.
— Por quê?
— Porque você faz as coisas parecerem fáceis.
— E elas não são?
— Nunca são.
Daniel sorriu, inclinando-se um pouco mais perto. O perfume dela—algo floral, com um toque de baunilha—o envolveu, e ele teve que se controlar para não enterrar o rosto no pescoço dela ali mesmo, no meio do bar.
— Então vamos complicar as coisas — ele sugeriu.
Laura riu, mas havia um tremor na voz.
— Você sempre fala assim com estranhas em bares de hotel?
— Só com as que deixam cair as chaves no corredor.
Ela ergueu uma sobrancelha, mas não negou. Em vez disso, pegou o copo de vinho e o esvaziou em um longo gole, como se estivesse se preparando para algo. Quando o colocou de volta no balcão, seus olhos brilhavam com uma intensidade que Daniel não tinha visto antes.
— Me conte uma coisa — ela disse. — O que você faz quando não está tocando?
— Vivo — ele respondeu, simples. — Viajo. Bebo. Durmo em lugares que não são minha casa. E você?
— Trabalho.
— Só isso?
— É o que me mantém ocupada.
— E o que te mantém acordada?
Laura hesitou. O bar estava mais cheio agora, corpos se movendo ao som de uma música lenta que saía dos alto-falantes, mas para ela, só existiam os olhos de Daniel, escuros e atentos.
— Às vezes, nada — ela admitiu. — Às vezes, tudo.
Daniel estendeu a mão e tocou o pulso dela, os dedos deslizando pela pele macia até encontrar o ponto onde o batimento acelerava. Laura não se afastou.
— E agora? — ele perguntou.
Ela não respondeu com palavras. Em vez disso, inclinou-se para frente, os lábios quase tocando os dele, mas parando a um fio de distância.
— Agora — ela sussurrou —, eu quero descobrir.
O beijo não aconteceu ali. Não ainda. Daniel sorriu, como se soubesse de um segredo que ela ainda não tinha desvendado, e recostou-se no banco, os dedos ainda em volta do pulso dela.
— Então vamos descobrir juntos.
A música mudou. Algo mais lento, mais íntimo, uma voz feminina cantando sobre desejos proibidos e noites sem fim. Laura se levantou, o vestido colando-se às curvas do corpo enquanto ela estendia a mão para Daniel.
— Dance comigo.
Não era um pedido.
Daniel não hesitou. Levantou-se, a mão dela encaixando-se na sua como se sempre tivesse pertencido ali, e a puxou para a pequena pista de dança improvisada entre as mesas. Não havia espaço para movimentos elaborados, mas isso não importava. Laura se aproximou, as mãos pousando nos ombros dele, os dedos brincando com a gola da camisa. Daniel a puxou para mais perto, uma mão na cintura dela, a outra deslizando pelas costas até encontrar a curva da coluna.
Eles se moviam devagar, quase sem sair do lugar, os corpos se ajustando como se tivessem sido feitos para aquele encaixe. Laura apoiou a cabeça no ombro dele, os lábios roçando a pele quente do pescoço, e Daniel fechou os olhos, sentindo o perfume dela, o calor, a promessa de algo que ainda não tinha nome.
— Você cheira a cigarro e uísque — ela murmurou.
— E você cheira a algo que eu quero provar.
Laura ergueu a cabeça, os olhos encontrando os dele. Havia algo ali, uma faísca que nenhum dos dois podia mais ignorar.
— Então prove.
Daniel não precisou de mais incentivo. A mão que estava nas costas dela deslizou para a nuca, os dedos enroscando-se nos cabelos soltos, e ele a puxou para um beijo que não era mais suave, nem hesitante. Era quente, urgente, os lábios se moldando, as línguas se encontrando em um ritmo que imitava o que os corpos já sabiam fazer.
Laura gemeu baixinho contra a boca dele, as unhas cravando-se nos ombros, e Daniel a apertou contra si, sentindo cada curva, cada respiração entrecortada. Quando se afastaram, os dois estavam ofegantes, os lábios inchados, os olhos escuros de desejo.
— O bar está fechando — ela disse, a voz rouca.
Daniel olhou ao redor. De fato, os últimos clientes estavam saindo, o barman já começando a apagar as luzes.
— Então vamos para outro lugar.
Laura não respondeu. Apenas pegou a mão dele e o puxou em direção aos elevadores, os passos rápidos, os corpos colados como se tivessem medo de que o mundo os separasse antes que chegassem ao destino.
O elevador estava vazio.
Assim que as portas se fecharam, Daniel a empurrou contra a parede espelhada, as mãos segurando seu rosto enquanto a beijava de novo, com mais fome, mais necessidade. Laura correspondeu, os dedos puxando a camisa dele para fora da calça, as unhas arranhando a pele exposta do abdômen.
— Você não faz ideia do que está fazendo comigo — ele murmurou contra os lábios dela.
— Então me mostre.
As portas do elevador se abriram.
Nenhum dos dois se moveu.
O elevador apitou, um som agudo e metálico que cortou o ar como uma lâmina. As portas se abriram para o corredor vazio, iluminado apenas pela luz âmbar dos abajures nas paredes, mas nenhum dos dois se moveu. Laura sentiu o peso do corpo de Daniel contra o seu, a pressão dos quadris dele encaixados nos seus, a respiração quente contra o pescoço. O espelho atrás deles refletia a cena: dois corpos entrelaçados, as roupas já desalinhadas, os lábios vermelhos e úmidos.
— *Vamos* — ela sussurrou, a voz quase um gemido, os dedos ainda cravados na pele dele.
Daniel não respondeu com palavras. Em vez disso, segurou-a pela cintura e a girou, empurrando-a para fora do elevador com um movimento brusco. Laura tropeçou um pouco, mas ele a amparou, pressionando-a contra a parede do corredor antes mesmo que ela pudesse recuperar o equilíbrio. O gesso frio contrastou com o calor da boca dele, que desceu pelo seu queixo, pelo pescoço, deixando um rastro de beijos molhados até encontrar o lóbulo da orelha.
— Você é *insuportável* — ele murmurou, os dentes roçando a pele sensível. — Sabia que eu ia te querer assim desde o primeiro olhar?
Laura arqueou as costas, sentindo o corpo inteiro formigar. As mãos dele deslizaram para baixo, puxando a saia justa até que o tecido se amontoasse na cintura. Os dedos encontraram a renda da calcinha, já úmida, e ele soltou um som gutural, quase um rosnado.
— *Prova* — ela desafiou, a voz trêmula.
Daniel não precisou de mais incentivo. Com um movimento rápido, afastou o tecido para o lado e mergulhou dois dedos dentro dela, lento, profundo. Laura gemeu, os joelhos fraquejando, mas ele a manteve de pé, a mão livre segurando seu queixo para que ela olhasse nos olhos dele.
— Assim? — ele perguntou, a voz rouca, os dedos se movendo em círculos lentos, deliberados. — Ou assim?
Ela não conseguiu responder. A boca se abriu num suspiro mudo, o corpo inteiro tensionando ao redor dos dedos dele. Daniel sorriu, satisfeito, e inclinou-se para beijá-la de novo, engolindo o som que escapou dos lábios dela.
— *Merda* — Laura praguejou, puxando-o pela camisa. — *Quarto. Agora.*
Ele riu, baixo e perigoso, mas obedeceu. Pegou a chave do bolso com a mão livre—sem tirar os dedos de dentro dela—e a guiou pelo corredor, os passos apressados, os corpos colados. O quarto 1214 estava a apenas alguns metros, mas cada segundo parecia uma eternidade. Laura mordeu o lábio inferior quando ele tirou os dedos de repente, deixando-a vazia, desesperada. Daniel levou-os à boca, lambendo-os devagar, os olhos nunca deixando os dela.
— *Gostosa pra caralho* — ele murmurou, antes de abrir a porta com um empurrão.
O quarto estava na penumbra, iluminado apenas pela luz da cidade que entrava pela janela aberta. O ar condicionado soprava fresco contra a pele quente de Laura, mas ela mal percebeu. Assim que a porta se fechou, Daniel a empurrou contra ela, as mãos subindo pelas coxas nuas, puxando a calcinha para baixo com um movimento brusco. Ela ajudou, chutando o tecido para longe, e ele a ergueu no mesmo instante, as pernas dela envolvendo sua cintura.
— *Porra, Laura* — ele grunhiu, os lábios encontrando os dela de novo, a língua invadindo sua boca com uma urgência que a fez tremer. — Você não faz ideia do que eu vou fazer com você.
— *Então faz* — ela respondeu, as unhas cravadas nos ombros dele.
Daniel a carregou até a cama, mas não a deitou. Em vez disso, a colocou de pé ao lado do colchão, virando-a de costas para ele. Laura sentiu as mãos dele deslizarem pela sua coluna, desabotoando o zíper da saia com uma lentidão torturante. O tecido caiu aos seus pés, deixando-a apenas com a blusa e os saltos altos. Daniel beijou a curva das suas costas, os dentes roçando a pele enquanto as mãos apertavam sua bunda.
— *Inclina* — ele ordenou, a voz um sussurro rouco.
Laura obedeceu, apoiando as mãos na cama, o corpo arqueado para ele. Daniel gemeu ao ver a visão—ela exposta, molhada, tremendo de antecipação. Ele não perdeu tempo. Com um movimento rápido, abriu o cinto, o som do couro deslizando pelos passadores ecoando no quarto. Laura olhou por cima do ombro, os olhos escuros de desejo, e viu quando ele tirou a calça, a ereção saltando livre, dura e pulsante.
— *Agora* — ela pediu, a voz quase um gemido.
Daniel não a fez esperar. Segurou-a pelos quadris e a penetrou de uma vez, fundo, até o limite. Laura gritou, o corpo inteiro se contraindo ao redor dele, as unhas arranhando os lençóis. Ele não se moveu por um segundo, deixando que ela se acostumasse com a invasão, mas então começou a se mexer—lento no início, cada estocada profunda e deliberada, fazendo-a gemer a cada movimento.
— *Mais* — ela implorou, empurrando-se contra ele.
Daniel obedeceu. Aumentou o ritmo, as mãos apertando seus quadris com força, os dedos deixando marcas na pele. Laura sentiu o prazer se enrolar dentro dela, uma espiral apertada que ameaçava explodir a qualquer momento. Ele percebeu e mudou o ângulo, atingindo um ponto que a fez arquear as costas, um grito escapando dos lábios.
— *É isso* — ele murmurou, a voz áspera. — *Goza pra mim.*
E ela gozou. O orgasmo a atingiu como uma onda, o corpo inteiro tremendo, os músculos se contraindo ao redor dele. Daniel não parou, continuando a se mover, prolongando o prazer até que ela estivesse ofegante, suada, quase sem forças. Só então ele a virou, deitando-a na cama e cobrindo seu corpo com o dele.
— *Ainda não acabou* — ele prometeu, beijando-a com uma fome renovada.
Laura envolveu as pernas ao redor da cintura dele, puxando-o para mais perto, sentindo-o entrar de novo, mais devagar dessa vez, mas não menos intenso. As mãos dele exploraram seu corpo—os seios, a curva da cintura, a pele sensível da parte interna das coxas—enquanto ele se movia dentro dela, cada estocada fazendo-a gemer.
— *Daniel* — ela sussurrou, os dedos enroscados nos cabelos dele. — *Eu não… eu não quero que isso acabe.*
Ele sorriu, lento e perigoso, e diminuiu ainda mais o ritmo, fazendo-a sentir cada centímetro dele.
— *Então não vai* — ele murmurou, beijando-a de novo. — *A noite é nossa.*
E, naquele momento, Laura acreditou. Porque, debaixo dele, com o corpo ainda tremendo de prazer, ela não conseguia imaginar nada além daquilo—das mãos dele na sua pele, da boca dele na sua, do peso dele sobre ela, dentro dela, preenchendo-a de um jeito que ia muito além do físico.
Mas então o celular de Daniel vibrou no bolso da calça, jogada no chão. Ele ignorou, mas o som persistiu, uma insistência irritante no silêncio do quarto.
Laura riu, baixa e ofegante.
— *Você devia ver quem é.*
Daniel resmungou, mas se afastou o suficiente para pegar o aparelho. O nome na tela fez seu sorriso desaparecer por um segundo.
— *É o gerente do hotel* — ele disse, a voz subitamente tensa. — *Deve ser sobre o barulho.*
Laura arqueou uma sobrancelha, divertida.
— *Barulho?*
Ele jogou o celular de lado sem atender.
— *Vou dizer que foi o vizinho.*
E então a puxou de volta para si, os lábios encontrando os dela de novo, como se nada mais importasse.
Mas, em algum lugar no fundo da mente de Laura, uma pergunta ficou no ar: *Por que o gerente estaria ligando a essa hora?*
A luz da manhã invadiu o quarto 1208 como um hóspede indesejado, deslizando pelas frestas da cortina mal fechada e pousando sobre os lençóis amarrotados. Laura acordou devagar, os músculos ainda formigando com a memória da noite anterior—o peso dos braços de Daniel ao redor dela, o calor da pele dele contra a sua, o ritmo lento e deliberado com que ele a havia acordado de madrugada, como se o tempo tivesse parado só para eles. Ela esticou os braços acima da cabeça, sentindo a deliciosa dor nos ombros, um lembrete físico do que tinham feito. O quarto cheirava a sexo e ao perfume cítrico que Daniel usava, misturado ao aroma levemente amadeirado do sabonete do hotel.
Ao virar o rosto para o lado, encontrou o travesseiro vazio, mas ainda afundado no formato de uma cabeça. A cama estava fria onde ele deveria estar. Por um segundo, o coração de Laura disparou—será que ele tinha ido embora sem se despedir? Mas então seus olhos pousaram na mesinha de cabeceira, onde um pedaço de papel dobrado repousava ao lado de um copo d’água meio vazio e do celular dela, que ela nem se lembrava de ter deixado ali.
Ela se apoiou em um cotovelo, os seios nus roçando no lençol de algodão, e pegou o bilhete. A caligrafia de Daniel era desleixada, inclinada para a direita, como se ele tivesse escrito às pressas ou com pressa demais para se importar com a letra. *"Laura, obrigado pela noite mais inesperada (e deliciosa) dos últimos tempos. Se algum dia estiver em São Paulo ou eu aparecer de novo por aí, me liga. Ou não. Mas eu adoraria repetir. — D. P.S.: Não se preocupa com o gerente. Eu disse que era o vizinho. (Spoiler: ele acreditou.)"*
Ela riu, baixinho, passando os dedos sobre as palavras como se pudesse sentir o toque dele ali. O papel era fino, quase translúcido, e cheirava levemente a fumaça de cigarro e ao mesmo perfume que ainda grudava na sua pele. Laura dobrou o bilhete com cuidado e o guardou na bolsa, entre o batom e a carteira, como se fosse um segredo precioso. Depois, pegou o celular. Havia uma mensagem não lida, enviada às 6h47 da manhã—horário em que ela ainda dormia, aninhada contra o peito dele.
*"Acordar ao seu lado foi a melhor parte da noite. Mas não queria te assustar. Se quiser café, estou no restaurante do térreo. Se não, entendo. De qualquer forma, valeu cada segundo."*
Ela mordeu o lábio inferior, sentindo o calor subir pelo pescoço. Não era do tipo que se deixava levar por romances de uma noite—na verdade, nunca tinha sido. Sempre fora prática, racional, a mulher que calculava riscos e controlava variáveis. Mas ali, naquele quarto que não era seu, com o corpo ainda marcado pelas mãos de um estranho, Laura se permitiu sentir algo diferente. Algo perigoso e delicioso: a liberdade de não ter que decidir nada naquele momento.
Levantou-se devagar, os pés descalços tocando o carpete felpudo. O espelho do banheiro refletiu uma versão dela que ela mal reconhecia—cabelos emaranhados, lábios inchados, a pele levemente avermelhada nos lugares onde a barba de Daniel a havia arranhado. Ela passou os dedos pelos fios, tentando domá-los, mas desistiu. Em vez disso, abriu o chuveiro e deixou a água quente escorrer pelo corpo, lavando o suor, o cheiro dele, os vestígios da noite. Mas não lavou a memória.
Enrolada em um roupão branco do hotel, Laura pegou o celular novamente e digitou uma resposta antes que pudesse se arrepender.
*"Café é uma boa ideia. Mas só se você prometer não falar sobre o gerente."*
A resposta veio em segundos.
*"Prometo. Mas não garanto que não vou roubar um beijo antes do suco de laranja."*
Ela sorriu, sentindo o estômago dar um pequeno salto. Não era um compromisso. Não era uma promessa. Era só um café, uma despedida, talvez mais uma hora roubada antes que a realidade voltasse a bater à porta—reuniões, prazos, a vida que a esperava do outro lado daquela noite. Mas, por enquanto, ela se permitiu acreditar que, às vezes, as melhores coisas aconteciam quando você menos esperava.
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O restaurante do hotel era um daqueles espaços elegantes e impessoais, com mesas de mármore, cadeiras de couro e um bufê de café da manhã que parecia ter sido montado para impressionar executivos. Daniel estava sentado em uma mesa perto da janela, os raios de sol filtrados pela cortina de linho iluminando seu rosto de um jeito que o fazia parecer mais jovem do que ela se lembrava. Ele usava uma camiseta preta simples e jeans, os cabelos ainda úmidos do banho, e quando a viu se aproximar, um sorriso lento se abriu em seus lábios.
— Bom dia — ele disse, levantando-se para puxar a cadeira para ela. — Dormiu bem?
Laura sentou-se, sentindo o tecido do roupão roçar nas coxas. — Melhor do que deveria.
— Isso é um elogio?
— É um fato. — Ela pegou o cardápio, mas seus olhos não saíram dele. — E você? Dormiu algo?
— O suficiente. — Ele inclinou-se para a frente, os cotovelos apoiados na mesa, os dedos brincando com a xícara de café. — Mas confesso que acordei pensando em como seria te ver de manhã.
— E? — Laura arqueou uma sobrancelha. — Valeu a pena?
— Cada segundo. — Ele sorriu, e havia algo de perigoso naquele sorriso, como se ele soubesse exatamente o efeito que tinha sobre ela. — Principalmente a parte em que você resmungou quando eu tentei te acordar.
— Eu não resmungo.
— Resmunga, sim. E é adorável.
Ela riu, pegando um croissant da cesta entre eles. — Você é insuportável.
— E você é deliciosa. — Ele estendeu a mão por cima da mesa e roçou os dedos nos dela, um toque leve, quase casual, mas que fez o corpo de Laura reagir instantaneamente. — Então, executiva… o que você faz quando não está arruinando noites de músicos desempregados?
— Sou diretora de marketing em uma empresa de cosméticos. — Ela deu uma mordida no croissant, sentindo a manteiga derreter na língua. — E você? Além de tocar em bares e fazer gerentes de hotel acreditarem em vizinhos barulhentos?
— Sou músico, compositor, às vezes produtor. — Ele deu de ombros. — Vivo de show em show, de cidade em cidade. Não é glamouroso, mas é livre.
— Livre — ela repetiu, como se a palavra tivesse um gosto diferente na boca. — Deve ser bom.
— É. Mas tem seus momentos solitários. — Ele olhou para ela, os olhos verdes escurecendo um pouco. — Até ontem à noite, pelo menos.
Laura sentiu o coração bater mais forte. Não era uma declaração, não era uma promessa, mas havia algo ali, algo que ia além do desejo físico. Ela tomou um gole de café, tentando disfarçar o tremor nas mãos. — E agora?
— Agora? — Ele sorriu, lento e provocante. — Agora eu tenho um motivo para voltar a essa cidade.
Ela não respondeu. Em vez disso, estendeu a mão e pegou a dele, entrelaçando os dedos. O toque era quente, familiar, como se eles já se conhecessem há anos, e não apenas algumas horas. — Você vai embora hoje?
— Meu voo é às três. — Ele olhou para o relógio na parede. — Tenho algumas horas.
— Tempo suficiente para mais uma xícara de café?
— Tempo suficiente para o que você quiser.
Laura sorriu, sentindo o calor se espalhar pelo corpo. — Então vamos subir. Porque eu ainda não terminei com você.
Daniel não precisou de mais incentivo. Ele largou a xícara de café, deixou algumas notas na mesa e se levantou, estendendo a mão para ela. Laura a pegou, sentindo o peso da decisão—ou da falta dela. Não era um adeus. Não era um começo. Era só mais um momento roubado, mais uma memória para guardar na mala junto com o bilhete e o cheiro dele na pele.
E, naquele instante, era tudo o que ela queria.
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O elevador subiu em silêncio, os dois de pé, próximos o suficiente para que Laura sentisse o calor do corpo dele, mas sem se tocarem. Ela observou as luzes dos andares piscarem no painel, uma contagem regressiva para o que quer que acontecesse a seguir. Quando as portas se abriram no 12º andar, Daniel a puxou para fora com um sorriso malicioso.
— Última chance de desistir — ele murmurou, pressionando-a contra a parede do corredor.
— Não estou desistindo de nada — ela respondeu, puxando-o pela gola da camiseta. — Só estou adiando o inevitável.
Ele riu, baixo e rouco, antes de capturar sua boca em um beijo lento, profundo, que fez os joelhos de Laura fraquejarem. As mãos dele deslizaram pelo roupão, encontrando a pele nua por baixo, e ela gemeu contra seus lábios, sentindo o desejo voltar com força total, como se a noite anterior não tivesse sido suficiente.
— Você é perigosa — ele sussurrou, mordiscando seu lábio inferior.
— E você gosta disso.
— Mais do que deveria.
Eles chegaram ao quarto 1208 tropeçando, rindo, as mãos já explorando, tirando roupas, deixando um rastro pelo caminho. Daniel a empurrou contra a porta assim que ela se fechou, as mãos segurando seus pulsos acima da cabeça enquanto sua boca descia pelo pescoço dela, pelos seios, pela barriga, até que Laura não conseguiu mais pensar em nada além do prazer que ele lhe dava.
Mais tarde, deitados na cama, os corpos entrelaçados e suados, Laura traçou círculos preguiçosos no peito dele.
— Três horas — ela murmurou. — É pouco tempo.
— É o tempo que temos. — Ele beijou sua testa. — E eu pretendo aproveitar cada segundo.
Ela sorriu, fechando os olhos. Não era um final. Era só uma pausa. E, por enquanto, isso bastava.