Fronteiras do Desejo

**Fronteiras do Desejo**
O caminhão de mudança estacionou em frente à casa de número 12 com um suspiro pesado de freios, como se até os objetos soubessem que aquele não era apenas mais um endereço. Lúcia desceu do carro antes mesmo que os homens começassem a descarregar os móveis, os saltos finos de seus sapatos afundando levemente na grama recém-aparada do jardim frontal. O bairro respirava silêncio—não o vazio das ruas desertas, mas a quietude densa de quem escolheu viver entre árvores centenárias e muros baixos, onde até o vento parecia se mover com discrição.
Ela ajustou a alça da bolsa no ombro, os dedos roçando o tecido áspero do blazer que usava mesmo naquele calor de final de tarde. A casa, pintada de um branco que brilhava sob o sol poente, tinha janelas largas e uma varanda de madeira escura, detalhes que a haviam conquistado nas fotos do anúncio. Agora, de pé ali, sentia o peso da mudança não nos caixotes empilhados na calçada, mas na maneira como o ar parecia mais leve, como se o próprio espaço a convidasse a relaxar. E isso, de alguma forma, a deixava inquieta.
Foi o som de passos sobre folhas secas que a fez virar.
Rafael estava parado no limite entre os dois jardins, os pés descalços—*descalços*, como se o mundo fosse feito de terra macia e não de calçadas—, as mãos enfiadas nos bolsos de uma calça jeans surrada que moldava as coxas de um jeito que ela tentou não notar. A camiseta branca, salpicada de manchas de tinta e argila, colava-se levemente ao peito, delineando músculos que não eram de academia, mas de trabalho físico, de horas curvado sobre blocos de pedra. Os cabelos castanhos, rebeldes, caíam sobre a testa em mechas úmidas de suor, e os olhos—*Deus, os olhos*—eram de um verde tão escuro que pareciam absorver a luz ao redor.
— Você deve ser a nova vizinha — disse ele, e a voz era exatamente como ela imaginara nos segundos em que o observara: rouca, com um tom de brincadeira que fazia as palavras soarem como um convite.
Lúcia endireitou os ombros, como se pudesse se proteger daquela presença com postura profissional.
— Lúcia. Lúcia Viana.
— Rafael. — Ele sorriu, e o canto esquerdo da boca se ergueu um pouco mais que o direito, como se soubesse de um segredo. — Escultor. Ou, como minha mãe gosta de dizer, *aquele que brinca com barro e chama de arte*.
Ela riu, apesar de si mesma. O som escapou antes que pudesse contê-lo, leve, quase surpresa.
— E ela está errada?
— Depende do dia. — Rafael deu um passo à frente, e o cheiro de argila e solvente a alcançou, misturado a algo mais quente, como cedro ou sândalo. — Hoje, por exemplo, eu diria que estou trabalhando em algo que vai deixar minha mãe muito orgulhosa. Ou horrorizada. Ainda não decidi.
Lúcia cruzou os braços, não por defesa, mas porque precisava fazer *algo* com as mãos. O sol batia em cheio no rosto dele, iluminando as sardas esparsas no nariz e as pequenas cicatrizes nos dedos—marcas de quem não tem medo de se sujar.
— E o que seria?
Ele inclinou a cabeça, avaliando-a como se ela fosse uma peça de museu.
— Algo… *vivo*. — A palavra pairou entre eles, carregada de intenções. — Mas ainda não encontrei o modelo certo.
Ela sentiu o calor subir pelo pescoço, como se as mãos dele já estivessem ali, traçando contornos invisíveis. Ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha, um gesto automático que denunciava sua agitação.
— Bom, espero que encontre logo. Antes que sua mãe tenha um ataque.
Rafael riu, um som grave que vibrou no ar entre eles.
— Ah, Lúcia. — Seu nome na boca dele soou como uma promessa. — Eu acho que você não entendeu. O modelo *já* está aqui.
O silêncio que se seguiu foi tão denso que ela quase pôde ouvir o próprio coração batendo contra as costelas. Os homens da mudança passaram por eles carregando um sofá, quebrando o momento, mas a tensão permaneceu, enrolada como um fio invisível entre os dois.
— Eu… preciso terminar de organizar as coisas — disse ela, recuando um passo. — Mas obrigada pela recepção.
— O prazer foi todo meu. — Rafael não se moveu, mas seus olhos a seguiram enquanto ela caminhava de volta para a casa. — E Lúcia?
Ela parou, mas não se virou.
— Sim?
— Se precisar de ajuda para desempacotar… ou qualquer outra coisa. — A pausa foi deliberada. — Minha porta está sempre aberta.
Ela entrou na casa sem responder, mas a imagem dele—descalço, sorrindo, com aquele brilho nos olhos—ficou gravada em sua mente como uma marca. E quando fechou a porta, soube que não seria a última vez que o veria. Nem que o queria.
A noite caíra sobre o bairro como um manto de veludo, pesado e macio, interrompido apenas pelo brilho âmbar das luminárias que desenhavam sombras alongadas nos jardins. Lúcia ajustou o vestido preto—simples, mas que moldava suas curvas com uma elegância discreta—e respirou fundo antes de tocar a campainha da casa dos Moreiras. O jantar de boas-vindas. Ela havia ensaiado mentalmente como agir, como manter a compostura, como fingir que os olhares de Rafael nas últimas semanas não haviam deixado sua pele marcada como tinta fresca.
A porta se abriu antes que ela pudesse hesitar. Dona Clara, a anfitriã, sorriu com aquele calor genuíno que só as mulheres maduras sabem oferecer.
— Lúcia! Que bom que veio. Entre, entre, está todo mundo na sala.
O murmúrio das conversas flutuava pelo corredor, misturado ao tilintar de taças e ao aroma de especiarias que escapava da cozinha. Lúcia cumprimentou os vizinhos com sorrisos educados, trocando apertos de mão e palavras medidas, mas seus olhos—traidores—varreram o ambiente em busca *dele*. E lá estava Rafael, encostado no batente da porta que dava para o quintal, uma taça de vinho na mão, os cabelos ainda úmidos da chuva fina que caíra mais cedo.
Ele ergueu o copo em sua direção, um gesto quase imperceptível, mas que fez o estômago dela se contrair.
— Advogada, finalmente nos encontramos em território neutro — disse ele, quando Lúcia se aproximou, a voz baixa o suficiente para que só ela ouvisse. O tom era leve, mas havia algo de desafio no modo como seus lábios se curvaram.
— Território neutro? — ela repetiu, erguendo uma sobrancelha. — Achei que já tivéssemos estabelecido que sua porta está sempre aberta.
Rafael riu, um som rouco que vibrou entre eles como uma corda dedilhada.
— Touché. Mas aqui, pelo menos, não preciso me preocupar com você fugindo antes de eu terminar uma frase.
— Quem disse que eu fugiria?
— Seu olhar. — Ele se inclinou um pouco, o suficiente para que o cheiro de sabonete e algo mais primitivo—madeira, suor limpo—chegasse até ela. — Sempre que nos aproximamos, você recua como se eu fosse pegar fogo.
Lúcia sentiu o calor subir pelo pescoço. Não era medo. Era o oposto. Era a consciência aguda de que, se ele a tocasse ali, naquele instante, ela não teria forças para se afastar.
— Talvez eu esteja apenas sendo cautelosa — murmurou, desviando os olhos para a taça que segurava. O vinho tremeluziu, rubro e espesso, como sangue sob a luz.
— Cautelosa. — Rafael repetiu a palavra como se a saboreasse. — Gosto disso. Cautela é subestimada.
Antes que ela pudesse responder, Dona Clara apareceu ao lado deles, interrompendo o momento com a eficiência de quem não percebe (ou finge não perceber) a eletricidade no ar.
— Rafael, querido, você pode ajudar Lúcia com os aperitivos? A bandeja está pesada, e eu preciso terminar o risoto.
— Claro — ele disse, sem tirar os olhos dela. — Vamos lá, advogada.
A cozinha era um espaço pequeno, iluminado por uma lâmpada amarelada que lançava sombras douradas sobre as bancadas de mármore. Lúcia se posicionou ao lado da pia, observando enquanto Rafael pegava a bandeja de canapés—pequenas obras de arte com salmão defumado e creme de queijo. O modo como seus dedos longos se moviam, precisos e ágeis, fez com que ela imaginasse como seria tê-los em outras partes do corpo.
— Você cozinha? — perguntou, tentando distrair a mente.
— Às vezes. — Ele colocou a bandeja sobre a mesa e se virou para ela, apoiando as mãos na bancada, uma de cada lado do corpo dela. O movimento foi sutil, mas suficiente para prendê-la ali, entre o mármore frio e o calor do corpo dele. — Mas prefiro criar com as mãos. Algo que dure.
Lúcia engoliu em seco. O ar entre eles estava carregado, denso como mel derramado.
— E o que você cria que não dura?
Rafael sorriu, lento, como se soubesse exatamente o efeito que suas palavras teriam.
— Toques. Beijos. — Sua voz baixou ainda mais, um sussurro que roçou a orelha dela. — Momentos que a gente guarda na memória porque não dá para esculpir em argila.
Ela deveria se afastar. Deveria voltar para a sala, retomar a conversa com os vizinhos, fingir que aquele jogo não a afetava. Mas seus pés estavam presos ao chão, e quando Rafael se inclinou um pouco mais, o tecido da camisa roçando o braço dela, Lúcia sentiu o corpo reagir—os mamilos endurecendo sob o vestido, um calor úmido entre as pernas.
— Você está brincando com fogo — murmurou.
— Ou talvez eu só esteja esperando você se queimar.
Foi nesse instante que aconteceu.
Rafael estendeu a mão para pegar um guardanapo sobre a bancada, e seus dedos—*acidentalmente*—roçaram a cintura dela. Um toque leve, quase imperceptível, mas que atravessou o tecido do vestido como uma descarga elétrica. Lúcia prendeu a respiração, os lábios entreabertos, e viu os olhos dele escurecerem, as pupilas dilatadas engolindo o verde das íris.
— Desculpe — ele disse, mas não havia arrependimento na voz. Havia fome.
— Não foi nada — ela conseguiu responder, mas as palavras saíram trêmulas.
Rafael não se moveu. Seus dedos ainda estavam ali, pairando sobre a pele dela, como se esperasse permissão para continuar. E então, devagar, ele deslizou a mão para cima, apenas alguns centímetros, até que o polegar roçou a lateral do seio dela, por cima do tecido. Um toque mínimo, mas que fez Lúcia soltar um suspiro entrecortado.
— Isso também foi acidental? — perguntou, a voz rouca.
Ele não respondeu. Em vez disso, inclinou-se ainda mais, até que sua boca estivesse a um fio de distância da dela.
— Diga para eu parar — sussurrou.
Lúcia não disse nada.
Os lábios de Rafael se curvaram em um sorriso vitorioso, e então sua mão se fechou em torno da cintura dela, puxando-a para mais perto. O corpo de Lúcia colidiu com o dele, e ela sentiu a rigidez da ereção pressionando seu ventre, quente e insistente. Um gemido escapou de sua garganta antes que pudesse contê-lo.
— Rafael… — começou, mas ele a silenciou com um beijo.
Não foi um beijo suave. Foi voraz, faminto, como se ele estivesse esperando por aquele momento desde o primeiro dia em que a vira. Sua língua invadiu a boca dela, explorando, reivindicando, enquanto as mãos deslizavam pelas costas de Lúcia, puxando-a ainda mais contra si. Ela correspondeu, os dedos se enroscando nos cabelos dele, as unhas arranhando levemente o couro cabeludo.
O mundo ao redor desapareceu. Não havia mais vozes na sala, nem o som das taças tilintando, nem o cheiro de comida. Havia apenas o calor do corpo dele, o gosto de vinho e menta em sua boca, a pressão dos dedos de Rafael apertando sua cintura com uma possessividade que a fez tremer.
Quando ele finalmente se afastou, ambos estavam ofegantes. Lúcia levou os dedos aos lábios, inchados e sensíveis, e viu o peito de Rafael subir e descer em movimentos rápidos.
— Isso — ele disse, a voz áspera — definitivamente não foi acidental.
Ela deveria se sentir culpada. Deveria se preocupar com os vizinhos, com as aparências, com o fato de que mal se conheciam. Mas tudo o que conseguiu sentir foi uma excitação pulsante, uma necessidade que latejava entre suas pernas, implorando por mais.
— Nós… nós não podemos fazer isso aqui — murmurou, mas não fez nenhum movimento para se afastar.
Rafael segurou o queixo dela entre os dedos, forçando-a a olhar para ele.
— Então me diga onde podemos.
Lúcia abriu a boca para responder, mas antes que pudesse falar, a voz de Dona Clara ecoou pelo corredor:
— Rafael? Lúcia? Onde vocês se meteram?
Eles se separaram num instante, como se queimados. Lúcia alisou o vestido, tentando recuperar a compostura, enquanto Rafael ajustava a camisa, os olhos ainda fixos nela com uma intensidade que prometia continuação.
— Já vamos — ele respondeu, sem desviar o olhar.
Lúcia engoliu em seco. Sabia que, a partir daquele momento, nada seria como antes. E quando Rafael estendeu a mão para pegar a bandeja de canapés, seus dedos roçaram os dela de propósito, um lembrete silencioso do que havia acabado de acontecer.
— Depois do jantar — ele murmurou, tão baixo que ela quase não ouviu. — Minha porta. Não importa a hora.
E então ele saiu da cozinha, deixando-a sozinha com o coração batendo descompassado e a certeza de que, naquela noite, ela cruzaria uma fronteira da qual não haveria volta.
O temporal desabou sobre o bairro como se o céu tivesse rasgado as próprias entranhas. Lúcia mal teve tempo de fechar as janelas do quarto antes que a chuva se transformasse em uma cortina espessa, batendo contra os vidros com uma fúria quase pessoal. Os trovões ribombavam, sacudindo as paredes, e os relâmpagos iluminavam o cômodo em flashes azuis, revelando por segundos a silhueta das árvores do jardim, retorcidas pelo vento.
Ela desceu as escadas correndo, os pés descalços afundando no tapete persa da sala, e foi até a porta da frente. A fechadura estava trancada, mas a água já se infiltrava por baixo, formando uma poça escura que se espalhava pelo piso de mármore. Lúcia praguejou baixinho, puxando a chave com força. Quando finalmente conseguiu abrir, uma rajada de vento úmido a atingiu em cheio, encharcando sua camisola de seda em segundos. O tecido colou-se ao corpo, delineando os mamilos endurecidos pelo frio, e ela cruzou os braços sobre o peito, tentando se proteger.
Foi então que viu a luz.
Uma janela iluminada no ateliê de Rafael, do outro lado do jardim. A construção baixa, anexa à casa dele, parecia um refúgio dourado em meio à tempestade. Lúcia hesitou por um instante, os dedos dos pés se encolhendo no piso gelado. Não era apenas a chuva que a impelia para lá—era a memória do toque acidental na cozinha, o calor da pele dele sob a camisa, o modo como seus olhares se enredavam desde então, como fios invisíveis puxando-os um para o outro.
Com um suspiro que se perdeu no rugido do vento, ela correu.
A porta do ateliê estava entreaberta, como se Rafael a tivesse deixado assim de propósito. Lúcia empurrou-a com cuidado, e o cheiro a atingiu primeiro: argila úmida, tinta a óleo, madeira envernizada. Era um aroma denso, quase tátil, que parecia se grudar na garganta. Ela entrou, fechando a porta atrás de si com um estalo suave, e ficou parada por um momento, deixando os olhos se ajustarem à penumbra.
O espaço era maior do que parecia de fora. Nas paredes, esboços a carvão e esculturas inacabadas se misturavam a ferramentas espalhadas sobre bancadas de trabalho. No centro, uma plataforma elevada sustentava uma peça maior—uma figura feminina em argila, ainda em estágio inicial, mas já com curvas que lembravam um corpo real. Lúcia aproximou-se, fascinada, e estendeu a mão para tocar a superfície fria e áspera. A argila cedeu levemente sob seus dedos, deixando uma marca tênue.
— Não toque.
A voz de Rafael veio de trás dela, baixa e rouca. Lúcia se virou, o coração disparado. Ele estava parado sob o batente de uma porta interna, os braços cruzados sobre o peito nu. A luz âmbar de um abajur projetava sombras sobre os músculos definidos dos ombros, do abdômen, e ela teve que engolir em seco para não deixar escapar um suspiro.
— Desculpe — murmurou, afastando a mão. — Eu só... nunca vi uma escultura de perto.
Rafael não se moveu. Seus olhos, escuros como a noite lá fora, percorreram o corpo dela da cabeça aos pés, demorando-se nos pontos onde a camisola molhada aderira à pele.
— Você está encharcada.
Não era uma pergunta. Lúcia sentiu o rosto queimar.
— Eu não esperava que a chuva fosse tão forte.
Ele finalmente se aproximou, os passos silenciosos sobre o piso de madeira. Quando parou diante dela, o calor do corpo dele a envolveu, contrastando com o frio que ainda a percorria.
— Vem. — Rafael pegou uma toalha de um cabideiro próximo e a envolveu nos ombros dela. — Você vai acabar ficando doente.
Lúcia deixou que ele a cobrisse, mas quando os dedos dele roçaram sua nuca ao ajustar a toalha, um arrepio a percorreu, não de frio. Rafael percebeu. Seus lábios se curvaram em um sorriso lento, quase predatório.
— Ou então — ele murmurou, inclinando-se para que sua boca ficasse a centímetros da orelha dela — você pode tirar essa roupa.
O hálito quente fez Lúcia fechar os olhos por um instante. Quando os abriu, Rafael estava recuando, mas o desafio em seu olhar era claro.
— Eu... — Ela hesitou, sentindo o peso da camisola colada ao corpo. — Não trouxe nada para trocar.
— Não precisa. — Ele apontou para um sofá baixo, coberto por um lençol manchado de tinta. — Pode se secar aqui. Eu vou fazer um chá.
Lúcia assentiu, mas quando ele se virou para sair, ela estendeu a mão sem pensar.
— Rafael.
Ele parou, olhando para ela por cima do ombro.
— Obrigada. Por... por me deixar entrar.
Um trovão explodiu no céu, fazendo as paredes tremerem. Rafael voltou até ela, devagar, como se tivesse todo o tempo do mundo. Quando parou a poucos centímetros, Lúcia sentiu o cheiro dele—suor limpo, sabão, a argila que parecia impregnada em sua pele.
— Você não precisa me agradecer — ele disse, a voz áspera. — Eu queria que você viesse.
As palavras pairaram entre eles, carregadas de algo que ia além da gentileza. Lúcia mordeu o lábio, sentindo o pulso acelerar.
— Por quê?
Rafael ergueu a mão e, com um dedo, traçou uma linha lenta desde a clavícula dela até o vale entre os seios. O toque foi leve, quase imperceptível, mas Lúcia sentiu como se ele a tivesse marcado a ferro.
— Porque desde aquela noite na cozinha — ele murmurou —, eu não consigo parar de pensar em você.
Ela deveria ter recuado. Deveria ter lembrado que eram vizinhos, que o bairro inteiro os observava, que ela mal o conhecia. Mas o corpo dela não obedecia. Em vez disso, inclinou-se para frente, como se atraída por um ímã.
— Eu também — confessou, a voz trêmula. — Eu tento não pensar, mas...
— Mas o quê?
— Mas quando eu fecho os olhos, eu sinto suas mãos em mim. — As palavras escaparam antes que ela pudesse detê-las. Lúcia sentiu o rosto queimar, mas não desviou o olhar. — E isso me assusta.
Rafael não sorriu. Não riu. Apenas segurou o rosto dela entre as mãos, os polegares acariciando as maçãs do rosto com uma ternura que a desarmou.
— Não precisa ter medo — ele sussurrou. — Eu não vou te machucar.
E então, antes que ela pudesse responder, ele a beijou.
Não foi um beijo suave. Foi urgente, faminto, como se ambos tivessem esperado por aquele momento por semanas. Os lábios de Rafael eram quentes, exigentes, e quando sua língua encontrou a dela, Lúcia gemeu baixinho, agarrando-se aos ombros dele para não cair. As mãos de Rafael deslizaram pelas costas dela, puxando-a para mais perto, e Lúcia sentiu a rigidez da ereção dele contra seu ventre.
— Porra — ele rosnou contra a boca dela, interrompendo o beijo por um segundo. — Eu tentei resistir.
— Eu também — Lúcia admitiu, ofegante. — Mas eu não quero mais.
Rafael a olhou por um longo momento, os olhos escuros brilhando com algo que ela não conseguiu decifrar. Então, sem dizer nada, ele a pegou no colo.
Lúcia soltou um gritinho surpreso, mas logo se agarrou ao pescoço dele enquanto ele a carregava até o sofá. Rafael a deitou com cuidado, afastando o lençol manchado de tinta para que ela ficasse sobre a superfície limpa. Por um instante, apenas a observou, como se quisesse memorizar cada detalhe—os cabelos molhados espalhados, os lábios inchados, o peito subindo e descendo com a respiração acelerada.
— Você é linda — ele murmurou, passando a mão pelo quadril dela, puxando a camisola para cima. — Mais do que eu imaginava.
Lúcia arqueou as costas quando os dedos dele encontraram a pele nua da coxa. A camisola subiu mais, revelando a calcinha de renda preta, e Rafael gemeu.
— Caralho.
Ela não disse nada. Não conseguia. A única coisa que saiu de sua boca foi um suspiro quando a mão dele deslizou para dentro da calcinha, os dedos encontrando o ponto úmido e quente entre suas pernas.
— Rafael... — O nome dele saiu como uma prece.
— Eu sei — ele sussurrou, beijando o pescoço dela enquanto seus dedos trabalhavam em movimentos lentos e torturantes. — Eu também quero você.
Lúcia fechou os olhos, entregando-se às sensações. O cheiro da argila misturado ao perfume masculino, o som da chuva batendo no telhado, o calor do corpo dele sobre o seu. Quando Rafael abaixou a cabeça e tomou um mamilo entre os lábios, sugando através do tecido molhado da camisola, ela não conseguiu conter um gemido alto.
— Shhh — ele murmurou, erguendo a cabeça por um segundo. — Os vizinhos...
— Ninguém vai ouvir — Lúcia ofegou, puxando-o de volta para si. — Não com essa tempestade.
Rafael não precisou de mais incentivo. Com um movimento rápido, puxou a camisola sobre a cabeça dela, deixando-a completamente nua. Por um instante, apenas a admirou, os olhos percorrendo cada curva, cada sombra.
— Perfeita — ele disse, rouco.
Então, sem aviso, abaixou-se e substituiu os dedos pela boca.
Lúcia arqueou as costas, as mãos agarrando os cabelos dele enquanto a língua de Rafael a explorava com uma precisão devastadora. Ele não tinha pressa. Saboreava cada reação dela, cada tremor, cada gemido abafado. Quando ela estava à beira do precipício, ele recuou, deixando-a ofegante e frustrada.
— Rafael, por favor...
Ele sorriu, lambendo os lábios.
— Por favor o quê?
— Eu quero você — ela implorou, puxando-o para cima. — Agora.
Rafael não resistiu. Em segundos, tirou a calça, revelando o que ela já havia sentido: um pau grosso, duro, pronto. Lúcia estendeu a mão, envolvendo-o com os dedos, e Rafael gemeu, fechando os olhos por um instante.
— Camisinha — ele conseguiu dizer, a voz estrangulada.
— Na minha bolsa — Lúcia murmurou, apontando para onde a deixara cair perto da porta.
Rafael se levantou num salto, pegando a bolsa e vasculhando-a até encontrar o pacotinho prateado. Lúcia o observou enquanto ele rasgava a embalagem com os dentes, os músculos das costas se movendo sob a pele. Quando ele voltou, já protegido, ela abriu as pernas em convite.
Não houve mais palavras.
Rafael a penetrou com um movimento lento, mas firme, enchendo-a de uma vez. Lúcia gemeu, as unhas cravando-se nas costas dele enquanto seu corpo se ajustava à invasão. Ele parou por um segundo, dando-lhe tempo, antes de começar a se mover.
E então não houve mais nada além do som da chuva, dos corpos se chocando, dos gemidos abafados contra o pescoço um do outro. Rafael a possuía com uma intensidade que beirava a reverência, como se ela fosse algo precioso, algo que ele temia quebrar. Lúcia se agarrou a ele, perdida no prazer, no calor, na certeza de que aquilo era apenas o começo.
Quando o orgasmo a atingiu, foi como uma onda quebrando sobre ela, arrastando-a para um mar de sensações. Rafael a seguiu logo depois, enterrando o rosto no pescoço dela enquanto gemia seu nome.
Por longos minutos, ficaram assim, entrelaçados, ofegantes, os corpos ainda tremendo com os últimos espasmos do prazer. A chuva continuava a cair lá fora, mas dentro do ateliê, o mundo parecia ter parado.
Rafael ergueu a cabeça, olhando para ela com uma expressão que Lúcia não conseguiu decifrar.
— Isso — ele murmurou, afastando uma mecha de cabelo úmido da testa dela — foi inevitável.
Lúcia sorriu, passando os dedos pelo rosto dele.
— Eu sei.
Ele a beijou de novo, suave dessa vez, como se selasse uma promessa.
— E não acabou.
Lúcia sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Não, não acabava ali. Mas o que viria depois era um território desconhecido, e pela primeira vez em muito tempo, ela não tinha medo de explorá-lo.
Apenas uma pergunta pairava no ar, sussurrada pela tempestade:
*Até onde eles estariam dispostos a ir?*
A primeira vez que cruzaram a cerca viva que separava seus jardins, foi como se um fio invisível os puxasse. Lúcia não soube dizer quem deu o primeiro passo—se foi ela, atraída pelo cheiro de terebintina e suor masculino que emanava da varanda de Rafael, ou se foi ele, que a observava da janela do ateliê com aquele sorriso lento, os olhos escuros prometendo coisas que ela ainda não ousava nomear. O fato é que, quando percebeu, seus dedos já roçavam a madeira áspera da porta dos fundos, e então ele estava ali, segurando-a pela cintura, puxando-a para dentro antes que o mundo lá fora pudesse notar.
A casa de Rafael cheirava a coisas proibidas: argila úmida, óleo de linhaça, o vinho tinto que ele serviu em taças lascadas de tanto uso. Lúcia passou a ponta dos dedos pela bancada de trabalho, onde uma escultura inacabada repousava, coberta por um pano manchado. A forma sob o tecido lembrava um torso feminino, curvas suaves e uma inclinação de quadris que a fez engolir em seco.
— Você me esculpiu? — perguntou, a voz saindo mais rouca do que pretendia.
Rafael riu, baixo, enquanto enchia as taças. O líquido escuro refletia a luz da lua que entrava pela janela, tingindo seus dedos de rubi.
— Ainda não. Mas estou pensando nisso.
Ela não respondeu. Em vez disso, levou a taça aos lábios e deixou o vinho queimar sua garganta, como se o álcool pudesse justificar o que estava prestes a acontecer. Rafael a observava, os olhos semicerrados, como se já soubesse cada pensamento que passava por sua mente.
— Você tem medo? — ele murmurou, aproximando-se.
Lúcia balançou a cabeça, mas seu corpo a traiu: os ombros tensos, a respiração acelerada, os mamilos já duros sob o tecido fino do vestido. Rafael sorriu, satisfeito, e estendeu a mão. Não a tocou. Apenas deixou os dedos pairando no ar entre eles, como se desafiando-a a diminuir a distância.
Ela o fez.
O primeiro contato foi elétrico. A palma dele contra a sua, quente, áspera de trabalhar com ferramentas. Rafael entrelaçou seus dedos e a puxou para mais perto, até que seus corpos se encaixassem como peças de um quebra-cabeça que só agora descobriam pertencer uma à outra. Lúcia sentiu o volume da excitação dele contra seu ventre e mordeu o lábio, contendo um gemido.
— Não precisa se conter — ele sussurrou, a boca roçando a orelha dela. — Aqui, só nós dois.
E então, como se aquelas palavras tivessem quebrado um feitiço, Lúcia se entregou. Suas mãos subiram pelo peito dele, sentindo os músculos firmes sob a camisa de linho, os batimentos acelerados do coração. Rafael gemeu quando ela puxou o tecido para fora da calça, os dedos impacientes buscando a pele nua. Ele a ajudou, arrancando a camisa pela cabeça com um movimento rápido, e então suas mãos estavam sobre ela, desabotoando o vestido com uma urgência que beirava a violência.
O tecido deslizou pelos ombros de Lúcia, acumulando-se aos seus pés. Ela ficou ali, de calcinha e sutiã de renda preta, os mamilos visíveis através do tecido fino, os seios arfando a cada respiração. Rafael a devorou com os olhos, a língua passando lentamente pelos lábios.
— Porra, Lúcia — ele rosnou, puxando-a de volta contra si. — Você é ainda mais linda do que eu imaginava.
Ela não teve tempo de responder. As mãos dele já estavam em suas costas, desabotoando o sutiã com uma habilidade que denunciava prática. O ar frio da noite tocou seus mamilos, fazendo-os enrijecer ainda mais. Rafael não perdeu tempo: abaixou a cabeça e capturou um deles entre os lábios, sugando com força enquanto sua mão livre apertava o outro seio.
Lúcia arqueou as costas, os dedos se enroscando nos cabelos dele. Cada puxão de boca, cada mordida leve, enviava ondas de prazer direto para seu ventre, umedecendo-a de uma forma que a envergonhava e excitava ao mesmo tempo. Rafael percebeu. Sempre percebia.
— Tá molhadinha pra mim, advogada? — ele murmurou, a voz rouca, os dedos deslizando pela barriga dela até alcançar a borda da calcinha.
Lúcia não respondeu. Apenas mordeu o lábio e assentiu, os olhos fechados, o corpo inteiro tremendo de antecipação. Rafael riu, um som baixo e satisfeito, e então seus dedos estavam lá, empurrando o tecido para o lado, deslizando entre suas dobras já escorregadias.
— Caralho — ele gemeu, sentindo como ela estava pronta. — Você tá me matando.
Lúcia não aguentou mais. Agarrou a mão dele e a guiou para dentro de si, suspirando quando dois dedos a penetraram de uma vez, curvando-se para atingir aquele ponto que a fazia ver estrelas. Rafael não foi gentil. Não dessa vez. Seus dedos se moveram com uma precisão cruel, entrando e saindo, enquanto o polegar circulava seu clitóris com uma pressão que a fazia se contorcer.
— Rafael, por favor — ela implorou, as unhas cravadas nos ombros dele. — Eu preciso…
— Do quê? — ele provocou, diminuindo o ritmo, fazendo-a gemer de frustração. — Diz.
— De você — ela ofegou. — Dentro de mim.
Rafael não precisou ouvir duas vezes. Com um movimento rápido, a ergueu nos braços e a carregou até o sofá de couro gasto do ateliê, deitando-a sobre as almofadas que cheiravam a ele. Lúcia o observou desabotoar a calça, os olhos fixos no volume que se libertava, grosso e latejante. Ela lambeu os lábios, antecipando, e Rafael gemeu, agarrando-a pelos quadris e puxando-a para a beirada do sofá.
— Você vai me matar — ele repetiu, alinhando-se a ela.
Mas antes que pudesse entrar, Lúcia o deteve com uma mão no peito.
— Espera.
Rafael franziu a testa, a respiração pesada.
— O que foi?
Ela hesitou, os dedos traçando círculos na pele dele.
— E se alguém nos ver?
O sorriso de Rafael foi lento, predatório.
— Ninguém vai ver. — Ele se inclinou, beijando-a com força. — Mas se você quiser, podemos ir para o meu quarto. Ou para o seu. Ou para qualquer lugar onde você se sinta segura.
Lúcia mordeu o lábio. A ideia de serem pegos, de alguém do bairro perceber o que acontecia entre eles, a excitava de uma forma perversa. Mas Rafael tinha razão. Eles precisavam ser cuidadosos.
— Seu quarto — ela decidiu.
Rafael não perdeu tempo. Levantou-a nos braços novamente, carregando-a escada acima como se ela não pesasse nada. O quarto dele era uma extensão do ateliê: desordenado, masculino, cheio de esculturas inacabadas e livros empilhados no chão. A cama, porém, estava arrumada, os lençóis limpos cheirando a sabão em pó e algo mais primitivo, algo que Lúcia reconheceu como o cheiro do próprio desejo.
Ele a deitou com cuidado, como se ela fosse feita de porcelana, mas assim que seus corpos se encontraram novamente, a delicadeza se desfez. Rafael a beijou com fome, as mãos explorando cada centímetro de sua pele, como se quisesse memorizá-la. Lúcia respondeu da mesma forma, arranhando as costas dele, mordendo seu ombro, gemendo quando ele finalmente entrou nela com um movimento lento, profundo, que a fez arquear as costas e gritar seu nome.
— Porra, Lúcia — ele gemeu, começando a se mover. — Você é tão apertada…
Ela não conseguiu responder. Apenas se agarrou a ele, as unhas cravadas em sua pele, enquanto Rafael a penetrava com estocadas cada vez mais rápidas, cada vez mais fortes. A cama rangia sob eles, o som se misturando aos gemidos e ao som úmido de seus corpos se unindo. Lúcia sentiu o orgasmo se aproximando, uma onda quente que começava no ventre e se espalhava por todo o seu corpo.
— Rafael, eu vou… — ela conseguiu dizer, antes que as palavras se perdessem em um grito.
Ele a acompanhou logo depois, enterrando o rosto em seu pescoço enquanto gozava, o corpo tremendo com a força da liberação. Por longos minutos, ficaram ali, ofegantes, os corpos grudados pelo suor, os batimentos cardíacos aos poucos voltando ao normal.
Rafael ergueu a cabeça, olhando para ela com uma expressão que Lúcia não conseguiu decifrar. Havia algo ali—algo além do desejo, algo que a assustava e a fascinava ao mesmo tempo.
— Isso não foi só sexo — ele murmurou, afastando uma mecha de cabelo do rosto dela.
Lúcia sentiu o coração apertar.
— Eu sei.
Ele a beijou novamente, suave dessa vez, como se selando uma promessa.
— E não vai ser só isso.
Ela não respondeu. Não precisava. Os dois sabiam que aquilo era maior do que eles, maior do que qualquer segredo que pudessem guardar. Mas enquanto Rafael a puxava para mais perto, envolvendo-a em seus braços, Lúcia não pôde deixar de se perguntar: até onde eles estariam dispostos a ir?
E, mais importante, o que aconteceria quando o mundo lá fora descobrisse?
A lua cheia pairava sobre o bairro como um olho atento, derramando sua luz prateada sobre os telhados e jardins, tingindo tudo de um brilho quase sobrenatural. Lúcia a observava da janela de seu quarto, os dedos tamborilando no vidro frio, enquanto a lembrança do último encontro com Rafael queimava em sua pele. Ele havia sussurrado algo sobre uma surpresa, uma noite que seria diferente de todas as outras. *"Vista algo que possa sujar"*, dissera, com aquele sorriso de canto que fazia seu estômago se contrair. Ela escolheu um vestido leve, de linho cru, sem nada por baixo—apenas a pele e a expectativa.
Quando bateu à porta do ateliê de Rafael, a música já escapava pelas frestas: algo grave, pulsante, como um batimento cardíaco. Ele abriu a porta devagar, os olhos escuros brilhando sob a luz das velas que iluminavam o espaço em tons dourados e âmbar. O cheiro de argila úmida e tinta a óleo a envolveu, misturado ao aroma terroso de seu próprio corpo, que já reagia à presença dele.
— Você veio — ele disse, como se duvidasse. Mas havia algo mais na voz, uma rouquidão que denunciava o quanto também estava afetado.
Lúcia entrou sem responder, os pés descalços afundando no tapete gasto que cobria o chão de cimento. O ateliê estava transformado: velas espalhadas em nichos e prateleiras, seus reflexos dançando nas paredes de tijolos aparentes; uma mesa comprida coberta por um pano limpo, sobre a qual repousava um bloco de argila fresca, ainda úmido; e, no centro, um banco alto, como aqueles usados por modelos em aulas de desenho.
— O que é isso? — ela perguntou, embora já soubesse.
Rafael fechou a porta atrás de si, o clique da fechadura ecoando como um convite. Ele se aproximou, os dedos roçando o ombro dela antes de deslizarem pelo braço, deixando um rastro de calor.
— Uma escultura ao vivo. Mas não vou usar os olhos para capturar você.
Lúcia engoliu em seco. A ideia a excitava e a intimidava na mesma medida. Ele sempre soube como desarmá-la, como transformar o desejo em algo tangível, quase doloroso.
— E o que vai usar?
Ele sorriu, lento, os lábios se curvando como se guardassem um segredo.
— As mãos.
O ar entre eles se adensou. Rafael pegou um avental de couro gasto, amarrando-o na cintura dela com movimentos deliberados, os nós dos dedos roçando a pele exposta do ventre. O tecido era áspero contra sua pele, um contraste delicioso com a suavidade do vestido.
— Suba — ele indicou o banco com um gesto.
Lúcia obedeceu, sentando-se na superfície fria de madeira. A posição a deixava vulnerável, os joelhos ligeiramente afastados, o vestido subindo pelas coxas. Rafael observou cada detalhe, como se memorizasse a curva de seu quadril, a sombra entre as pernas, o modo como os mamilos já se destacavam sob o tecido fino.
— Você confia em mim? — ele perguntou, pegando um punhado de argila e amassando-o entre os dedos. A massa cedeu com um som molhado, grudento.
Ela assentiu, mas ele segurou seu queixo, forçando-a a olhar nos olhos.
— Preciso ouvir.
— Sim — Lúcia sussurrou. — Confio.
Rafael soltou um suspiro, como se ela tivesse lhe dado algo precioso. Então, sem aviso, mergulhou as mãos na argila e as levou até ela.
O primeiro contato foi uma surpresa: a massa fria e pesada contra a pele quente de sua coxa. Lúcia estremeceu, mas não se moveu. Rafael espalhou a argila devagar, os dedos deslizando para cima, contornando o osso do quadril, pressionando levemente antes de recuar. Era uma carícia estranha, quase clínica, mas o modo como ele a olhava—como se cada toque fosse uma pergunta—transformava tudo em algo íntimo, proibido.
— Respire — ele murmurou, quando percebeu que ela prendia o ar.
Lúcia obedeceu, e o ar escapou em um suspiro trêmulo quando as mãos dele subiram, moldando a cintura, os flancos, os seios. A argila era áspera, mas Rafael a trabalhava com uma delicadeza que a fazia arquear as costas, buscando mais. Ele não apressava nada, cada movimento era uma exploração, uma descoberta. Quando os polegares roçaram os mamilos, já duros e sensíveis, ela gemeu, o som abafado pela música que agora parecia vir de dentro dela.
— Rafael…
— Shhh — ele interrompeu, os dedos mergulhando novamente na argila. — Ainda não terminei.
Dessa vez, ele se ajoelhou diante dela, as mãos subindo pelas coxas, espalhando a massa até que a pele ficasse coberta, brilhante sob a luz das velas. Lúcia sentiu o peso da argila, a umidade grudando no vestido, mas não se importou. Estava hipnotizada pelo modo como ele a olhava, como se ela fosse a obra mais perfeita que já havia tocado.
Então, as mãos dele se moveram para dentro.
O primeiro toque foi quase acidental: os dedos roçando a borda molhada entre as pernas, onde a argila se misturava ao seu próprio calor. Lúcia arfou, os quadris se inclinando para frente sem que pudesse evitar. Rafael não sorriu, não acelerou. Apenas continuou, as mãos agora trabalhando em círculos lentos, espalhando a massa até que a vulva estivesse coberta, os lábios externos grudados pela argila, a entrada pulsando em expectativa.
— Porra — ele murmurou, a voz rouca. — Você é linda assim.
Lúcia não conseguiu responder. Os dedos dele a penetraram de leve, apenas o suficiente para sentir como estava molhada, como o corpo dela reagia mesmo sob a camada fria da argila. Ela gemeu, as unhas cravando-se na madeira do banco, e Rafael gemeu junto, como se o som dela o afetasse tanto quanto a ela.
— Quero sentir você — ele disse, retirando os dedos. — Mas não assim.
Antes que ela pudesse perguntar o que ele queria dizer, Rafael se levantou e pegou um pano úmido. Com movimentos cuidadosos, começou a limpar a argila de seu corpo, tirando-a em tiras longas, revelando a pele por baixo—vermelha, sensível, viva. Quando chegou entre as pernas, Lúcia já estava ofegante, os músculos tremendo.
— Rafael, por favor…
Ele não a fez esperar. Os dedos voltaram, dessa vez sem barreiras, deslizando pela umidade que escorria dela, encontrando o clitóris inchado. Lúcia arqueou as costas, um grito escapando de sua garganta quando ele a tocou com precisão, como se soubesse exatamente o que ela precisava.
— Isso — ele sussurrou, os lábios roçando sua orelha. — Goza para mim.
E ela gozou. Não foi um orgasmo suave, mas uma explosão que a atravessou como um raio, fazendo seu corpo se contrair em espasmos, os quadris se movendo contra a mão dele em busca de mais, sempre mais. Rafael a segurou, uma mão na cintura, a outra entre as pernas, prolongando o prazer até que ela não aguentasse mais.
Quando finalmente desabou contra ele, os braços de Rafael a envolveram, puxando-a para perto. Lúcia sentiu o coração dele batendo forte contra suas costas, o peito subindo e descendo em sincronia com o seu.
— Ainda não terminei — ele murmurou, beijando seu ombro.
Ela riu, fraca, mas o riso morreu na garganta quando ele a virou de frente, as mãos segurando seu rosto.
— Quero você inteira.
Lúcia olhou para a mesa, para o bloco de argila ainda intocado. Entendeu.
— Então me molde — ela disse, a voz firme apesar do tremor nas pernas.
Rafael a beijou, longo e profundo, antes de pegar mais argila. Dessa vez, não haveria pressa. Ele a deitou sobre a mesa, o pano protegendo sua pele, e começou a trabalhar. As mãos dele estavam em toda parte—nos seios, na barriga, nas coxas—mas não era apenas a argila que ele moldava. Era ela. Cada toque era uma pergunta, uma promessa, uma confissão.
Lúcia fechou os olhos, deixando-se levar. A música, o cheiro da argila, o calor das velas, o peso das mãos dele—tudo se fundia em uma sensação única, avassaladora. Quando Rafael finalmente a penetrou, as mãos ainda sujas de argila segurando seus quadris, ela soube que não havia volta.
Ele a possuiu devagar, cada estocada um estudo, uma descoberta. Lúcia se agarrou a ele, as unhas marcando suas costas, a boca buscando a dele em beijos desesperados. Quando gozou pela segunda vez, foi com um grito que ecoou pelas paredes do ateliê, o corpo tremendo sob o dele.
Rafael a seguiu logo depois, enterrando o rosto em seu pescoço enquanto se derramava dentro dela, os corpos grudados pelo suor e pela argila.
Por longos minutos, ficaram ali, ofegantes, os batimentos aos poucos voltando ao normal. Então, Rafael ergueu a cabeça, olhando para ela com uma expressão que Lúcia não conseguiu decifrar. Havia algo ali—algo além do desejo, algo que a assustava e a fascinava ao mesmo tempo.
— Isso não foi só sexo — ele murmurou, afastando uma mecha de cabelo do rosto dela.
Lúcia sentiu o coração apertar.
— Eu sei.
Ele a beijou novamente, suave dessa vez, como se selando uma promessa.
— E não vai ser só isso.
Ela não respondeu. Não precisava. Os dois sabiam que aquilo era maior do que eles, maior do que qualquer segredo que pudessem guardar.
Mas enquanto Rafael a puxava para mais perto, envolvendo-a em seus braços, Lúcia não pôde deixar de se perguntar: até onde eles estariam dispostos a ir?
E, mais importante, o que aconteceria quando o mundo lá fora descobrisse?
A chuva daquela manhã tinha lavado o bairro, deixando o ar com cheiro de terra molhada e jasmim. Lúcia acordou com o sol filtrando pelas cortinas de linho, o corpo ainda marcado pela noite anterior—os dedos de Rafael desenhando caminhos na sua pele, a argila seca nos vincos dos seus quadris, a promessa sussurrada entre os lençóis embolados. Ela se espreguiçou, sentindo a deliciosa dor nos músculos, e sorriu quando o telefone vibrou com uma mensagem dele:
*"A cerca entre nossas casas está velha. Que tal derrubá-la hoje?"*
Ela passou os dedos sobre as palavras, sentindo o calor subir pelo pescoço. Não era só uma cerca. Era o último resquício de segredo, a última barreira entre o que eles eram e o que poderiam ser. Lúcia respirou fundo, digitou *"Venha aqui primeiro"* e jogou o celular na cama antes de se levantar.
Quando Rafael chegou, ela estava na cozinha, de shorts de algodão e uma camiseta larga que escorregava de um ombro, os cabelos ainda úmidos do banho. Ele entrou sem bater, como se já fosse dono do lugar, e parou na soleira da porta, os olhos percorrendo cada centímetro dela com uma lentidão deliberada. O cheiro de café fresco se misturava ao perfume cítrico da sua colônia, e Lúcia sentiu o corpo reagir antes mesmo que ele a tocasse.
— Você está linda — ele murmurou, aproximando-se.
— Eu nem me arrumei.
— Exatamente.
Ele a puxou pela cintura, colando os corpos, e Lúcia sentiu a aspereza das mãos dele—mãos de escultor, acostumadas a moldar e pressionar—deslizando por baixo da camiseta, queimando sua pele. Ela gemeu baixinho quando os lábios dele encontraram os seus, o beijo profundo, faminto, como se tivessem passado anos e não horas desde a última vez. Rafael a ergueu sobre a bancada de mármore, empurrando as xícaras de café para o lado, e ela enlaçou as pernas em sua cintura, sentindo a dureza dele contra o tecido fino do short.
— Rafael… — ela sussurrou, arqueando-se quando os dentes dele roçaram seu pescoço.
— Eu sei. Mas a cerca não vai se derrubar sozinha.
Ela riu, ofegante, e o empurrou de leve.
— Depois.
— Depois — ele concordou, mas não a soltou. Em vez disso, mordeu o lóbulo da sua orelha, fazendo-a estremecer. — Mas não muito depois.
Eles tomaram café na varanda, os pés descalços se tocando sob a mesa, enquanto planejavam o dia. Rafael tinha trazido um projeto: uma treliça de ferro forjado, com rosas trepadeiras que ele mesmo cultivava no ateliê. *"Vai crescer por cima da cerca antiga"*, explicou, desenhando no guardanapo com um lápis. *"E quando florescer, ninguém vai conseguir ver onde termina a minha casa e começa a sua."*
Lúcia observou as linhas que ele traçava, o jeito como os músculos dos seus antebraços se moviam, e sentiu uma onda de ternura tão intensa que quase doeu.
— Você já pensou em tudo, não é?
— Só no que importa — ele respondeu, erguendo os olhos para ela.
O sol estava alto quando começaram. Rafael trouxe as ferramentas, um rádio velho que tocava bossa nova, e uma garrafa de vinho tinto para "celebrar". Lúcia riu quando ele a obrigou a usar luvas de trabalho—*"Você é advogada, não pedreira"*—, mas não reclamou quando ele a puxou para ajudá-lo a medir as estacas. A cada movimento, seus corpos se esbarravam, as mãos se demoravam mais do que o necessário, os olhares se encontravam com uma cumplicidade que fazia o ar entre eles crepitar.
— Você vai me distrair — ela protestou, quando ele a prensou contra a parede da casa, as mãos segurando seus pulsos acima da cabeça.
— Ótimo — ele murmurou, roçando os lábios nos dela. — Assim a gente termina mais rápido.
Mas não terminaram rápido. A tarde se estendeu em um jogo de provocações: Rafael a desafiava a martelar um prego, rindo quando ela errava; Lúcia o provocava, inclinando-se de propósito para pegar uma ferramenta, sabendo que o short subia pelas coxas. Quando o sol começou a baixar, pintando o céu de laranja e rosa, a treliça estava quase pronta, mas eles estavam suados, sujos de terra e com os lábios inchados de tantos beijos roubados.
— Precisamos de um banho — ela disse, passando a mão pelo pescoço, onde a poeira se misturava ao suor.
— Juntos?
— Claro.
Eles entraram na casa de mãos dadas, deixando as ferramentas espalhadas pelo jardim, os sapatos largados na porta. O chuveiro era pequeno, e Rafael a encurralou contra os azulejos frios, a água quente escorrendo entre eles enquanto ele a beijava como se fosse a primeira vez. Lúcia enlaçou os braços em seu pescoço, sentindo a ereção dele pressionar sua barriga, e gemeu quando as mãos dele deslizaram pelas suas costas, apertando sua bunda.
— Eu amo quando você faz isso — ela confessou, ofegante.
— Fazer o quê?
— Me tocar como se eu fosse sua.
Rafael parou, a água escorrendo pelo seu rosto, e segurou o queixo dela com firmeza.
— Você *é* minha.
Ela não respondeu. Não precisava. Em vez disso, desceu lentamente, ajoelhando-se no piso molhado, e o tomou na boca. Rafael gemeu, os dedos se enroscando nos cabelos dela, e Lúcia o levou até o fundo, sentindo o gosto salgado na língua, o poder de tê-lo assim—desarmado, entregue. Quando ele a puxou de volta para cima, beijando-a com fome, ela sabia que ele estava no limite.
— Quero você dentro de mim — ela sussurrou contra seus lábios.
Rafael não hesitou. Ele a virou de costas, pressionando-a contra a parede do chuveiro, e entrou nela com um movimento único, profundo. Lúcia arqueou-se, as unhas cravando nos azulejos, enquanto ele a preenchia, cada estocada mais intensa que a anterior. A água caía sobre eles, misturando-se ao suor, aos gemidos, ao som úmido dos corpos se encontrando.
— Porra, Lúcia… — ele grunhiu, mordendo seu ombro.
Ela sentiu o orgasmo se aproximando, uma onda quente crescendo no ventre, e se apertou ao redor dele, arrancando um gemido rouco de Rafael. Quando gozou, foi com um grito abafado contra o braço dele, o corpo tremendo, os joelhos fraquejando. Rafael a segurou, ainda movendo-se dentro dela, prolongando o prazer até que ele também se entregou, derramando-se com um gemido longo e gutural.
Eles ficaram ali, ofegantes, a água lavando o suor e o sexo, até que Rafael desligou o chuveiro e a carregou para a cama, enrolando-a em uma toalha. Lúcia se aninhou contra ele, sentindo o coração dele bater forte contra o seu peito.
— Ainda temos que terminar a treliça — ela murmurou, sonolenta.
— Amanhã — ele respondeu, beijando sua testa. — Hoje, a gente só precisa disso.
E foi assim que o bairro os encontrou no dia seguinte: de mãos dadas no jardim, martelando a última estaca da treliça enquanto as rosas de Rafael começavam a brotar. Alguns vizinhos pararam para observar, curiosos, mas ninguém disse nada. Talvez porque, pela primeira vez, Lúcia e Rafael não estavam tentando esconder nada. Talvez porque o jeito como eles se olhavam, o jeito como as mãos se encontravam sem pensar, dizia tudo o que precisava ser dito.
Quando terminaram, Rafael pegou uma garrafa de champanhe e duas taças, e eles brindaram sob o sol da tarde.
— Ao futuro — ele disse, clicando a taça na dela.
— Ao futuro — Lúcia repetiu, sorrindo.
E quando ele a beijou, ali, na frente de todos, ela soube que não havia mais fronteiras. Nem entre eles, nem entre o desejo e o amor. Só o que havia era aquilo: o sol na pele, o gosto do champanhe, o corpo dele contra o seu, e a certeza de que, juntos, eles poderiam construir qualquer coisa.