A Parede Fina

VizinhosPor Tonkix9 leituras
A Parede Fina
**A Parede Fina** O apartamento cheirava a tinta fresca e madeira envelhecida, um perfume que Lúcia associava a recomeços. As paredes, pintadas de um branco leitoso, refletiam a luz pálida da tarde que se infiltrava pelas cortinas de linho, ainda com dobras de embalagem. Ela passou os dedos pela superfície lisa da mesa da cozinha, recém-desembalada, e suspirou. Trinta e quatro anos, uma mudança de cidade, um novo emprego em uma escola particular de elite. Tudo meticulosamente planejado para ser *certo*. Mas o prédio, ah, o prédio era antigo. Os corredores ecoavam passos como se o tempo ali tivesse camadas, e as portas rangiam em dobradiças que pareciam sussurrar segredos. O zelador, um homem de mãos calejadas e sorriso fácil, havia avisado: *"Aqui, dona Lúcia, as paredes são finas como papel de seda. Mas a gente se acostuma."* Ela não dera importância na hora, ocupada demais em conferir se a geladeira estava ligada, se o chuveiro esquentava. Foi na primeira noite que percebeu. O silêncio do apartamento era denso, interrompido apenas pelo tique-taque do relógio de parede que herdara da avó. Lúcia estava deitada na cama, um livro aberto sobre o peito, os óculos escorregando pelo nariz. Então veio. Um som abafado, quase imperceptível, como se alguém estivesse prendendo a respiração do outro lado da parede. Ela franziu a testa, ajustou os óculos. Outro som. Um gemido baixo, rouco, que se enroscou em sua espinha e fez seus dedos apertarem a borda do lençol. Lúcia sentou-se devagar, o coração batendo mais rápido do que deveria. O apartamento ao lado. O vizinho. *Daniel*, segundo a plaquinha de latão na porta 302. Ela o vira apenas uma vez, no dia da mudança, um homem alto, de ombros largos, descendo as escadas com uma caixa de ferramentas na mão. Cabelos escuros, ligeiramente grisalhos nas têmporas, uma barba por fazer que lhe dava um ar de quem acabara de acordar de um sono profundo. Ele a cumprimentara com um aceno de cabeça, os olhos verdes — *verdes?* — fixos nela por um segundo a mais do que o necessário. Agora, ele estava ali. Do outro lado da parede. E não estava sozinho. Outro gemido, mais longo, acompanhado de um suspiro que parecia arrastar as palavras: *"Porra, assim…"* A voz era grave, modulada, como se cada sílaba fosse calculada para provocar. Lúcia sentiu o calor subir pelo pescoço, as bochechas queimando. Virou-se de lado, pressionando o travesseiro contra a orelha, mas o som atravessava o tecido, a madeira, o espaço entre eles. Um ritmo começou, cadenciado, úmido, e ela soube, com uma clareza embaraçosa, o que estava acontecendo. Fechou os olhos com força, como se isso pudesse bloquear a audição. *Não é da sua conta. Não é da sua conta.* Mas o corpo não obedecia. Entre as pernas, uma pulsação insistente, um formigamento que se espalhava como mercúrio quente. Lúcia mordeu o lábio inferior, os dentes afundando na carne macia. O livro escorregou para o chão com um baque surdo. Do outro lado, uma risada abafada, feminina, seguida de um *"Shhh, alguém pode ouvir."* *Alguém está ouvindo.* Ela se levantou, os pés descalços afundando no tapete felpudo. Andou até a parede, hesitante, e encostou a palma da mão na superfície fria. O papel de parede, um padrão floral desbotado, parecia vibrar sob seus dedos. Outro gemido, mais alto, mais urgente, e então um nome — *"Camila"* — pronunciado com uma urgência que fez seu estômago se contrair. Lúcia recuou, como se a parede a tivesse queimado. Voltou para a cama, deitou-se de bruços, os dedos enroscados no edredom. Mas a imaginação já tinha tomado conta. Via Daniel, as mãos grandes segurando os quadris de uma mulher, os músculos das costas se contraindo a cada movimento. Via a boca entreaberta, os dentes mordendo o lábio inferior, os olhos verdes — *verdes, definitivamente verdes* — semicerrados de prazer. O orgasmo veio rápido, quase violento, arrancado dela pela combinação de sons, imagens e a sensação de estar invadindo algo íntimo sem permissão. Lúcia enterrou o rosto no travesseiro, abafando o próprio gemido, as unhas cravadas no tecido. Quando a respiração voltou ao normal, uma vergonha quente se espalhou por seu corpo. *O que há de errado comigo?* Nos dias seguintes, tentou ignorar. Ligava o rádio na cozinha enquanto preparava o café da manhã, aumentava o volume da televisão à noite, até mesmo considerou comprar um daqueles aparelhos de ruído branco que sua irmã lhe recomendara. Mas o prédio tinha uma acústica traiçoeira. Os sons encontravam brechas — no intervalo entre uma música e outra, no silêncio entre as falas de um filme, no momento exato em que ela desligava o chuveiro e a água parava de cair. E Daniel parecia ter um sexto sentido para isso. Na terça-feira, ela o ouviu gemer enquanto lia um relatório da escola, os óculos escorregando pelo nariz enquanto as palavras se embaralhavam na página. Na quinta, ele estava ao telefone, a voz baixa e rouca dizendo *"Eu sei que você gosta quando eu faço assim…"*, e Lúcia deixou cair a colher no chão, o metal tilintando contra o azulejo. Na sexta, ele estava com outra pessoa — uma voz masculina, desta vez, e a dinâmica era diferente, mais lenta, mais exploratória. *"Você é tão gostoso quando relaxa…"*, Daniel murmurou, e Lúcia sentiu o corpo inteiro se arrepiar. No sábado, ela se pegou encostada na parede do quarto, os dedos traçando círculos sobre o papel de parede, como se pudesse sentir o calor dele do outro lado. *Quem é você, Daniel?* A pergunta ecoava em sua mente, misturada a outras, mais perigosas: *Como seria tocar você? Ser tocada por você?* Foi então que ouviu a porta do apartamento ao lado se abrir. Passos no corredor. Uma batida leve na sua porta. Lúcia congelou. O coração disparou. *Ele sabe.* Não, não podia ser. Era impossível. Mas e se…? Os passos se afastaram. A porta do elevador se abriu e fechou. Ela soltou o ar que nem percebera estar prendendo. Mas a curiosidade, ah, a curiosidade já tinha raízes profundas demais para ser arrancada. Lúcia passou a manhã seguinte evitando a parede. Não por medo do que ouviria — embora ainda sentisse o rubor subir às bochechas só de lembrar daquela voz masculina, dos gemidos arrastados de Daniel —, mas porque precisava provar a si mesma que tinha controle. Que aquilo não passava de uma distração passageira, um efeito colateral de morar sozinha depois de tanto tempo. Pegou um livro, ligou o rádio em uma estação de jazz, até tentou meditar. Mas o apartamento parecia menor, as paredes mais finas, como se o próprio ar carregasse o cheiro dele: uma mistura de sabonete cítrico e algo mais escuro, amadeirado, que ela não conseguia nomear. Foi no fim da tarde, quando o sol já se inclinava preguiçoso sobre os prédios, que o encontrou. Ela voltava da lavanderia, os braços carregados de roupas recém-passadas, quando a porta do 302 se abriu de repente. Daniel saiu com uma sacola de supermercado em uma mão e um maço de chaves na outra, e por um segundo os dois ficaram parados no corredor estreito, como se o universo tivesse dado um solavanco. Lúcia sentiu o peso das roupas escorregar entre os dedos, mas antes que pudesse reagir, ele se adiantou, segurando a pilha de tecidos antes que caísse no chão. — Desculpa — ele disse, a voz baixa, quase íntima. — Não vi você. Ela ergueu os olhos. Ele estava descalço, vestindo uma camiseta preta que moldava os ombros largos e um jeans surrado que caía perfeitamente nos quadris. O cabelo escuro, ainda úmido, deixava gotas escorrerem pelo pescoço, e Lúcia teve que se conter para não seguir o caminho delas com os olhos. — Tudo bem — ela conseguiu dizer, aceitando as roupas de volta. — Eu também não estava prestando atenção. Um silêncio. Não era desconfortável, mas carregado, como se os dois soubessem exatamente o que o outro estava pensando. Daniel inclinou a cabeça, um sorriso lento se abrindo nos lábios. — Você é nova aqui, não é? — Mudei há duas semanas. — E já descobriu o melhor e o pior do prédio — ele murmurou, os olhos escuros fixos nos dela. — As paredes finas. Lúcia sentiu o rosto queimar. *Ele sabe.* A certeza a atravessou como um choque, seguida de uma onda de algo mais perigoso: excitação. Mas antes que pudesse responder, ele continuou, a voz suave, quase divertida: — Não precisa ficar constrangida. Eu também ouço coisas do seu lado. — O quê? — ela deixou escapar, horrorizada. — Tipo o quê? Daniel riu, um som grave e quente que reverberou no peito dela. — Você canta no chuveiro. *Garota de Ipanema*, na versão da Astrud Gilberto. E às vezes… — ele fez uma pausa, os olhos brilhando — …você geme quando a água está muito quente. Lúcia abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Ele estava brincando com ela. Tinha que estar. Mas a forma como a olhava, como se pudesse ver através da blusa fina que ela usava, não deixava dúvidas: ele não estava mentindo. — Você é um cretino — ela disse, mas não havia raiva na voz. — E você é uma mentirosa — ele retrucou, aproximando-se um passo. — Porque eu sei que você gosta de me ouvir tanto quanto eu gosto de te ouvir. O ar entre eles ficou denso, carregado de algo que Lúcia não ousava nomear. Ela deveria ter batido a porta na cara dele. Deveria ter rido e seguido seu caminho. Mas em vez disso, encontrou-se presa naquele olhar, naquele sorriso que prometia coisas que ela só tinha imaginado em segredo. — Café — ele disse de repente, como se a palavra fosse um feitiço. — Aceita? Ela deveria ter dito não. Deveria ter inventado uma desculpa, qualquer coisa. Mas a verdade era que queria ficar. Queria saber como seria encostar nele, sentir o calor daquela pele, descobrir se o cheiro que imaginava era real. — Só se você prometer não me chantagear com meus próprios gemidos — ela respondeu, surpreendendo a si mesma. Daniel riu de novo, e o som a envolveu como um abraço. — Sem promessas. --- O apartamento dele era menor que o dela, mas mais vivo. Livros empilhados em cantos, uma guitarra apoiada no sofá, pratos sujos na pia da cozinha minúscula. O cheiro de café fresco se misturava ao aroma de algo doce — *canela?*, ela pensou — e Lúcia sentiu o estômago se contrair. — Desculpa a bagunça — ele disse, tirando a sacola de compras da mesa. — Não esperava companhia. — Não precisa se desculpar — ela respondeu, passando os dedos pela lombada de um livro de poemas de Drummond. — Gosto de lugares que parecem habitados. Daniel a observou por um segundo, como se avaliasse algo. Então, com um movimento rápido, puxou uma cadeira para ela. — Senta. O café tá quase pronto. Ela obedeceu, cruzando as pernas e tentando ignorar a forma como o tecido da calça jeans roçava entre suas coxas. Daniel se movimentava pela cozinha com uma naturalidade que a fascinava — ligava o fogão, mexia o açúcar na xícara, cortava um pedaço de bolo de cenoura com uma faca que parecia ter visto dias melhores. Cada gesto era preciso, econômico, e Lúcia se pegou imaginando como seriam aquelas mãos em outros lugares. — Você cozinha? — ela perguntou, só para quebrar o silêncio. — Quando tenho tempo. — Ele serviu o café em duas xícaras lascadas, colocando uma na frente dela. — E você? — Só o básico. — Lúcia envolveu a xícara com as mãos, sentindo o calor se espalhar pelos dedos. — Mas gosto de comer. Daniel ergueu uma sobrancelha, um sorriso lento se formando. — Isso é um convite? Ela quase engasgou com o café. *Droga.* Ele estava brincando de novo, testando limites. E o pior era que ela não sabia se queria recuar. — Depende — ela disse, sustentando o olhar dele. — Você costuma aceitar convites de vizinhas intrometidas? — Só as que ficam encostadas na parede ouvindo meus… hobbies. O ar entre eles ficou elétrico. Lúcia sentiu o corpo inteiro reagir, como se cada terminação nervosa estivesse sintonizada nele. Daniel se aproximou, apoiando os cotovelos na mesa, os olhos fixos nos dela. — Fala sério, Lúcia. — A voz dele era um sussurro rouco. — Você nunca pensou em como seria? — Como seria o quê? — Isso. — Ele estendeu a mão, os dedos roçando levemente no dorso da mão dela. Um toque mínimo, quase inocente, mas que a fez prender a respiração. — Eu e você. Do outro lado da parede. Ela deveria ter rido. Deveria ter dito que não, que era ridículo. Mas a verdade era que tinha pensado nisso. *Muitas vezes.* Desde a primeira noite em que ouvira os gemidos dele, desde a primeira vez em que se tocara imaginando que era ele quem a fazia tremer. — E se eu dissesse que sim? — ela murmurou, surpreendendo a si mesma. Daniel sorriu, um sorriso lento e perigoso. — Eu diria que você é uma mulher muito corajosa. Ele se levantou, contornando a mesa até ficar ao lado dela. Lúcia sentiu o coração bater tão forte que tinha certeza de que ele podia ouvir. Daniel se inclinou, os lábios quase tocando a orelha dela quando falou: — Ou muito imprudente. Ela fechou os olhos por um segundo, sentindo o hálito quente contra a pele. Quando os abriu, ele estava de pé, oferecendo a mão. — Vamos. — Para onde? — Para o sofá. — Ele puxou-a gentilmente. — A menos que você prefira continuar aqui, onde qualquer um pode nos ver pela porta. Lúcia deixou que ele a guiasse, os dedos entrelaçados nos dele. O sofá era velho, gasto, mas confortável, e quando Daniel a puxou para sentar ao lado dele, ela não resistiu. O corpo dele era quente, sólido, e ela sentiu o cheiro da pele misturado ao café e à canela. — Você é perigoso — ela murmurou, os dedos traçando círculos no braço dele. — E você gosta disso. Não era uma pergunta. Era uma constatação. E ele estava certo. Daniel segurou o queixo dela, inclinando seu rosto para cima. Os olhos dele eram escuros, intensos, e Lúcia sentiu o corpo inteiro se render quando ele se aproximou. — Posso? — ele perguntou, a voz rouca. Ela não respondeu. Apenas fechou os olhos e esperou. O beijo foi suave no começo — um roçar de lábios, uma exploração lenta. Mas então Daniel aprofundou, a língua buscando a dela, e Lúcia gemeu contra sua boca, as mãos subindo para agarrar os cabelos dele. Ele tinha gosto de café e pecado, e ela sentiu o corpo inteiro se acender, como se cada célula estivesse implorando por mais. Daniel a puxou para o colo, as mãos grandes segurando sua cintura, e Lúcia se deixou levar, montando nele sem pensar. O tecido da calça jeans dele era áspero contra a pele sensível de suas coxas, e ela se esfregou sem pudor, sentindo o volume duro entre as pernas dele. — Porra, Lúcia — ele gemeu, as mãos descendo para apertar suas nádegas. — Você vai me matar. — Não antes de eu te matar primeiro — ela respondeu, mordiscando o lábio inferior dele. Daniel riu, um som baixo e gutural, e então a beijou de novo, com mais urgência. As mãos dele deslizaram por baixo da blusa dela, os dedos calejados arranhando levemente a pele, e Lúcia arqueou as costas, oferecendo-se. — Tira — ela pediu, a voz embargada. Ele não precisou ouvir duas vezes. Em um movimento rápido, puxou a blusa dela por cima da cabeça, jogando-a no chão. Os olhos dele percorreram seu corpo, devorando cada centímetro, e Lúcia sentiu o peito arfar sob o olhar. — Linda — ele murmurou, os dedos traçando o contorno do sutiã de renda. — Tão linda. Ela se inclinou para beijá-lo de novo, mas Daniel a segurou pelos ombros, mantendo-a afastada. — Espera. — A voz dele estava rouca, os olhos escuros de desejo. — Eu quero olhar pra você. Lúcia sentiu o rosto queimar, mas não desviou o olhar. Em vez disso, levou as mãos às costas e desabotoou o sutiã, deixando-o cair entre eles. Os mamilos já estavam duros, sensíveis, e ela viu os olhos de Daniel se fixarem neles, a respiração acelerando. — Caralho — ele sussurrou, a mão direita subindo para envolver um seio. O polegar roçou o mamilo, e Lúcia gemeu, arqueando-se contra o toque. — Você é perfeita. Ela não respondeu. Não conseguia. Em vez disso, segurou a mão dele e a guiou para baixo, até o botão da calça jeans. — Por favor — ela pediu, a voz trêmula. Daniel não hesitou. Desabotoou a calça dela com um movimento rápido, puxando-a para baixo junto com a calcinha. Lúcia se levantou o suficiente para se livrar das peças, voltando a montar nele completamente nua. Ele a puxou para um beijo faminto, as mãos explorando cada centímetro de pele exposta. Quando os dedos dele encontraram o meio das pernas dela, Lúcia gemeu contra sua boca, molhada, pronta. — Você tá encharcada — ele murmurou, os dedos deslizando com facilidade. — Por mim. — Sim — ela admitiu, as unhas cravando nos ombros dele. — Só por você. Daniel gemeu, os dedos trabalhando em círculos lentos, e Lúcia sentiu o corpo inteiro se contrair. Mas antes que pudesse chegar ao limite, ele parou, puxando a mão. — Não aqui — ele disse, a voz rouca. — Não assim. Lúcia abriu os olhos, confusa. — O quê? Ele a segurou pela cintura, levantando-a com facilidade e deitando-a no sofá. Então, ajoelhou-se entre as pernas dela, os olhos fixos nos dela. — Eu quero te provar — ele disse, a voz um sussurro pecaminoso. — Quero sentir você na minha língua. Lúcia não teve tempo de responder. Daniel abaixou a cabeça, a boca quente cobrindo seu sexo, e ela arqueou as costas com um grito. A língua dele era implacável, explorando, lambendo, sugando, e Lúcia sentiu o prazer se enrolar dentro dela como uma mola prestes a estourar. — Daniel — ela gemeu, as mãos agarrando os cabelos dele. — Por favor, não para. Ele não parou. Aumentou o ritmo, os dedos se juntando à boca, e Lúcia sentiu o orgasmo se aproximar como uma onda. Quando chegou, foi intenso, arrasador, e ela gritou o nome dele, o corpo inteiro tremendo. Daniel se levantou, os lábios brilhando, e Lúcia o puxou para um beijo, sentindo o próprio gosto na boca dele. Ele a beijou com fome, as mãos descendo para abrir o zíper da calça jeans. — Agora — ela pediu, a voz rouca. — Eu quero você dentro de mim. Daniel não precisou ouvir duas vezes. Em um movimento rápido, tirou a calça e a cueca, libertando o pau duro, grosso. Lúcia o envolveu com a mão, sentindo a textura sedosa, o calor pulsante. — Camisinha — ele murmurou, mas ela o puxou de volta, beijando-o com urgência. — Eu tomo pílula — ela disse entre beijos. — E estou limpa. Daniel hesitou por um segundo, os olhos escuros fixos nos dela. — Eu também. E então, sem mais palavras, ele a penetrou. Lúcia gemeu, o corpo se ajustando ao tamanho dele, e Daniel soltou um suspiro rouco, as mãos segurando seus quadris com força. — Porra, Lúcia — ele gemeu, começando a se mover. — Você é tão apertada. Ela não respondeu. Não conseguia. Em vez disso, envolveu as pernas ao redor da cintura dele, puxando-o mais fundo, mais rápido. Os sons dos corpos se chocando ecoavam pelo apartamento, misturados aos gemidos e sussurros, e Lúcia sentiu o prazer crescer de novo, mais intenso, mais urg O vento uivava contra as janelas do apartamento antigo, sacudindo os vidros como se quisesse arrancá-los das molduras. Lúcia estava sentada no sofá, um livro aberto no colo, mas as palavras dançavam diante de seus olhos, sem sentido. A tempestade lá fora era um espelho da agitação dentro dela—os trovões ecoavam os batimentos acelerados do seu coração, e cada relâmpago iluminava por um instante a sala, revelando sombras que pareciam sussurrar segredos proibidos. Então, as luzes piscaram. Uma, duas vezes. E de repente, a escuridão. O silêncio que se seguiu foi abrupto, como se o mundo tivesse prendido a respiração. Lúcia ficou imóvel, os dedos ainda segurando a borda do livro. O cheiro de chuva invadiu o ambiente, misturado ao aroma de madeira velha e ao leve perfume de lavanda que ela usava. Por um momento, pensou em acender uma vela, mas a ideia de se levantar, de se mover, parecia demais. Então, ouviu. Um *toc-toc* suave na porta. Não era o vento. Não era a madeira rangendo. Era real. Ela se levantou devagar, os pés descalços afundando no tapete gasto. A escuridão era densa, mas seus olhos já começavam a se ajustar, distinguindo o contorno da porta, a maçaneta de metal frio. Outra batida, mais insistente desta vez. — Lúcia? A voz de Daniel atravessou a madeira fina, baixa e rouca, como se ele também estivesse prendendo algo dentro de si. Ela hesitou, os dedos pairando sobre a fechadura. Não era medo. Era algo mais perigoso—uma antecipação que fazia sua pele formigar. Abriu a porta. Ele estava ali, encharcado pela chuva, os cabelos escuros grudados na testa, a camisa branca colada ao corpo, delineando os músculos que ela já tinha imaginado tantas vezes. Nas mãos, uma garrafa de vinho tinto, o rótulo manchado pela umidade. Os olhos dele encontraram os dela, e por um segundo, nenhum dos dois disse nada. Apenas se olharam, como se estivessem se vendo pela primeira vez. — Achei que você poderia precisar de companhia — ele disse, finalmente, a voz carregada de algo que não era apenas cortesia. — E de luz. Lúcia deu um passo para o lado, permitindo que ele entrasse. O apartamento pareceu encolher com a presença dele, como se o espaço entre eles fosse uma coisa viva, pulsante. — Você trouxe vinho — ela comentou, tentando soar casual, mas sua voz saiu mais baixa, mais íntima do que pretendia. — É o mínimo que posso fazer — Daniel respondeu, erguendo a garrafa. — Afinal, sou um vizinho prestativo. Ela riu, um som leve que se perdeu no estrondo de outro trovão. Ele a observou por um momento, como se estivesse memorizando cada detalhe—o jeito como o cabelo dela caía sobre os ombros, a curva do pescoço, a maneira como os lábios se entreabriam quando ela respirava. — Você está tremendo — ele murmurou. — Não é de frio. As palavras escaparam antes que ela pudesse detê-las. Daniel sorriu, um sorriso lento, perigoso, e deu um passo à frente. O cheiro dele a envolveu—chuva, sabonete, algo mais profundo, mais masculino. Lúcia sentiu o ar ficar preso nos pulmões. — Nem eu — ele admitiu. Ela pegou a garrafa das mãos dele, seus dedos roçando nos de Daniel. Um contato breve, mas suficiente para enviar uma corrente elétrica pelo seu corpo. Foi até a cozinha, pegou duas taças, e quando se virou, ele estava logo atrás dela, tão perto que podia sentir o calor do seu corpo. — Você sempre aparece na minha porta em noites de tempestade? — ela perguntou, tentando aliviar a tensão, mas sua voz saiu trêmula. — Só quando sei que você está sozinha — ele respondeu, os olhos fixos nos dela enquanto ela servia o vinho. Lúcia entregou uma taça a ele, e quando seus dedos se tocaram novamente, nenhum dos dois se afastou. Daniel levou a taça aos lábios, mas não bebeu. Em vez disso, inclinou-se para frente, os lábios roçando a orelha dela. — Eu ouço você, sabia? Ela engoliu em seco. — O quê? — À noite — ele murmurou, a voz um sussurro rouco. — Quando você se toca. Eu ouço. Lúcia sentiu o rosto queimar, mas não era vergonha. Era algo mais primitivo, mais urgente. Ela deveria negar, deveria fingir indignação, mas a verdade era que ela *queria* que ele ouvisse. Que ele soubesse. — E você? — ela perguntou, a voz quase um gemido. — O que você faz quando me ouve? Daniel não respondeu com palavras. Em vez disso, segurou a taça dela e a colocou sobre a bancada, junto com a sua. Então, com um movimento lento, deliberado, ele a puxou contra si, as mãos deslizando pela cintura dela, apertando-a com força. — Isso — ele disse, a boca a centímetros da dela. — Exatamente isso. E então, ele a beijou. Não foi um beijo suave. Foi faminto, desesperado, como se os dois estivessem esperando por aquele momento há semanas—porque estavam. Lúcia gemeu contra a boca dele, as mãos subindo para os cabelos úmidos, puxando-o mais perto. Daniel a empurrou contra a parede, o corpo pressionando o dela, e ela sentiu cada centímetro dele, duro, quente, *pronto*. — Eu fantasio com você — ele confessou entre beijos, a boca descendo pelo pescoço dela, os dentes roçando a pele sensível. — Com seus gemidos. Com o jeito que você morde o lábio quando está excitada. Lúcia arqueou as costas, as unhas cravando-se nos ombros dele. — Eu também — ela admitiu, a voz quebrada. — Com você me observando. Com você me tocando. Daniel soltou um gemido rouco, as mãos deslizando por baixo da blusa dela, os dedos encontrando os mamilos já rígidos. Ele os apertou, provocando um suspiro agudo em Lúcia, que se agarrou a ele com mais força. — Porra, Lúcia — ele murmurou, a boca voltando para a dela. — Eu quero te ouvir agora. Ela não precisou de mais incentivo. Com um movimento rápido, puxou a blusa pela cabeça, deixando-a cair no chão. Daniel a observou, os olhos escuros de desejo, antes de se ajoelhar na frente dela. As mãos dele deslizaram pela cintura, pelos quadris, e então ele puxou a calcinha para baixo, lentamente, como se estivesse desembrulhando um presente. Lúcia prendeu a respiração quando ele a beijou ali, a língua quente e úmida explorando-a com uma intimidade que a fez tremer. Ela apoiou as mãos na parede atrás de si, as pernas fraquejando, enquanto Daniel a devorava, cada movimento calculado para levá-la ao limite. — Daniel… — ela gemeu, o nome dele uma súplica. Ele não parou. Não até que ela estivesse ofegante, os dedos enroscados nos cabelos dele, o corpo inteiro tremendo com a proximidade do orgasmo. Então, ele se levantou, os lábios brilhando, os olhos queimando. — Eu quero você na minha cama — ele disse, a voz áspera. — Agora. Lúcia não respondeu. Apenas segurou a mão dele e o puxou para o quarto, onde a tempestade lá fora parecia distante, insignificante, comparada ao fogo que ardia entre eles. A porta do quarto se fechou atrás deles com um clique suave, mas o som reverberou no corpo de Lúcia como um trovão. O quarto de Daniel era menor que o dela, mais estreito, com uma cama de casal encostada na parede que os separava do apartamento ao lado—aquela mesma parede que, por semanas, havia sido uma testemunha silenciosa de seus desejos. Agora, ela seria o palco de algo muito mais intenso. Daniel a puxou contra si antes que ela pudesse dar mais um passo. As mãos dele, grandes e quentes, envolveram sua cintura, e ela sentiu o calor da pele dele mesmo através do tecido fino da camisa. Ele não disse nada. Não precisava. Os olhos escuros, quase negros sob a luz tênue do abajur, falavam por si: uma promessa de prazer, de entrega, de algo que ia muito além do que haviam imaginado. Lúcia ergueu os braços e enroscou os dedos nos cabelos dele, puxando-o para um beijo. A boca de Daniel era exigente, a língua deslizando contra a sua com uma urgência que a fez gemer baixo. Ela sentiu o gosto do vinho que haviam compartilhado, misturado ao sabor único dele—algo salgado, masculino, viciante. As mãos dele desceram para suas nádegas, apertando-a contra si, e ela sentiu a ereção pressionando seu ventre, dura, insistente. — Você não faz ideia do quanto eu quis isso — ele murmurou contra seus lábios, a voz rouca. — Do quanto eu te ouvi daquele lado da parede e imaginei como seria te tocar assim. Lúcia estremeceu. Saber que ele também a desejava, que a fantasiava tanto quanto ela o fantasiava, era um afrodisíaco poderoso. Ela mordeu o lábio inferior dele, puxando-o de leve, e sentiu quando ele gemeu, o corpo inteiro tensionando. — Eu também — confessou, as palavras saindo em um sussurro ofegante. — Toda vez que você gemia, eu me tocava pensando em você. Daniel soltou um som gutural, algo entre um rosnado e um suspiro, e a empurrou contra a parede. Não a parede fina—ainda não. Mas a outra, a que separava o quarto do corredor, sólida e fria contra suas costas. Ele segurou seus pulsos e os prendeu acima da cabeça, o corpo pressionando o dela de cima a baixo. — Você se tocava? — perguntou, a voz um fio de seda áspera. — Me diz como. Lúcia arqueou o corpo contra o dele, sentindo a ereção roçar entre suas pernas. O tecido da calça dele era uma barreira cruel, mas o atrito era delicioso. — Eu imaginava que era você — disse, os olhos fixos nos dele. — Que eram suas mãos, seus dedos… sua boca. Daniel soltou um dos pulsos dela e deslizou a mão livre por seu corpo, parando apenas quando alcançou o botão da calça jeans. Com um movimento rápido, ele a abriu, e os dedos mergulharam para dentro, encontrando-a molhada, pronta. — Assim? — perguntou, o polegar circulando o clitóris enquanto dois dedos entravam nela devagar. Lúcia gemeu, alto demais, e mordeu o lábio para conter o som. Mas Daniel balançou a cabeça. — Não — ordenou. — Não se segure. Eu quero ouvir. Ela não conseguiu resistir. Quando ele começou a mover os dedos, entrando e saindo em um ritmo lento e torturante, ela deixou escapar um gemido longo, quase um soluço. A parede atrás dela parecia vibrar com o som, como se estivesse respondendo. — Isso — ele murmurou, a boca roçando o lóbulo da orelha dela. — Deixa eu te ouvir. Lúcia sentiu o orgasmo se aproximando, uma onda quente e pulsante, mas antes que pudesse chegar ao ápice, Daniel retirou os dedos. Ela abriu os olhos, confusa, e o viu levar a mão à boca, lambendo os dedos com uma lentidão deliberada. — Você tem gosto de pecado — disse, a voz rouca. — E eu quero mais. Antes que ela pudesse responder, ele a pegou no colo, as pernas dela envolvendo sua cintura. A cama estava a poucos passos, mas ele não chegou até lá. Em vez disso, a pressionou contra a parede fina, aquela que, por tanto tempo, havia sido uma fronteira entre eles. — Daniel… — ela protestou, sem fôlego. — Alguém pode ouvir. Ele riu, baixo e perverso, e mordeu o pescoço dela. — Eu sei — sussurrou. — É isso que torna tudo melhor. E então ele a beijou de novo, com força, enquanto uma das mãos deslizava por baixo da blusa dela, encontrando o sutiã de renda. Os dedos dele eram hábeis, desabotoando-o com facilidade, e logo os seios dela estavam livres, os mamilos duros sob o toque áspero da palma da mão dele. Lúcia arqueou as costas, oferecendo-se, e Daniel não hesitou. Abaixou a cabeça e levou um mamilo à boca, sugando com força enquanto a mão livre descia para abrir o zíper da calça dele. Ela sentiu a ereção pulsar contra sua mão quando o tocou, quente e sedosa, e um gemido escapou dos lábios dele. — Porra, Lúcia… Ela o acariciou devagar, explorando cada centímetro, sentindo-o tremer sob seu toque. Mas Daniel não deixou que ela o controlasse por muito tempo. Com um movimento rápido, ele a virou, pressionando-a contra a parede, as mãos dela apoiadas na superfície fria enquanto ele puxava a calça jeans e a calcinha para baixo, deixando-a nua da cintura para baixo. — Olha só para você — murmurou, a voz carregada de admiração. — Tão linda assim, toda minha. Lúcia sentiu as mãos dele deslizarem por suas costas, seguindo a curva da coluna até alcançar as nádegas. Ele as apertou, separando-as levemente, e ela sentiu o ar frio contra a pele úmida. Um arrepio percorreu seu corpo. — Daniel, por favor… Ele não a fez esperar. Com um movimento fluido, ele entrou nela por trás, preenchendo-a de uma só vez. Lúcia gritou, o som abafado contra o braço enquanto ele a segurava firme, os quadris movendo-se em um ritmo lento e profundo. — Isso — ele sussurrou, a boca próxima ao ouvido dela. — Geme para mim. Deixa eles ouvirem. E ela gemeu. Não conseguiu se conter. Cada estocada era uma onda de prazer, cada vez mais intensa, cada vez mais urgente. A parede atrás dela parecia vibrar com o impacto dos corpos, como se estivesse viva, como se estivesse participando. Lúcia virou a cabeça, procurando a boca de Daniel, e ele a beijou com fome, a língua invadindo sua boca enquanto os quadris continuavam a se mover, cada vez mais rápido. — Eu vou gozar — ela avisou, a voz quebrada. — Goza — ele ordenou, a voz áspera. — Goza para mim. E ela obedeceu. O orgasmo a atingiu como uma tempestade, um relâmpago de prazer que a fez tremer dos pés à cabeça. Daniel não parou. Continuou a se mover dentro dela, prolongando a sensação, até que ela sentiu quando ele também atingiu o clímax, o corpo tensionando, os dedos cravados em seus quadris enquanto ele sussurrava o nome dela como uma prece. Por um momento, não houve nada além do som de suas respirações ofegantes e do coração batendo forte no peito de ambos. Lúcia apoiou a testa contra a parede, sentindo o suor escorrer pelas costas, o corpo ainda tremendo com os últimos espasmos do prazer. Daniel a puxou para trás, envolvendo-a em seus braços, e a virou de frente para ele. Os olhos dele estavam escuros, intensos, como se ele também estivesse surpreso com a intensidade do que acabara de acontecer. — Isso foi… — ele começou, mas não terminou a frase. — Eu sei — ela respondeu, porque sabia. Não havia palavras para descrever o que acabaram de compartilhar. Ele a beijou de novo, suave dessa vez, os lábios macios contra os dela. Mas mesmo nesse beijo havia uma promessa—de que isso não era o fim. Que havia mais. E quando ele a carregou até a cama, deitando-a com cuidado entre os lençóis amarrotados, Lúcia soube que a parede fina não seria mais uma barreira. Seria um convite. A luz da manhã invadiu o quarto de Lúcia como um intruso, filtrando-se pelas cortinas finas e desenhando listras douradas sobre os lençóis embolados. Ela acordou com o peso do braço de Daniel sobre sua cintura, a respiração quente dele contra sua nuca, o cheiro de sexo e suor ainda impregnado na pele. Por um segundo, deixou-se afundar na sensação de segurança, no calor do corpo dele colado ao seu. Mas então, como um soco no estômago, veio a realidade. *E se alguém ouviu?* A pergunta ecoou na sua mente enquanto seus dedos se fechavam em torno do lençol, puxando-o até o queixo como se pudesse se esconder do mundo. Ao lado dela, Daniel se mexeu, os cílios escuros tremulando antes de se abrirem. Seus olhos, ainda sonolentos, encontraram os dela, e por um instante, tudo o que existiu foi o sorriso preguiçoso que se abriu em seus lábios. — Bom dia — ele murmurou, a voz rouca de sono e de tudo o que haviam feito na noite anterior. Lúcia não respondeu de imediato. Em vez disso, virou-se de lado, encarando-o com uma intensidade que fez o sorriso dele vacilar. Os dedos dela deslizaram pelo peito dele, traçando círculos preguiçosos sobre a pele ainda marcada pelas unhas dela. — Você acha que alguém ouviu? — perguntou, finalmente, a voz baixa, quase um sussurro. Daniel franziu a testa, como se a pergunta o tivesse arrancado de um sonho. Então, um riso curto escapou de seus lábios, e ele se aproximou, roçando a ponta do nariz no dela. — Provavelmente — admitiu, sem nenhum traço de vergonha. — Mas não me importo. Ela empurrou o ombro dele, levemente, mas o suficiente para que ele recuasse. — *Eu* me importo — disse, sentando-se na cama e puxando o lençol para cobrir os seios. — Sou professora, Daniel. Não posso… não posso ser *aquela* vizinha. Ele se apoiou nos cotovelos, observando-a com uma expressão que misturava diversão e frustração. — Aquela vizinha? — repetiu, arqueando uma sobrancelha. — A que faz barulho ou a que transa com o cara do 302? Lúcia lançou-lhe um olhar fulminante, mas não conseguiu conter o rubor que subiu pelo seu pescoço. Ele riu de novo, dessa vez mais alto, e antes que ela pudesse protestar, puxou-a de volta para a cama, prendendo-a sob o peso do seu corpo. — Relaxa — murmurou, beijando o canto da boca dela. — Ninguém vai saber. A menos que *você* conte. Ela suspirou, rendendo-se ao toque, mas não à tranquilidade. Seus dedos se enroscaram nos cabelos dele, puxando-o para mais perto, como se pudesse guardar aquele momento só para si. — Precisamos de regras — disse, entre beijos. — Se vamos continuar com isso… — *Se*? — Daniel interrompeu, erguendo a cabeça para encará-la. — Você acha mesmo que depois de ontem à noite vai conseguir ficar longe de mim? Lúcia mordeu o lábio, sentindo o calor se espalhar entre as pernas só de lembrar. Ele tinha razão. Já estava viciada no gosto dele, no jeito como suas mãos a marcavam, na forma como seus gemidos se misturavam aos dela até não saber mais onde um terminava e o outro começava. — Não — admitiu, finalmente. — Mas precisamos ser cuidadosos. Daniel assentiu, sério agora, e rolou para o lado, deixando-a respirar. Lúcia se sentou, puxando os joelhos contra o peito, enquanto ele se encostava na cabeceira da cama, os olhos fixos nela. — Primeira regra: nada de encontros no corredor — ela começou. — Se formos vistos juntos, tem que parecer casual. Um *oi*, um *bom dia*, nada mais. — Concordo — ele disse, estendendo a mão para brincar com uma mecha do cabelo dela. — Segunda regra? — Nada de mensagens comprometedoras. Se precisarmos nos falar, usamos códigos. Tipo… *preciso de açúcar* quer dizer que você vem aqui. Daniel riu, mas assentiu. — E se eu precisar de *farinha*? — perguntou, os olhos brilhando de malícia. Lúcia sentiu o corpo responder antes mesmo de processar a pergunta. Ele percebeu, claro, e seu sorriso se alargou. — Farinha é quando eu quero você no meu apartamento — ele explicou, a voz baixa, perigosa. — E, Lúcia… — seus dedos deslizaram pela coxa dela, subindo devagar — eu sempre vou querer farinha. Ela engoliu em seco, tentando ignorar o arrepio que percorreu sua espinha. — Terceira regra — disse, forçando-se a manter a voz firme. — Nada de barulho excessivo. Daniel arqueou uma sobrancelha. — Excessivo? — repetiu, como se a palavra fosse absurda. — Amor, a parede é fina. Se formos fazer isso de novo, alguém *vai* ouvir. — Então fazemos em silêncio — ela retrucou, mas sua voz falhou quando os dedos dele encontraram o ponto sensível entre suas pernas. — Silêncio? — ele murmurou, inclinando-se para beijar o ombro dela. — Você acha mesmo que consegue ficar quieta quando eu estiver dentro de você? Lúcia fechou os olhos, sentindo o corpo traí-la. Ele tinha razão. Desde a primeira vez que ouvira os gemidos dele através da parede, soube que não havia como resistir. E agora, depois de provar, sabia que não queria. — Então… — ela começou, mas as palavras morreram quando ele a puxou para o colo, as pernas dela se abrindo automaticamente ao redor da cintura dele. — Então encontramos outros lugares. Daniel sorriu, lento, predatório. — Outros lugares? — repetiu, as mãos deslizando pelas costas dela, puxando-a para mais perto. — Tipo onde? Lúcia mordeu o lábio, sentindo o calor do corpo dele contra o seu, a ereção pressionando exatamente onde ela mais queria. — Tipo… a lavanderia — sussurrou. — Ou o elevador. Ou… — ela hesitou, mas a ousadia venceu. — Ou contra a porta do seu apartamento, enquanto você finge que está me ajudando com uma caixa pesada. Os olhos de Daniel escureceram, e ele a beijou com força, as mãos apertando sua cintura com possessividade. — Porra, Lúcia — ele gemeu contra a boca dela. — Você vai me matar. Ela riu, baixa, satisfeita, e o empurrou para trás, montando sobre ele. — Ainda não — murmurou, inclinando-se para beijar o pescoço dele. — Mas pretendo continuar tentando. --- Os dias seguintes foram uma dança perigosa. Lúcia se pegava olhando para o relógio, contando os minutos até que pudesse enviar uma mensagem inocente pedindo "açúcar" ou "farinha". Daniel, por sua vez, aparecia na porta dela com desculpas esfarrapadas—um livro emprestado, uma lâmpada queimada, uma garrafa de vinho "que sobrou da festa de um amigo". Eles se encontravam no escuro do elevador, as mãos se tocando de forma casual demais para ser inocente, os corpos se roçando enquanto fingiam não notar. Uma vez, Lúcia o encontrou na lavanderia, e em menos de cinco minutos estavam trancados no banheiro de serviço, as roupas espalhadas pelo chão, os gemidos abafados contra a parede fria. Mas quanto mais se entregavam, mais difícil ficava manter o controle. Certa noite, depois de um jantar rápido no apartamento dele, Lúcia se levantou para ir embora, mas Daniel a puxou de volta para o sofá, prendendo-a entre seus braços. — Fica — ele pediu, os lábios roçando a orelha dela. — Só mais um pouco. Ela deveria ter dito não. Deveria ter lembrado das regras, do perigo de serem vistos. Mas quando ele a beijou, quando suas mãos deslizaram por baixo da blusa dela, encontrando os mamilos já duros, toda a razão se dissolveu. — Só mais um pouco — ela concordou, puxando-o para cima dela. Eles fizeram amor ali mesmo, no sofá, os corpos se movendo em sincronia, as respirações aceleradas se misturando ao som da chuva que começava a cair lá fora. Quando terminaram, Lúcia se aninhou contra o peito dele, ouvindo o coração de Daniel bater forte sob sua orelha. — Você precisa ir — ele murmurou, mas não a soltou. — Eu sei — ela respondeu, mas também não se moveu. Ficaram assim, em silêncio, até que o som de passos no corredor os fez congelar. Alguém parou em frente à porta do apartamento de Daniel, e por um segundo, Lúcia teve certeza de que haviam sido descobertos. Mas então, uma chave girou na fechadura, e uma voz feminina chamou: — Dani? Você está aí? Lúcia se encolheu, os olhos arregalados encontrando os de Daniel. Ele praguejou baixinho e se levantou, vestindo as calças às pressas. — É minha irmã — ele sussurrou, jogando a blusa de Lúcia para ela. — Esconde-se no quarto. Eu a despacho. Lúcia obedeceu, correndo para o quarto e fechando a porta atrás de si. Do lado de fora, ouviu a voz de Daniel, descontraída, como se não houvesse nada de errado. — Oi, Manu. O que você tá fazendo aqui? — Vim te trazer as chaves do carro que você esqueceu na minha casa — a irmã respondeu. — E também queria saber se você já almoçou, porque… A voz dela foi sumindo, e Lúcia prendeu a respiração, imaginando o que estaria acontecendo do outro lado da porta. Então, ouviu a irmã de Daniel rir. — Ah, *caramba*, Dani. Você tá com alguém? Lúcia fechou os olhos, o coração batendo tão forte que tinha certeza de que eles podiam ouvi-lo. Mas então, Daniel respondeu, a voz calma: — Não é da sua conta. A irmã riu de novo, e Lúcia ouviu o som de passos se afastando. — Tá bom, tá bom. Mas depois você me conta. E não esquece de trancar a porta quando ela for embora. Lúcia esperou até ouvir a porta da frente se fechar antes de sair do quarto. Daniel estava encostado na parede, os braços cruzados, uma expressão indecifrável no rosto. — Desculpa — ele disse, finalmente. — Eu não sabia que ela viria. Lúcia vestiu a blusa, sentindo o peso da situação cair sobre ela. — Ela suspeitou — murmurou. — Ela sempre suspeita de tudo — ele respondeu, puxando-a para um abraço. — Mas não vai contar pra ninguém. Lúcia não respondeu. Em vez disso, se afastou, pegando sua bolsa. — Preciso ir — disse, evitando olhar nos olhos dele. Daniel não tentou impedi-la. Apenas assentiu, sério. — Lúcia… — ele começou, mas ela já estava na porta. — Depois a gente conversa — ela disse, e saiu antes que ele pudesse responder. No corredor, respirou fundo, tentando acalmar o coração. Mas quando chegou ao seu apartamento, uma coisa ficou clara: as regras não estavam funcionando. E o pior de tudo? Ela não queria que funcionassem. A chuva batia contra a janela do apartamento de Daniel como dedos tamborilando impacientes, um ritmo que há semanas se confundia com o dos corpos deles entre os lençóis. Lúcia estava deitada de lado, a curva do quadril de Daniel encaixada na concavidade do seu, a mão dele espalmada sobre seu ventre, os dedos traçando círculos preguiçosos. O cheiro de sexo ainda pairava no ar, misturado ao aroma terroso do café que esfriava na mesa de cabeceira. — Você tá quieta — ele murmurou, a voz rouca contra a nuca dela. Lúcia fechou os olhos, sentindo o hálito quente dele na pele. Não era silêncio, era peso. O tipo de quietude que antecede uma decisão, como a pausa antes de mergulhar. — Eu tava pensando — ela disse, virando-se devagar para encará-lo. Os olhos de Daniel eram escuros, quase negros sob a luz fraca do abajur, mas havia neles uma clareza que ela nunca tinha visto antes. Não era mais o brilho da curiosidade, nem o fogo do desejo proibido. Era algo mais profundo, mais perigoso. — Em quê? — Em como a gente finge que não vê os olhares no corredor. Em como você tranca a porta do banheiro quando a sua irmã vem te visitar. Em como eu minto pra minha mãe quando ela pergunta se tô saindo com alguém. Daniel não desviou o olhar. Apenas ergueu a mão e afastou uma mecha de cabelo do rosto dela, os dedos demorando-se na linha da mandíbula. — E o que você quer fazer com isso? Lúcia mordeu o lábio inferior. As palavras estavam ali, presas na garganta, mas ela as soltou mesmo assim, porque já não havia mais espaço para dúvidas. — Eu quero que a gente pare de fingir. Um sorriso lento se abriu no rosto dele, mas não era de alívio. Era de reconhecimento. Como se, no fundo, ele já soubesse que esse momento chegaria. — Você tem certeza? — Não — ela admitiu, rindo baixinho. — Mas eu tô cansada de ter certeza de tudo na minha vida e ainda assim me sentir tão… incompleta. Daniel se aproximou, os lábios roçando os dela num beijo suave, quase casto, mas que carregava a promessa de tudo o que viria depois. — Incompleta — ele repetiu, a voz um sussurro. — Eu conheço essa sensação. E então ele a puxou para si, e o beijo se aprofundou, não mais urgente como nos primeiros encontros, mas lento, deliberado, como se tivessem todo o tempo do mundo. As mãos dele deslizaram pelas costas dela, puxando-a para mais perto, e Lúcia sentiu o calor do corpo dele contra o seu, sólido, real. Quando se afastaram, Daniel segurou o rosto dela entre as mãos. — Se a gente fizer isso, não tem volta. — Eu não quero voltar. Ele estudou o rosto dela por um longo momento, como se procurasse alguma hesitação. Mas Lúcia não hesitou. Em vez disso, estendeu a mão e tocou o peito dele, sentindo o coração bater forte sob a palma. — Então a gente faz do jeito certo — ele disse, finalmente. --- O café da manhã foi servido na varanda, entre risadas e o som das xícaras tilintando. O sol da manhã filtrava-se pelas árvores do quintal, pintando listras douradas sobre a mesa de madeira. Lúcia usava uma das camisas de Daniel, os botões mal fechados, o tecido largo escorregando por um ombro. Ele, de calça de moletom e sem camisa, observava-a enquanto ela passava manteiga numa fatia de pão, os dedos ágeis, os lábios entreabertos em concentração. — Você tá me olhando — ela disse, sem levantar os olhos. — Tô. — Por quê? — Porque agora eu posso. Lúcia sorriu e mordeu o pão, deixando um rastro de manteiga no lábio inferior. Daniel não resistiu. Inclinou-se sobre a mesa e lambeu o resíduo, a língua quente e lenta, antes de capturar a boca dela num beijo salgado. — Deliciosa — ele murmurou contra os lábios dela. — Você é um clichê — ela riu, empurrando-o de leve, mas sem afastar-se. — E você adora. Ela adorava. Adorava a forma como ele a olhava, como se ela fosse a única coisa no mundo que valesse a pena ver. Adorava a maneira como as mãos dele encontravam as suas, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Adorava até mesmo o jeito como ele roubava pedaços do pão dela, como se ainda estivessem brincando de algo secreto. Mas não era mais segredo. --- A decisão foi tomada no sofá, entre os lençóis embolados e o cheiro de sexo que ainda impregnava o ambiente. Daniel estava sentado com as pernas esticadas, Lúcia entre elas, as costas apoiadas no peito dele. Ele brincava com os dedos dela, entrelaçando-os, soltando, como se memorizasse cada detalhe. — A gente podia começar devagar — ele sugeriu. — Jantar fora. Passear no parque. Coisas que casais normais fazem. — Casais normais — Lúcia repetiu, virando a cabeça para encará-lo. — Você acha que a gente é normal? — Não — ele admitiu, sorrindo. — Mas a gente pode fingir. Ela riu e se virou completamente, montando nele, as mãos apoiadas no peito nu. Sentiu o corpo dele reagir instantaneamente sob o dela, mas ignorou o calor que se espalhava entre suas pernas. Havia algo mais importante agora. — Eu não quero fingir — ela disse, séria. — Não mais. Daniel segurou o rosto dela, os polegares acariciando as maçãs do rosto. — Então a gente não finge. E foi assim, com essas palavras simples, que a última barreira entre eles caiu. Não houve mais regras, mais portas trancadas, mais sussurros abafados contra travesseiros. Havia apenas eles, e o mundo lá fora, que agora teria que aprender a lidar com isso. --- A primeira vez que saíram juntos foi num sábado à tarde, de mãos dadas, como se sempre tivessem feito isso. O sol batia forte, e Lúcia sentiu o suor escorrer pela nuca, mas não se importou. Estava ocupada demais olhando para Daniel, para o jeito como ele sorria quando ela apontava para algo bobo na vitrine de uma loja, para a forma como os dedos dele apertavam os seus quando passavam por alguém conhecido. — Você tá nervosa? — ele perguntou, quando pararam numa sorveteria. — Um pouco — ela admitiu. — E você? — Nem um pouco. — Mentiroso. Ele riu e puxou-a para um beijo rápido, os lábios gelados pelo sorvete que dividiam. — Tá bom, eu tô. Mas é um nervoso bom. O tipo que faz o coração bater mais forte. Lúcia sorriu e lambeu o sorvete, sentindo o gosto doce de baunilha misturado ao sal do beijo dele. — Eu gosto desse nervoso. --- A noite caiu, e eles voltaram para o apartamento de Daniel. Não havia pressa, não havia necessidade de se esconder. Lúcia tirou os sapatos e se jogou no sofá, enquanto Daniel ligava o som e escolhia uma música baixa, algo com piano e vozes sussurradas. Ela o observou se mover pelo espaço, agora tão familiar, e sentiu uma onda de ternura tão intensa que quase doeu. Quando ele voltou para perto dela, estendeu a mão. — Dança comigo? Lúcia hesitou por um segundo, mas então aceitou. Ele a puxou para perto, e os dois começaram a se mover devagar, os corpos colados, os passos pequenos, como se estivessem aprendendo a dançar juntos pela primeira vez. — Você lembra da primeira vez que a gente se viu? — ele perguntou, a voz baixa. — No corredor — ela respondeu, lembrando-se do choque, da tensão, do jeito como ele a olhara como se já a conhecesse. — Eu soube naquele momento que você ia ser um problema. — E eu sou? — O melhor tipo de problema. Lúcia riu e encostou a cabeça no peito dele, ouvindo o coração bater. A música terminou, mas eles continuaram ali, balançando levemente, como se o mundo inteiro tivesse parado para lhes dar esse momento. — Eu te amo — ela disse, as palavras saindo antes que pudesse pensar. Daniel parou de se mover. Por um segundo, Lúcia sentiu o pânico subir pela garganta. Mas então ele segurou o rosto dela e a beijou, lento, profundo, como se quisesse engolir as palavras e guardá-las para sempre. — Eu também te amo — ele murmurou contra os lábios dela. — Desde o primeiro gemido que ouvi através da parede. Lúcia riu, mas o som se transformou num suspiro quando ele a ergueu nos braços e a levou para o quarto. Desta vez, não havia pressa. Não havia necessidade de silêncio. Eles se amaram devagar, explorando cada centímetro um do outro com mãos e bocas e palavras sussurradas, como se tivessem todo o tempo do mundo. E, pela primeira vez, era verdade. --- Na manhã seguinte, Lúcia acordou com o som da chuva e o cheiro de café fresco. Daniel não estava na cama, mas ela o encontrou na cozinha, de costas para ela, mexendo algo na panela. A camisa que ele usava era a mesma que ela tinha vestido no dia anterior, agora pendurada no encosto de uma cadeira. Ela se aproximou em silêncio e passou os braços ao redor da cintura dele, encostando a bochecha nas costas largas. — Bom dia — ele disse, virando-se para beijá-la. — Bom dia. — Dormiu bem? — Melhor do que nunca. Daniel sorriu e voltou a mexer a panela, mas manteve uma mão na cintura dela, como se precisasse do contato. — Eu tava pensando — ele disse, depois de um momento. — A gente podia viajar. Sair da cidade por uns dias. Só nós dois. Lúcia ergueu as sobrancelhas. — E as aulas? — Você merece uma folga. E eu também. Ela riu e o beijou de novo, sentindo o gosto do café nos lábios dele. — Eu topo. Daniel desligou o fogo e a puxou para mais perto, as mãos deslizando pelas costas dela até encontrarem o elástico da calcinha. — Ótimo — ele murmurou, a voz rouca. — Porque eu já tava com saudade de você. E então não houve mais palavras. Apenas o som da chuva, o calor dos corpos, e a certeza de que, finalmente, não precisavam mais de paredes para se esconder.

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