Fronteiras do Desejo

VizinhosPor Tonkix8 leituras
Fronteiras do Desejo
**Fronteiras do Desejo** A mudança chegou como um suspiro depois de meses de sufoco. Lucas desceu do caminhão de mudanças com as costas doloridas, os músculos ainda tensos do esforço de carregar caixas, mas os olhos já absorvendo a quietude do lugar. A casa, um chalé de madeira clara com telhado de duas águas, parecia ter sido tirada de um conto antigo—aquele tipo de construção que cheira a tempo parado, a noites longas e a promessas de recomeço. O jardim da frente era uma confusão de flores silvestres, margaridas e girassóis inclinados pelo vento, como se alguém tivesse semeado sonhos ali e esquecido de podá-los. Ele respirou fundo. O ar tinha gosto de terra úmida e de algo doce, talvez o jasmim que trepava pela cerca viva à esquerda. Era diferente da cidade, onde o cheiro predominante era o de asfalto quente e escapamento. Aqui, até o silêncio tinha textura. — Precisa de ajuda com as caixas mais pesadas? A voz veio de trás dele, leve, quase musical. Lucas virou-se e deu de cara com uma mulher de cabelos castanhos presos em um coque desleixado, mechas soltas dançando ao redor do rosto. Usava um vestido florido, curto o suficiente para revelar pernas bronzeadas, e sandálias de couro gastas. Os olhos dela—grandes, verdes, com um brilho de curiosidade—o estudavam com uma intensidade que o fez desviar o olhar por um segundo. — Ah, não, obrigado. Já terminei — mentiu, porque a verdade era que ainda tinha metade das coisas para descarregar, mas algo naquela presença o deixou sem jeito. — Clara — ela estendeu a mão, e o gesto foi tão natural que ele não teve como recusar. — Sua vizinha. Bem-vindo ao bairro. O aperto foi firme, a pele dela quente. Lucas sentiu o calor subir pelo braço, um formigamento que o fez soltar a mão mais rápido do que pretendia. — Lucas. — Escritor, certo? — ela inclinou a cabeça, como se já soubesse de algo sobre ele. — Vi os livros nas caixas. Ou você é só um acumulador de romances? Ele riu, surpreso. — Sou escritor, sim. Ou pelo menos era, antes de… — hesitou, mas ela completou por ele. — Antes de a vida decidir que você precisava de um novo capítulo. Era uma frase boba, dessas que as pessoas dizem para preencher o vazio, mas o jeito como ela falou—com um sorriso que não era só gentileza, mas algo mais profundo, quase cúmplice—fez com que parecesse verdade. — Algo assim — ele concordou, olhando para a casa dela, idêntica à sua, mas com cortinas de renda nas janelas e vasos de ervas na varanda. — E você? Mora aqui há muito tempo? — Cinco anos. Tempo suficiente para conhecer todos os segredos do lugar. — Ela cruzou os braços, e o movimento fez o tecido do vestido se apertar contra os seios. Lucas forçou os olhos a não descerem. — Incluindo o fato de que o senhor da casa ao lado gosta de regar as plantas às três da manhã e que a dona Maria, duas ruas abaixo, faz o melhor bolo de fubá da região. — E o marido? — a pergunta escapou antes que ele pudesse segurar. Clara piscou, como se não esperasse por aquilo. Por um segundo, algo escureceu em seu olhar, mas logo o sorriso voltou, mais brilhante do que antes. — Ricardo viaja muito. É engenheiro, trabalha com projetos internacionais. — Ela deu de ombros, como se isso explicasse tudo. — Às vezes, acho que ele gosta mais dos aeroportos do que de casa. Lucas não soube o que dizer. Não era da sua conta, afinal. Mas algo na maneira como ela falou—como se as palavras tivessem gosto de resignação—o deixou incomodado. — Bom, se precisar de alguma coisa… — ela apontou para a casa. — Estou sempre por aqui. Principalmente de manhã, quando o café está fresco. — Vou me lembrar disso. Ela acenou, já se afastando em direção à sua varanda, mas parou no meio do caminho. — Ah, e Lucas? — chamou, virando-se com um sorriso malicioso. — Se for escrever algo quente, avise. Gosto de ler antes de dormir. Ele ficou parado, observando-a entrar em casa, o balanço dos quadris sob o vestido, o jeito como o sol batia nas suas costas nuas. Quando a porta se fechou, soltou o ar que nem percebera que estava prendendo. --- A primeira noite na casa nova foi estranha. Lucas arrumou os livros na estante, organizou a cozinha, testou o chuveiro (a água quente demorou, mas quando veio, foi como um abraço). Mas, mesmo depois de tudo arrumado, a casa ainda parecia vazia. Não era só a ausência de móveis novos ou de quadros nas paredes—era a sensação de que algo faltava, algo que ele não sabia nomear. Resolveu preparar um chá. Enquanto a água fervia, seus olhos vagaram pela janela da cozinha, que dava direto para o quintal dos fundos. E então ele a viu. Clara estava sentada no deque de madeira, os pés descalços apoiados na grade, um copo de vinho na mão. Usava um roupão de seda azul, amarrado frouxamente na cintura, e o tecido escorregava pelos ombros, revelando a alça fina de uma camisola preta. Ela olhava para o céu, como se procurasse algo entre as estrelas, e Lucas se perguntou se ela também sentia aquele vazio, aquela pontada de solidão que às vezes o acordava no meio da noite. Ele deveria ter desviado o olhar. Deveria ter se afastado da janela, fechado as cortinas, fingido que não tinha visto nada. Mas não conseguiu. Ficou ali, imóvel, enquanto ela levava o copo aos lábios, o movimento lento, deliberado, como se cada gole fosse uma promessa. Então ela virou a cabeça. Por um segundo, seus olhares se encontraram. Lucas sentiu o coração bater mais forte, uma onda de calor subir pelo pescoço. Clara não sorriu, não acenou. Apenas ergueu o copo em um brinde silencioso, como se soubesse que ele estava ali o tempo todo, como se aquilo fosse um jogo que os dois já conheciam as regras. Ele ergueu a xícara de chá em resposta, um gesto bobo, mas que pareceu selar algo entre eles. Quando ela finalmente se levantou e entrou em casa, Lucas ficou parado na cozinha, o chá esquecido, a pele ainda formigando onde os olhos dela o haviam tocado. E, pela primeira vez em meses, ele sentiu algo além da solidão. Sentiu desejo. O supermercado cheirava a pão fresco e detergente de limão, um aroma que sempre lhe lembrava das manhãs de domingo na casa da avó, quando o mundo ainda parecia simples. Lucas empurrava o carrinho com uma mão, a outra ocupada com a lista de compras rabiscada em um pedaço de papel—arroz, ovos, café, *vinho tinto (opcional)*. Ele odiava fazer compras, mas depois de três dias sobrevivendo de miojo e torradas, não tinha mais desculpa. Foi ao dobrar a seção de hortifrúti que a viu. Clara estava de costas, os cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo alto, a blusa de linho azul-claro colada ao corpo pelo calor da tarde. Ela escolhia tomates com a mesma atenção que alguém dedicaria a uma obra de arte, virando cada um entre os dedos, pressionando levemente a polpa para testar a firmeza. Lucas hesitou, o carrinho rangendo levemente quando ele o parou. Não queria interrompê-la, mas também não queria passar despercebido. — *Aposto que você está pensando em fazer molho de tomate caseiro* — disse ele, antes que pudesse se conter. Ela se virou devagar, como se já soubesse que ele estava ali. Os lábios se abriram em um sorriso lento, os olhos verdes brilhando com algo que poderia ser diversão ou provocação. — *E se eu estiver?* — perguntou, erguendo um tomate perfeito entre os dedos. — *Você tem alguma receita secreta para me passar, escritor?* — *Depende. Você aceita conselhos de alguém que queima até água?* Ela riu, um som claro e contagiante, e ele sentiu o peso dos últimos meses se dissipar por um segundo. Clara colocou o tomate no carrinho e se aproximou, os passos leves, quase dançantes. — *Então acho que vou ter que te ensinar. Mas só se você prometer não colocar fogo na minha cozinha.* Ele deveria ter dito não. Deveria ter inventado uma desculpa—*tenho um prazo, preciso escrever, meu gato está doente*—qualquer coisa para manter a distância que ele mesmo havia imposto desde aquela noite na janela. Mas a verdade era que ele não queria distância. Não quando ela o olhava assim, como se ele fosse a única pessoa naquele supermercado lotado. — *Prometo tentar não incendiar nada* — disse ele, e foi recompensado com outro sorriso. --- A casa de Clara cheirava a canela e café recém-passado. Lucas parou na soleira da porta, subitamente consciente do peso da decisão que havia tomado ao aceitar o convite. A cerca de madeira entre os quintais parecia mais baixa ali, como se pudesse ser derrubada com um empurrão. Ele tirou os sapatos, seguindo as instruções dela, e sentiu o piso frio de cerâmica sob os pés. — *Fique à vontade* — disse Clara, desaparecendo na cozinha. — *O café já está quase pronto.* Ele se aproximou da janela da sala, a mesma pela qual a observara tantas vezes. Dali, podia ver o quintal dele, a mesa de madeira onde costumava escrever, o vaso de samambaia que havia comprado por impulso e que agora murchava lentamente. A cerca dividia os espaços, mas não os olhares. Não os pensamentos. — *Você gosta de açúcar?* — a voz dela veio da cozinha, acompanhada do tilintar de xícaras. — *Um pouco* — respondeu ele, embora não fosse verdade. Ele gostava de café amargo, assim como gostava das coisas sem maquiagem, sem disfarces. Mas algo em Clara o fazia querer adoçar as coisas. Ela voltou com uma bandeja—duas xícaras fumegantes, um prato de biscoitos amanteigados, uma tigela de açúcar com uma colherzinha de prata. Colocou tudo sobre a mesa de centro, entre o sofá e a poltrona, e sentou-se primeiro, cruzando as pernas sob o corpo. O vestido subiu um pouco, revelando a curva suave da coxa. Lucas se sentou na poltrona, mantendo uma distância segura. Ou pelo menos tentando. — *Então, escritor* — disse ela, pegando a xícara e soprando o café antes de tomar um gole. — *O que te trouxe para esse bairro tão… tranquilo?* — *Precisava de silêncio* — respondeu ele, brincando com a alça da xícara. — *E de uma mudança. Depois do divórcio, a cidade parecia… barulhenta demais.* Ela o estudou por um momento, os olhos verdes atentos, como se procurasse algo além das palavras. — *E você encontrou o que procurava?* — *Ainda não sei* — admitiu ele. — *Mas acho que estou no caminho certo.* Um sorriso lento se espalhou pelo rosto dela. — *Ou no caminho errado* — murmurou ela, e o tom da voz fez o ar entre eles ficar mais denso. Ele não respondeu. Não precisava. --- O café foi consumido entre conversas fáceis—livros, filmes, a última temporada de uma série que ambos odiavam—, mas havia algo por baixo de cada palavra, uma corrente subterrânea que os puxava para mais perto. Quando Clara se inclinou para pegar um biscoito, o braço dela roçou no dele, e ele sentiu o calor da pele dela mesmo através da blusa. — *Desculpa* — disse ela, mas não se afastou. — *Não precisa* — respondeu ele, a voz mais rouca do que pretendia. Ela o encarou, os lábios entreabertos, e por um segundo ele pensou que ela fosse dizer algo. Mas então o telefone dela tocou, um som estridente que cortou o momento como uma faca. Clara franziu a testa ao ver o nome na tela. — *É o meu marido* — disse ela, e o nome pairou entre eles, pesado e incômodo. — *Já volto.* Ela atendeu enquanto se afastava, a voz baixa, quase inaudível. Lucas ficou sozinho na sala, o café esquecido na xícara, o coração batendo mais rápido do que deveria. Olhou pela janela novamente, para a cerca, para o quintal dele, para a mesa onde havia deixado o notebook aberto naquela manhã. Podia ver a última frase que havia escrito: *"O desejo é uma coisa traiçoeira. Ele se esconde nas sombras até que você não consiga mais ignorá-lo."* — *Desculpa* — disse Clara, voltando para a sala. — *Ele só queria saber se eu tinha comprado o vinho que ele pediu.* — *Tudo bem* — respondeu Lucas, embora não fosse. Ela se sentou mais perto dessa vez, não na poltrona, mas no sofá, a poucos centímetros dele. O perfume dela—algo floral, com um toque de baunilha—encheu o ar entre eles. — *Onde estávamos?* — perguntou ela, a voz suave, quase um sussurro. — *Acho que estávamos prestes a cometer um erro* — disse ele, e as palavras saíram antes que pudesse detê-las. Ela não se afastou. Pelo contrário, inclinou-se um pouco mais, os olhos fixos nos dele. — *Ou talvez estivéssemos prestes a começar algo que deveria ter começado há muito tempo.* Ele deveria ter se levantado. Deveria ter dito que precisava ir, que tinha um capítulo para terminar, que não podia fazer aquilo. Mas quando ela estendeu a mão e tocou o rosto dele, os dedos quentes contra a pele, ele soube que não iria a lugar nenhum. — *Clara…* — começou ele, mas ela o interrompeu com um beijo. Não foi um beijo suave. Foi urgente, faminto, como se ela também estivesse esperando por isso há semanas. Os lábios dela eram macios, mas a pressão era firme, e quando a língua dela encontrou a dele, Lucas sentiu o mundo se inclinar. Ele a puxou para mais perto, as mãos deslizando pelas costas dela, sentindo a curva da coluna, a respiração acelerada. Ela se afastou primeiro, os lábios inchados, os olhos escuros. — *A cerca* — murmurou ela, olhando para a janela. — *Ela nunca vai nos segurar.* Ele não respondeu. Não precisava. Porque, naquele momento, a cerca já havia caído. O vento uivava como um animal ferido quando Clara bateu à porta de Lucas. Três batidas rápidas, urgentes, seguidas de um intervalo que pareceu durar uma eternidade antes que ela repetisse o gesto, mais forte dessa vez. Ele estava sentado à mesa da cozinha, os dedos pairando sobre o teclado do notebook, a tela iluminando seu rosto com um brilho azulado e frio. A luz da lâmpada balançava com as rajadas, projetando sombras dançantes nas paredes, como se a própria casa estivesse respirando. Quando abriu a porta, o ar úmido da tempestade invadiu o ambiente, carregando consigo o cheiro de terra molhada e ozônio. Clara estava encharcada, os cabelos castanhos grudados na testa e no pescoço, a blusa branca colada ao corpo como uma segunda pele. As gotas de chuva escorriam pelo seu rosto, misturando-se às lágrimas que ela tentava disfarçar com um sorriso trêmulo. — *A energia caiu lá em casa* — disse ela, a voz abafada pelo trovão que ribombou ao longe. — *E o gerador não liga. Acho que o disjuntor queimou.* Lucas deu um passo para o lado, permitindo que ela entrasse. O calor do corpo dela o atingiu antes mesmo que ela cruzasse a soleira, uma onda de calor úmido que contrastava com o frio da noite. Ele fechou a porta atrás dela, mas o vento parecia ter se infiltrado junto, fazendo as cortinas tremularem como fantasmas. — *Você está tremendo* — observou ele, a voz rouca. Clara cruzou os braços, tentando conter o tremor. — *É só o frio.* Mas não era. Os olhos dela, escuros e brilhantes, traíam outra coisa. Medo, talvez. Ou algo mais perigoso. Lucas pegou uma toalha no armário do corredor e a estendeu para ela. Quando Clara a segurou, seus dedos roçaram nos dele, um contato breve, mas suficiente para enviar uma corrente elétrica pelo braço de Lucas. Ela secou o rosto primeiro, depois os cabelos, os movimentos lentos, quase preguiçosos, como se estivesse saboreando a sensação de ser cuidada. — *Vou dar uma olhada no disjuntor* — disse ele, tentando ignorar o modo como a blusa dela se moldava aos seios a cada movimento. — *Mas você devia tirar essa roupa molhada antes.* Clara ergueu os olhos, e por um segundo, algo faiscou entre eles. Um reconhecimento. Um convite. — *Você tem algo que eu possa vestir?* Ele hesitou, então assentiu e foi até o quarto. Pegou uma camiseta cinza, macia pelo uso, e uma calça de moletom que provavelmente ficaria larga nela. Quando voltou para a sala, Clara estava parada no meio da cozinha, a toalha enrolada nos ombros como um xale. A luz trêmula da vela que ele havia acendido iluminava metade do seu rosto, deixando a outra na penumbra. — *Aqui* — disse ele, estendendo as roupas. Ela as pegou, mas não se moveu. Em vez disso, olhou para ele, os lábios entreabertos, como se estivesse prestes a dizer algo. Mas não disse. Apenas deixou a toalha cair no chão e começou a desabotoar a blusa. Lucas deveria ter desviado o olhar. Deveria ter dito algo, qualquer coisa, para quebrar aquele silêncio carregado. Mas ficou ali, imóvel, enquanto os botões se abriam um a um, revelando a pele úmida e rosada por baixo. O sutiã dela era de renda preta, quase transparente com a umidade, e quando ela deixou a blusa escorregar pelos ombros, ele viu o contorno dos mamilos endurecidos sob o tecido. — *Clara…* — murmurou ele, mas a palavra morreu na garganta. Ela deu um passo à frente, os pés descalços silenciosos no piso de madeira. — *Você não vai me ajudar?* Ele engoliu em seco. As mãos tremiam quando as levou até ela, os dedos roçando a pele macia dos seus braços antes de deslizarem para as alças do sutiã. O fecho estava na frente, e ele o abriu com um clique suave, sentindo o peso dos seios dela se libertando contra as palmas das suas mãos. Ela soltou um suspiro quando ele a tocou, os dedos traçando círculos lentos ao redor dos mamilos, sentindo-os enrijecer ainda mais sob o seu toque. Clara inclinou a cabeça para trás, os lábios entreabertos, e ele não resistiu. Inclinou-se e capturou a boca dela com a sua, beijando-a com uma fome que o surpreendeu. O beijo foi profundo, molhado, desesperado. As línguas se enroscaram, explorando, provando, enquanto as mãos dele deslizavam pelas costas dela, puxando-a para mais perto. Ela gemeu contra a boca dele, um som baixo e gutural que fez o sangue de Lucas ferver. Ele a empurrou contra a parede, as mãos agora segurando seus quadris, sentindo a curva do seu corpo se moldar ao dele. — *Lucas…* — ela sussurrou, afastando-se apenas o suficiente para respirar. — *Nós não podemos…* — *Eu sei* — respondeu ele, mas não parou. Beijou o pescoço dela, sentindo o gosto salgado da chuva e do suor, enquanto as mãos deslizavam para baixo, puxando a saia molhada para cima. Ela não o impediu. Em vez disso, ergueu uma perna, enganchando-a na cintura dele, permitindo que ele a pressionasse contra a parede com mais força. Ele podia sentir o calor dela através do tecido fino da calcinha, e quando seus dedos a encontraram, ela estava encharcada. — *Porra* — gemeu ele, a voz rouca de desejo. Clara mordeu o lábio, os olhos fechados, os dedos cravados nos ombros dele enquanto ele a tocava, lento e deliberado, sentindo-a tremer sob suas mãos. Ela estava tão perto, tão pronta, e ele queria mais. Queria sentir o gosto dela, queria ouvi-la gritar seu nome. Mas então, um som cortou o ar. O ronco de um motor. O chiar de pneus no asfalto molhado. Clara empurrou Lucas com força, os olhos arregalados. — *É ele.* Ele recuou, o coração batendo tão forte que parecia prestes a explodir. Clara se abaixou para pegar a toalha do chão, enrolando-a ao redor do corpo com movimentos frenéticos, enquanto a porta da garagem da casa dela se abria com um rangido metálico. — *Meu Deus* — sussurrou ela, a voz trêmula. — *Ele não pode me ver assim.* Lucas olhou para a janela. A chuva ainda caía em cortinas densas, mas através dela, era possível ver a silhueta de um homem saindo do carro, a cabeça baixa contra o vento. — *Vá para o banheiro* — disse ele, pegando as roupas dela do chão e entregando-as. — *Rápido.* Ela assentiu, os olhos ainda fixos nele, como se estivesse memorizando cada detalhe do seu rosto. Então, sem dizer mais nada, correu pelo corredor, os pés descalços silenciosos no piso. Lucas ficou parado no meio da cozinha, a respiração ofegante, o corpo ainda latejando de desejo. Ouviu a porta da frente se abrir na casa ao lado, a voz grave do marido de Clara ecoando pelo quintal. — *Clara? Você está aí?* Ele fechou os olhos, tentando se acalmar. Mas quando abriu, viu algo no chão. A calcinha dela, preta e rendada, esquecida no meio da confusão. Ele a pegou, sentindo o tecido úmido entre os dedos, e a guardou no bolso da calça. A tempestade ainda rugia lá fora, mas a verdadeira tempestade estava apenas começando. A primeira vez foi no quarto dele, entre as quatro paredes que ainda cheiravam a tinta fresca e solidão. Clara chegou pela porta dos fundos, como combinado, os passos leves sobre a grama molhada, o vestido de verão colado à pele pelo calor úmido da tarde. Lucas a esperava com a janela entreaberta, o ar condicionado zumbindo baixinho, uma garrafa de vinho tinto já aberta sobre a mesa de cabeceira. Ela entrou sem fazer barulho, fechando a porta atrás de si com um clique suave, e por um instante ficaram parados, olhando um para o outro como se não acreditassem que aquilo era real. — Você trancou? — ele perguntou, a voz rouca. — Sim. — Ela mordeu o lábio inferior, os olhos percorrendo o corpo dele, vestido apenas com uma calça de moletom folgada. — E fechei as cortinas. Ele assentiu, mas nenhum dos dois se moveu. O silêncio entre eles era denso, carregado de tudo o que não haviam dito ainda. Então Clara deu um passo à frente, depois outro, até que suas mãos encontraram o peito dele, os dedos espalmados sobre o calor da pele. Lucas soltou um suspiro trêmulo, como se tivesse prendido a respiração por dias, e puxou-a para si, os lábios se encontrando em um beijo que começou lento, quase tímido, mas logo se transformou em algo mais urgente, mais faminto. As mãos dele deslizaram pelas costas dela, puxando o zíper do vestido para baixo, enquanto as dela se enroscavam em seus cabelos, puxando-o para mais perto. O tecido caiu aos pés de Clara, deixando-a apenas de lingerie preta, a mesma que ele havia guardado no bolso na noite da tempestade. Lucas gemeu contra a boca dela, o som abafado, e a empurrou gentilmente para a cama, cobrindo seu corpo com o dele. — Você tem certeza? — ele murmurou, os lábios roçando a orelha dela, a respiração quente. — Sim. — A palavra saiu como um suspiro, e Clara arqueou o corpo contra o dele, as unhas cravadas em seus ombros. — Mas tem que ser rápido. Ele riu baixinho, um som escuro e cheio de promessas. — Rápido não é o meu estilo. E então não houve mais palavras. Apenas o som da respiração acelerada, o ranger da cama, o farfalhar dos lençóis. Lucas explorou cada centímetro dela com as mãos, os lábios, a língua, como se quisesse memorizar cada curva, cada reação. Clara se contorcia sob ele, os gemidos abafados contra o travesseiro, as pernas se enroscando em sua cintura. Quando finalmente a penetrou, foi com uma lentidão torturante, os olhos fixos nos dela, observando cada expressão de prazer que cruzava seu rosto. — Porra, Clara… — ele sussurrou, a voz quebrada, enquanto começava a se mover, cada estocada mais profunda que a anterior. Ela mordeu o lábio para não gritar, as unhas deixando marcas vermelhas em seus braços. — Mais forte — pediu, a voz quase um gemido. — Por favor. Ele obedeceu, os quadris batendo contra os dela em um ritmo que os deixava sem ar, o suor escorrendo entre seus corpos. A cama rangia, o som abafado pela chuva que começava a cair lá fora, como se o céu também estivesse participando daquele momento proibido. Clara gozou primeiro, o corpo se contraindo em espasmos ao redor dele, os lábios entreabertos em um grito silencioso. Lucas a seguiu logo depois, enterrando o rosto no pescoço dela enquanto se deixava levar, o corpo tremendo com a força do orgasmo. Por um longo momento, ficaram ali, imóveis, os corpos entrelaçados, a respiração aos poucos voltando ao normal. Então Clara riu baixinho, um som suave e quase incrédulo. — Isso foi… — ela começou, mas não terminou a frase. — Eu sei — ele respondeu, beijando o ombro dela, o gosto salgado de suor na língua. Ela se virou para encará-lo, os olhos brilhando com algo que ia além do prazer. — Não podemos fazer isso de novo. Lucas ergueu uma sobrancelha, um sorriso irônico nos lábios. — Você diz isso agora. — É sério. — Ela se sentou, puxando o lençol para cobrir o corpo, como se de repente se lembrasse de onde estava. — Se alguém nos ver… — Ninguém vai ver — ele interrompeu, puxando-a de volta para seus braços. — E se verem, a gente nega. Clara suspirou, mas não resistiu quando ele a beijou novamente, as mãos já começando a explorar seu corpo outra vez. — Isso é loucura. — É — ele concordou, os lábios descendo pelo pescoço dela. — Mas é a melhor loucura que já vivi. --- Os encontros seguintes foram marcados pela mesma urgência, pela mesma necessidade desesperada de se tocarem, de se sentirem vivos. Eles se encontravam em lugares diferentes — no quarto dele, no quintal dela quando o marido viajava, até mesmo no carro de Lucas, estacionado em uma rua deserta nos arredores do bairro. Cada vez era mais intenso, mais arriscado, como se estivessem competindo contra o tempo, contra a possibilidade de serem descobertos. Uma tarde, Clara apareceu na casa dele com uma sacola de compras. — O que é isso? — Lucas perguntou, observando enquanto ela tirava garrafas de óleo de massagem, velas aromáticas e um frasco de algo que parecia mel. — Vamos fazer isso direito — ela disse, um sorriso malicioso nos lábios. — Sem pressa. Ele não discutiu. Deixou que ela o guiasse até o quarto, onde as velas já estavam acesas, o cheiro de lavanda enchendo o ar. Clara o empurrou para a cama, tirando a camisa dele com movimentos lentos, deliberados. Então pegou o frasco de mel e derramou um pouco sobre o peito dele, observando enquanto o líquido dourado escorria pelos músculos definidos. — Você é louca — ele murmurou, mas não fez nenhum movimento para impedi-la. — Shhh — ela sussurrou, inclinando-se para lamber o mel, a língua quente e úmida contra a pele dele. — Só sinta. E ele sentiu. Cada toque, cada carícia, cada lambida era como uma faísca, acendendo algo dentro dele que não podia mais ser controlado. Clara o massageou com o óleo, as mãos deslizando sobre seu corpo, explorando cada centímetro com uma paciência que ele não sabia que ela tinha. Quando finalmente o montou, foi com uma lentidão torturante, os quadris se movendo em círculos preguiçosos, os olhos fixos nos dele. — Você gosta de me ver assim? — ela perguntou, a voz baixa, quase um sussurro. — Descontrolado? — Sim — ele admitiu, as mãos apertando os quadris dela, guiando-a em um ritmo mais rápido. — Porra, sim. Ela riu, um som suave e satisfeito, e se inclinou para beijá-lo, os lábios doces pelo mel. — Então aproveite. --- Mas nem tudo era prazer. Havia momentos em que a culpa os atingia como uma onda fria, sufocante. Clara chegava com os olhos vermelhos, como se tivesse chorado, e Lucas não perguntava. Ele apenas a puxava para seus braços e a beijava até que ela esquecesse, até que os gemidos abafados contra o travesseiro fossem a única coisa que importasse. Uma noite, depois de um encontro particularmente intenso, Clara se sentou na beira da cama, os joelhos puxados contra o peito, os olhos fixos na parede. — Eu não posso continuar fazendo isso — ela disse, a voz quebrada. Lucas se aproximou, passando um braço ao redor dela. — Por que não? — Porque eu sou casada, Lucas. — Ela se virou para encará-lo, os olhos cheios de lágrimas. — E mesmo que ele não me toque há meses, mesmo que eu não sinta nada por ele, isso não muda o fato de que estou traindo. Ele não sabia o que dizer. Parte dele queria gritar que ela merecia mais, que merecia alguém que a desejasse como ele a desejava, que a tocasse como ele a tocava. Mas outra parte entendia. Porque ele também sentia a culpa, o peso de saber que estava levando outra pessoa a quebrar promessas que um dia foram importantes. — O que você quer que eu faça? — ele perguntou, finalmente. Clara balançou a cabeça, uma lágrima escorrendo pelo rosto. — Não sei. Só… não sei. Ele a puxou para mais perto, beijando sua testa, suas pálpebras, seus lábios. — Vamos pensar nisso depois — murmurou. — Agora, só fique aqui comigo. E ela ficou. Porque, apesar de tudo, o desejo era mais forte que a culpa. Mais forte que o medo. Mais forte que qualquer coisa. --- Na semana seguinte, eles se encontraram no quintal dela, sob o abrigo da varanda, enquanto o marido estava no trabalho e a chuva caía em grossas cortinas prateadas. Clara o puxou para dentro da casa, os lábios já nos dele, as mãos desesperadas para tirar sua roupa. Eles mal chegaram à sala antes de caírem no sofá, os corpos se movendo em um ritmo frenético, como se soubessem que aquele poderia ser o último encontro. Quando terminaram, ficaram ali, ofegantes, os corpos entrelaçados, o suor misturado à chuva que ainda caía lá fora. Clara traçou círculos preguiçosos no peito dele com a ponta dos dedos, os olhos fixos no teto. — E se a gente for descoberto? — ela perguntou, a voz baixa. Lucas não respondeu de imediato. Em vez disso, virou-se para encará-la, os olhos sérios. — Então a gente lida com isso. Ela sorriu, mas não havia alegria no gesto. — Você faz parecer tão simples. — Não é. — Ele segurou o rosto dela entre as mãos, os polegares acariciando suas bochechas. — Mas vale a pena. Clara fechou os olhos, encostando a testa na dele. — Vale? — Sim — ele sussurrou. — Vale cada segundo. E naquele momento, com a chuva batendo contra as janelas e o cheiro de sexo no ar, ela quase acreditou. Quase. A festa de bairro já durava horas quando Clara apareceu na varanda dos fundos, o vestido azul-marinho colado ao corpo como uma segunda pele, os cabelos soltos balançando com a brisa noturna. Ela segurava uma taça de vinho quase vazia, os lábios levemente manchados pelo líquido escuro, e seus olhos procuravam algo—ou alguém—entre as sombras do jardim. Lucas estava ali, encostado em uma árvore, observando-a com a intensidade de quem já conhecia cada curva daquele corpo, cada suspiro que ela soltava quando ele a tocava. O ar cheirava a grama recém-cortada e a fumaça doce das churrasqueiras, misturado ao perfume de Clara, um aroma cítrico que sempre o deixava tonto. Ela sorriu quando o viu, um sorriso lento, quase preguiçoso, como se soubesse exatamente o que ele estava pensando. E ele estava. Pensando em como seria puxá-la para trás daquela árvore, em como seus dedos se perderiam no tecido fino do vestido, em como ela gemeria contra sua boca se ele a beijasse ali, onde qualquer um poderia vê-los. — Você está se escondendo — ela disse, aproximando-se. A voz era baixa, rouca, como se já estivesse antecipando o que viria. — E você está procurando encrenca — ele respondeu, estendendo a mão para tocar a dela. Os dedos se entrelaçaram por um segundo, um toque rápido, mas suficiente para fazer o sangue dele ferver. Clara riu, um som leve que se perdeu no burburinho da festa. — Talvez eu goste de encrenca. Ela não esperou por uma resposta. Com um movimento rápido, puxou-o pela mão, levando-o para longe das luzes da varanda, para o canto mais escuro do jardim, onde as árvores formavam uma cortina espessa e o luar mal conseguia penetrar. O som da música e das risadas ficou abafado, como se o mundo lá fora tivesse deixado de existir. Só restavam eles, o cheiro da terra úmida e o calor dos corpos tão próximos que Lucas podia sentir o perfume de Clara se misturando ao suor da noite. — Aqui — ela sussurrou, empurrando-o contra o tronco de uma árvore. — Ninguém vai nos ver. Ele não precisou de mais incentivo. As mãos dela já estavam em seu peito, deslizando para baixo, até encontrarem a barra da camisa e puxá-la para fora da calça. Os dedos de Clara eram ágeis, impacientes, como se ela também não conseguisse mais esperar. Lucas segurou seu rosto entre as mãos e a beijou, um beijo profundo, faminto, que fez os dois gemerem contra a boca um do outro. A língua dela era quente, exigente, e ele a devorou como se fosse a última coisa que faria na vida. — Você não tem ideia do quanto eu te quero — ele murmurou contra seus lábios, as mãos descendo para agarrar sua cintura, puxando-a contra si. O corpo dela se moldou ao dele, macio e flexível, e ele sentiu o calor entre suas pernas mesmo através do tecido do vestido. — Eu tenho — ela respondeu, a voz ofegante. — Porque eu também te quero assim. Clara se afastou apenas o suficiente para puxar o vestido para cima, revelando as coxas nuas, a pele pálida brilhando sob a luz fraca da lua. Ela não usava calcinha. Lucas engoliu em seco, os olhos fixos nela, a boca seca de desejo. Com um movimento rápido, ela montou nele, as pernas envolvendo sua cintura, o vestido enrolado na altura dos quadris. O tronco áspero da árvore arranhou suas costas, mas ele mal sentiu. Tudo o que importava era o calor úmido entre as pernas dela, a maneira como ela se esfregava contra ele, os gemidos baixos que escapavam de sua garganta. — Porra, Clara — ele rosnou, as mãos segurando seus quadris com força, guiando seus movimentos. — Você vai me matar. Ela riu, um som rouco e perigoso, e mordeu o lábio inferior. — Só se você parar. Ele não parou. As mãos dela estavam em seu cinto, abrindo-o com urgência, e então sua calça estava aberta, a ereção livre, pulsando contra a pele macia de Clara. Ela não perdeu tempo. Com um movimento rápido, desceu sobre ele, engolindo-o por inteiro, e os dois gemeram ao mesmo tempo, o prazer tão intenso que quase doeu. — Isso — ela sussurrou, as unhas cravando em seus ombros. — Assim. Lucas segurou seus quadris com mais força, ajudando-a a se mover, a subir e descer sobre ele em um ritmo que os deixava loucos. O som dos corpos se chocando, úmidos e desesperados, se misturava ao farfalhar das folhas e ao distante murmúrio da festa. Cada estocada era mais profunda, mais intensa, como se os dois estivessem tentando se fundir em um só. Clara jogou a cabeça para trás, os cabelos caindo em cascata pelas costas, e ele aproveitou para beijar seu pescoço, mordiscando a pele sensível, sentindo o gosto salgado do suor dela. — Você é tão gostosa — ele murmurou, a voz rouca. — Tão apertada… porra. Ela não respondeu com palavras. Em vez disso, acelerou o ritmo, os movimentos se tornando mais frenéticos, mais desesperados. Lucas sentiu o orgasmo se aproximando, uma onda quente e avassaladora que começava na base da espinha e se espalhava por todo o corpo. Ele tentou segurar, queria que aquilo durasse para sempre, mas Clara era implacável. Com um gemido longo e gutural, ela gozou, o corpo tremendo sobre o dele, os músculos internos apertando-o com força. Foi demais. Com um rosnado, Lucas a segurou com força e a virou, pressionando-a contra a árvore, as mãos segurando seus pulsos acima da cabeça. Ele entrou nela de novo, com força, uma, duas, três vezes, até que seu próprio orgasmo o atingiu como um raio, deixando-o sem fôlego, os joelhos quase cedendo. Por um momento, os dois ficaram ali, imóveis, os corpos ainda unidos, a respiração ofegante ecoando na noite. Clara encostou a testa no peito dele, os lábios entreabertos, os olhos fechados. Lucas soltou seus pulsos e a envolveu em seus braços, puxando-a para mais perto, como se quisesse mantê-la ali para sempre. — Isso foi… — ela começou, mas não terminou a frase. — Loucura — ele completou, beijando o topo de sua cabeça. — Sim. — Ela suspirou. — Mas não quero que pare. Lucas não disse nada. Em vez disso, segurou seu rosto entre as mãos e a beijou de novo, um beijo lento, profundo, cheio de promessas não ditas. Quando se afastaram, os olhos de Clara brilhavam com algo que ia além do desejo. Algo mais perigoso. — O que a gente faz agora? — ela perguntou, a voz baixa. Ele não tinha resposta. Ou melhor, tinha, mas não era uma resposta que ela queria ouvir. Não ainda. — A gente vive — ele disse, finalmente. — Um dia de cada vez. Clara sorriu, mas havia uma sombra de dúvida em seus olhos. — E se não for suficiente? Lucas não respondeu. Em vez disso, puxou-a para mais perto, os lábios encontrando os dela mais uma vez. Porque, naquele momento, palavras não eram necessárias. O que eles tinham era maior do que qualquer explicação. Eles ficaram ali, abraçados, até que os sons da festa começaram a se infiltrar de volta em suas consciências. Alguém chamou o nome de Clara de longe, e os dois se afastaram rapidamente, arrumando as roupas com mãos trêmulas. Ela alisou o vestido, tentando recuperar a compostura, mas os lábios ainda estavam inchados, os olhos brilhando com uma intensidade que não passaria despercebida. — Eu vou primeiro — ela disse, olhando para ele com uma expressão que misturava medo e excitação. — Espere uns minutos. Lucas assentiu, observando enquanto ela se afastava, os quadris balançando levemente, como se ainda sentisse o peso dele dentro de si. Quando ela desapareceu entre as árvores, ele encostou a cabeça no tronco e fechou os olhos, tentando acalmar o coração que ainda batia acelerado. Ele sabia que não podia mais voltar atrás. E, pela primeira vez, não queria. A chuva fina da manhã escorria pelas janelas da casa de Lucas, desenhando linhas tortas no vidro como se o tempo hesitasse em seguir adiante. Ele estava sentado à mesa da cozinha, os dedos tamborilando sobre a xícara de café já fria, os olhos fixos na cerca que separava seu quintal do de Clara. A madeira gasta, lascada em alguns pontos, parecia mais frágil do que nunca—como se bastasse um empurrão para que desabasse, levando junto todas as mentiras que eles haviam tecido. O celular vibrou ao lado da mão esquerda. Uma mensagem dela: *"Preciso te ver. Hoje. Antes que eu perca a coragem."* Ele fechou os olhos por um segundo, sentindo o peso daquelas palavras. Não era mais só desejo. Era algo que doía, que apertava o peito como uma mão invisível. Levantou-se, lavou a xícara com movimentos lentos, deliberados, como se adiar o inevitável pudesse mudar alguma coisa. Quando saiu para o quintal, o ar estava carregado de umidade, o cheiro de terra molhada misturando-se ao perfume cítrico que Clara sempre deixava no rastro. Ela estava de pé junto à cerca, os braços cruzados sobre o peito, os dedos apertando os próprios cotovelos. Usava um vestido leve, de alças finas, que acentuava a curva dos ombros e a linha da clavícula—aquela mesma clavícula que ele havia beijado tantas vezes, como se pudesse gravar seu nome ali. Os cabelos soltos caíam em ondas escuras sobre as costas, e quando ela o viu, seus lábios se entreabriram, mas nenhuma palavra saiu. — Você veio — ela disse, finalmente, a voz baixa, quase engolida pelo vento. — Claro que vim. Um sorriso triste tocou os lábios dela. — Eu não sabia se você viria. — Eu sempre venho. Ela soltou uma risada curta, sem humor. — Não é disso que estou falando. Lucas se aproximou, até que apenas a cerca os separava. Estendeu a mão, os dedos roçando a madeira áspera, como se pudesse sentir o calor dela do outro lado. — Eu sei. Clara fechou os olhos por um instante, como se reunisse forças. Quando os abriu, havia uma resolução neles que ele não vira antes. — Eu conversei com ele. As palavras caíram entre eles como pedras. Lucas sentiu o ar fugir dos pulmões. — E? — E não foi como eu imaginei. — Ela mordeu o lábio inferior, um gesto que ele conhecia bem, um sinal de que estava lutando para não chorar. — Ele nem sequer pareceu surpreso. Disse que já sabia. Que fazia tempo que sabia. — Ele disse isso? — Disse. — Clara soltou um suspiro trêmulo. — Disse que preferia fingir que não via, porque assim era mais fácil. Que não queria perder o que a gente tinha. Lucas sentiu uma onda de raiva subindo pela garganta. — E o que *você* tem, Clara? O que ele te dá, além de silêncio e ausência? Ela não respondeu de imediato. Em vez disso, estendeu a mão por entre as ripas da cerca, os dedos procurando os dele. Quando se tocaram, foi como se um circuito se fechasse. — Nada — ela admitiu, a voz quebrada. — Ele não me dá nada. Não mais. Ele entrelaçou os dedos nos dela, puxando-a para mais perto, até que a madeira da cerca pressionou seus peitos, seus quadris. — Então por que você ainda está aí? — Porque eu tinha medo. — Os olhos dela brilharam, úmidos. — Medo de ser egoísta. Medo de machucar. Medo de descobrir que o que a gente tem não é real. — Clara. — Ele soltou a mão dela só para segurar seu rosto, os polegares enxugando as lágrimas que escorriam. — Você acha que isso é mentira? Ela fechou os olhos, encostando a testa na dele, mesmo que a cerca ainda os separasse. — Não. Mas eu não sei se consigo viver com isso. — Então não viva. — A voz dele saiu mais áspera do que pretendia. — Não viva com metade de algo. Não viva com migalhas. Você merece mais. Ela soltou um soluço abafado, os dedos se agarrando à camisa dele. — E se eu não souber como? — Eu te ensino. Por um longo momento, eles ficaram ali, respirando o mesmo ar, os corpos pressionados contra a cerca como se pudessem atravessá-la pela força do desejo. Então, Clara se afastou, enxugando o rosto com as costas da mão. — Eu preciso ir. Ele está em casa. Lucas sentiu o peito apertar. — Quando você vai falar com ele? — Hoje. — Ela respirou fundo. — Hoje eu termino com isso. Ele assentiu, mesmo que cada fibra do seu corpo gritasse para que a impedisse, para que a puxasse para o seu lado da cerca e nunca mais a deixasse ir. — Eu vou estar aqui. Clara sorriu, um sorriso frágil, mas verdadeiro. — Eu sei. Ela se virou para ir embora, mas parou depois de alguns passos. — Lucas? — Sim? — Se eu bater na sua porta hoje à noite, você vai me deixar entrar? Ele não hesitou. — Sempre. --- A noite caiu devagar, como se o céu estivesse relutante em dar lugar à escuridão. Lucas andava de um lado para o outro na sala, as mãos enfiadas nos bolsos, os ouvidos atentos a qualquer som vindo da rua. O relógio na parede marcava dez e meia. Depois, onze. Depois, onze e meia. Ele já havia tomado duas doses de uísque, mas o álcool não queimava como antes. Só deixava um gosto amargo na boca, uma sensação de vazio no estômago. Quando ouviu a batida na porta, seu coração disparou. Abriu-a sem pensar. Clara estava ali, os olhos vermelhos, o rosto pálido. Usava um casaco longo sobre o pijama, os pés descalços, as unhas pintadas de um vermelho escuro que ele conhecia bem. Ela não disse nada. Apenas entrou, fechando a porta atrás de si com um clique suave, e então se virou para ele, os lábios tremendo. — Acabou — ela sussurrou. Lucas não perguntou se ela estava bem. Não perguntou como tinha sido. Sabia que não importava. Em vez disso, estendeu a mão, e quando ela a segurou, ele a puxou para si, envolvendo-a em um abraço que dizia tudo o que palavras não podiam. Ela enterrou o rosto no peito dele, os ombros sacudindo em soluços silenciosos. Ele acariciou seus cabelos, beijou sua testa, sussurrou coisas sem sentido—promessas, desculpas, juramentos que nenhum dos dois precisava ouvir. Quando ela ergueu o rosto, os olhos ainda úmidos, mas agora com uma determinação que o fez prender a respiração, ele soube que algo havia mudado para sempre. — Eu não quero mais me esconder — ela disse, a voz firme. — Não quero mais ter medo. — Então não tenha. Ela segurou o rosto dele entre as mãos, os polegares traçando o contorno de suas maçãs do rosto, como se quisesse memorizar cada detalhe. — Eu quero você. Todo você. Não só os pedaços que a gente rouba no escuro. Lucas sentiu algo se quebrar dentro de si—algo velho, enferrujado, que já não servia mais. Ele a puxou para mais perto, até que seus corpos se encaixassem perfeitamente, como se tivessem sido feitos para isso. — Você me tem. E então, pela primeira vez, eles se beijaram sem pressa. Sem medo. Sem a sombra de mais ninguém pairando sobre eles. Os lábios dela eram macios, quentes, e quando sua língua encontrou a dele, foi como se o mundo inteiro se reduzisse àquele momento, àquele toque, àquele gosto. Ele a ergueu nos braços, carregando-a até o sofá, onde a deitou com cuidado, como se ela fosse feita de vidro. Clara puxou a camisa dele pela cabeça, os dedos traçando os músculos do peito, as cicatrizes antigas, as marcas que contavam histórias que ela ainda não conhecia. Ele fez o mesmo com ela, deslizando o casaco pelos ombros, puxando a alça do pijama para baixo, expondo a pele nua ao seu toque. — Você é linda — ele murmurou, a boca descendo pelo pescoço dela, pelos seios, pelo ventre, até que seus lábios encontraram o calor entre suas pernas. Clara arqueou as costas, um gemido escapando de sua garganta, as mãos se enroscando nos cabelos dele. — Lucas… por favor… Ele não a fez esperar. Subiu de volta, beijando-a profundamente, enquanto suas mãos exploravam cada centímetro de pele, cada curva, cada segredo que ela havia guardado por tanto tempo. Quando finalmente a penetrou, foi com uma lentidão deliberada, como se quisesse gravar aquele momento na memória para sempre. Clara envolveu as pernas ao redor de sua cintura, puxando-o mais fundo, os quadris se movendo em um ritmo que era ao mesmo tempo familiar e novo. Eles não eram mais amantes clandestinos. Não eram mais prisioneiros de olhares furtivos e portas entreabertas. Eram apenas eles dois, entregues um ao outro, sem barreiras, sem mentiras. — Eu te amo — ela sussurrou, as unhas cravadas nas costas dele. Lucas enterrou o rosto no pescoço dela, sentindo o gosto salgado de sua pele, o cheiro de seu perfume misturado ao suor. — Eu também te amo. E quando chegaram ao clímax, foi como se o mundo inteiro explodisse em cores—vermelho, dourado, um fogo que queimava sem destruir. Eles ficaram ali, entrelaçados, os corpos ainda tremendo, os batimentos cardíacos aos poucos se acalmando. Clara se aninhou contra ele, a cabeça apoiada em seu peito. — O que a gente faz agora? Lucas beijou o topo de sua cabeça, sentindo o peso dela, o calor, a realidade de que ela estava ali, de verdade, sem precisar se esconder. — Agora a gente vive. Ela sorriu contra a pele dele. — Juntos? — Sempre. E pela primeira vez em muito tempo, nenhum dos dois sentiu medo do amanhã.

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