Fogo na Chuva

**Fogo na Chuva**
A chuva caía como se o céu tivesse rasgado as próprias veias, grossas cortinas de água que transformavam as ruas em rios escuros. Os relâmpagos riscavam o horizonte em intervalos irregulares, iluminando por segundos o asfalto brilhante, os carros estacionados como barcos à deriva, as poças que espelhavam o neon dos letreiros apagados. O vento uivava entre os prédios, carregando o cheiro de asfalto molhado e ozônio, um aroma metálico que grudava na garganta. Era uma daquelas tempestades que não avisam, que chegam de repente e afogam a cidade em minutos.
Laura empurrou a porta do bar com um ombro, o peso do dia ainda colado aos ossos. A madeira rangeu, resistindo por um instante antes de ceder, e uma lufada de ar quente e úmido escapou para a rua, misturando-se ao perfume de álcool velho e madeira envernizada. Ela sacudiu o guarda-chuva, espalhando gotas pelo chão de ladrilhos gastos, e passou uma mão pelos cabelos castanhos, agora grudados na testa e no pescoço. A blusa de seda, antes impecável, colava-se à pele como uma segunda camada, os botões superiores abertos revelando a curva dos seios e a sombra entre eles. Os saltos altos ecoaram no espaço quase vazio, cada passo uma pequena vitória contra o cansaço.
O bar era um daqueles lugares que sobreviviam à margem do tempo, um refúgio para quem não queria ser encontrado. As paredes eram revestidas de madeira escura, envernizada pelo fumo de décadas, e as mesas de mármore rachado exibiam manchas de copos abandonados. No canto, um jukebox antigo piscava luzes azuis e vermelhas, mas não tocava nada—o silêncio era quebrado apenas pelo tamborilar da chuva no telhado de zinco e pelo tilintar ocasional de um copo sendo colocado no balcão. Atrás do balcão, um homem secava um copo com um pano xadrez, os movimentos lentos, quase preguiçosos, como se o mundo lá fora não existisse.
Daniel ergueu os olhos quando ela entrou, e por um segundo, o pano parou de se mover. Não era um olhar de surpresa, mas de avaliação—rápida, precisa, como se ele já soubesse exatamente o que procurava nela. Os olhos dele eram verdes, um tom escuro e profundo como musgo depois da chuva, e a luz fraca do bar fazia as pupilas brilharem como vidro polido. A barba por fazer delineava um maxilar forte, e os lábios, levemente entreabertos, pareciam conter uma pergunta que ele ainda não tinha coragem de fazer. Os braços, expostos pela camiseta preta de mangas curtas, eram marcados por veias sutis e músculos definidos, como se cada movimento fosse calculado para economizar energia, mas também para chamar atenção.
Laura sentiu o peso daquele olhar e hesitou por um instante, como se tivesse sido pega fazendo algo proibido. Mas não havia ninguém ali para testemunhar, apenas o barman—um homem de meia-idade com olhos cansados—que a observava com indiferença profissional. Ela caminhou até o balcão, os dedos roçando a superfície úmida, e sentou-se em um dos bancos altos, o couro gasto rangendo sob seu peso. O cheiro de uísque e limão pairava no ar, misturado ao aroma terroso de madeira molhada.
— Um uísque. Duplo — pediu, a voz rouca de cansaço, mas ainda firme. — Com gelo.
Daniel não respondeu de imediato. Terminou de secar o copo, colocando-o com cuidado sobre a prateleira atrás dele, antes de se virar para ela. Os dedos longos e ágeis—dedos de músico, ela notou—roçaram o balcão enquanto ele pegava uma garrafa de vidro escuro, o rótulo gasto pelo tempo.
— Duplo é para quem está com pressa — disse, a voz baixa, quase um murmúrio. — E você não parece o tipo de mulher que tem pressa para nada.
Laura ergueu uma sobrancelha, surpresa com a ousadia. Mas havia algo no tom dele, uma suavidade quase perigosa, que a fez sorrir.
— Talvez eu esteja com pressa de esquecer o dia que tive.
Ele serviu a bebida com precisão, o líquido âmbar caindo no copo como mel derramado. O gelo tilintou quando ele o empurrou na direção dela, os dedos roçando os dela por um segundo a mais do que o necessário. Um toque leve, quase imperceptível, mas suficiente para fazer o ar entre eles ficar mais denso.
— Então você veio ao lugar certo — disse Daniel, inclinando-se levemente sobre o balcão. O movimento fez a camiseta esticar sobre os ombros, revelando a curva dos músculos das costas. — Este bar é ótimo para esquecer coisas.
Laura pegou o copo, os dedos envolvendo o vidro frio. O primeiro gole queimou sua garganta, mas era uma queimação boa, do tipo que espalhava calor pelo peito e descia até o ventre. Ela fechou os olhos por um instante, deixando o álcool fazer seu trabalho, e quando os abriu novamente, Daniel ainda a observava. Não com insistência, mas com uma curiosidade quase científica, como se estivesse tentando decifrar um enigma.
— Você trabalha aqui? — perguntou ela, mais para quebrar o silêncio do que por real interesse.
— Só hoje — respondeu ele, pegando outro copo e servindo-se de uma dose menor. — Estou de passagem. A cidade não é minha.
— E para onde vai?
— Para onde o vento me levar. — Ele sorriu, um sorriso lento, preguiçoso, como se soubesse que a resposta era clichê, mas não se importasse. — E você? Está de passagem ou mora aqui?
— Moro. Infelizmente.
— Infelizmente?
Laura deu de ombros, girando o copo entre os dedos.
— Às vezes parece que a cidade me engoliu e não vai mais me soltar.
Daniel não respondeu de imediato. Em vez disso, levou o copo aos lábios e tomou um gole, os olhos nunca deixando os dela. O silêncio entre eles não era desconfortável, mas carregado, como se cada um estivesse esperando que o outro desse o próximo passo.
— Você sempre pede uísque quando quer esquecer? — perguntou ele, finalmente.
— Não. Às vezes peço vinho. Mas hoje preciso de algo mais forte.
— E funciona?
— O quê?
— Esquecer.
Laura hesitou. O álcool já começava a soltar seus pensamentos, fazendo-os flutuar como folhas em um rio. Ela olhou para o copo, depois para ele, e por um momento, considerou mentir. Mas havia algo nos olhos de Daniel, uma sinceridade crua, que a fez dizer a verdade.
— Não. Nunca funciona.
Ele assentiu, como se aquela resposta fosse exatamente o que esperava. Então, sem aviso, estendeu a mão sobre o balcão, os dedos roçando o dorso da mão dela. Um toque leve, quase casual, mas que fez o corpo de Laura reagir antes que sua mente pudesse protestar. A pele dele era quente, áspera em alguns lugares, como se tivesse passado a vida tocando cordas de violão.
— Talvez você esteja tentando esquecer as coisas erradas — murmurou ele.
Laura não se afastou. Em vez disso, virou a mão, deixando os dedos dele deslizarem entre os seus, um contato breve, mas íntimo. O barman limpava copos no outro extremo do balcão, alheio à tensão que se instalara entre eles. A chuva continuava a cair lá fora, um som constante, hipnótico, como se o mundo inteiro estivesse se dissolvendo em água.
— E o que você sugere que eu tente esquecer? — perguntou ela, a voz mais baixa do que pretendia.
Daniel sorriu, um sorriso que não era mais preguiçoso, mas afiado, cheio de promessas.
— Nada — disse ele. — Talvez você deva tentar se lembrar de algo, pela primeira vez em muito tempo.
Laura sentiu o coração acelerar, uma batida irregular que ecoava nos ouvidos. O uísque queimava em seu estômago, mas o calor que se espalhava por seu corpo não vinha da bebida. Vinha dele. Daquela proximidade inesperada, daquele jogo de olhares e toques que pareciam inocentes, mas não eram.
— E você? — perguntou ela, tentando recuperar o controle. — O que você está tentando esquecer?
Daniel não respondeu de imediato. Em vez disso, pegou a garrafa de uísque e serviu mais uma dose em seu copo, depois no dela, mesmo que ela ainda não tivesse terminado a primeira.
— Nada que valha a pena — disse ele, finalmente. — Mas talvez eu também precise me lembrar de algo.
Laura ergueu o copo, os dedos ainda levemente trêmulos, e tocou o dele em um brinde silencioso. O tilintar do vidro foi abafado pelo som da chuva, mas o gesto era claro. Um acordo. Uma rendição.
— Então vamos nos lembrar juntos — disse ela.
E quando os lábios dele se curvaram em um sorriso lento, Laura soube que aquela noite não seria sobre esquecer. Seria sobre sentir. Sobre queimar.
O primeiro gole desceu como fogo líquido, queimando a garganta de Laura em um rastro lento e delicioso. O uísque não era dos mais refinados—aquele bar modesto não tinha pretensões de sofisticação—, mas cumpria seu papel: aquecia por dentro, afrouxava os nós invisíveis que a chuva e o cansaço haviam tecido em seus ombros. Ela fechou os olhos por um instante, deixando o calor se espalhar pelo peito, pelos braços, até as pontas dos dedos, ainda geladas apesar do ambiente abafado do bar.
Quando os abriu, Daniel estava ali, observando-a com aquele mesmo sorriso que parecia guardar segredos. Ele havia trocado o pano de secar copos por uma garrafa meio vazia de uísque, segurando-a entre os dedos como se fosse um convite.
— Não é todo dia que uma mulher pede uísque puro num lugar como este — disse ele, inclinando a cabeça. A voz era baixa, áspera, como se tivesse passado a noite anterior gritando em um palco ou sussurrando promessas ao ouvido de alguém. — Geralmente é cerveja ou aquela coisa doce que as pessoas pedem para fingir que estão bebendo algo elegante.
Laura ergueu uma sobrancelha, girando o copo entre os dedos.
— E você? O que um músico de passagem pede num bar vazio numa noite de chuva?
— O mesmo que você — respondeu ele, sem hesitar. — Algo que queime.
O jeito como disse aquilo—com os olhos fixos nos dela, a boca ligeiramente entreaberta—fez Laura sentir um arrepio que não tinha nada a ver com o frio. Ela tomou outro gole, mais longo desta vez, e quando pousou o copo no balcão, os dedos de Daniel roçaram nos seus. Um toque rápido, quase acidental, mas suficiente para que ela sentisse a aspereza da pele dele, o calor da palma, a pressão leve como uma pergunta.
— Você está sozinho aqui? — perguntou ela, tentando soar casual, embora soubesse que não era.
Daniel riu, um som grave e rouco que vibrou no peito dele.
— Depende do que você considera "sozinho". O dono do bar foi embora há uma hora, e o último cliente saiu xingando a chuva. — Ele inclinou o corpo para frente, apoiando os cotovelos no balcão, e Laura pôde sentir o cheiro dele: sabonete barato misturado a algo mais primitivo, como couro e suor limpo. — Mas se você está perguntando se tem mais alguém aqui além de nós dois, a resposta é não.
Ela deveria ter se sentido desconfortável. Deveria ter pensado em como era imprudente ficar ali, com um estranho, em um bar vazio, enquanto a cidade lá fora se afogava em água e escuridão. Mas a verdade era que Laura não se lembrava da última vez em que se sentira tão viva. Cada respiração parecia mais profunda, cada som mais nítido: o tamborilar da chuva no toldo de metal, o rangido da madeira do balcão sob o peso dos cotovelos dele, o próprio coração batendo forte o suficiente para que ela jurasse que ele podia ouvir.
— Você sempre fica até tarde em bares vazios? — perguntou ela, desviando o olhar para o copo.
— Só quando a companhia vale a pena.
Laura riu, mas o som saiu mais como um suspiro. Ela girou o copo entre os dedos novamente, observando o líquido âmbar refletir a luz amarelada do abajur pendurado no teto.
— E o que faz você decidir se a companhia vale a pena?
Daniel não respondeu de imediato. Em vez disso, pegou a garrafa e serviu mais uísque nos dois copos, enchendo o dela até quase transbordar. Quando terminou, seus dedos roçaram nos dela outra vez, desta vez de propósito. Laura não recuou.
— Gosto de mulheres que sabem o que querem — disse ele, finalmente, a voz baixa. — E que não têm medo de pedir.
Ela ergueu o copo, segurando o olhar dele.
— E se eu quiser mais do que um uísque?
O sorriso de Daniel se alargou, lento e perigoso.
— Então você veio ao lugar certo.
Ele empurrou a garrafa na direção dela, mas não a soltou. Os dedos de ambos se enroscaram ao redor do vidro frio, e por um momento, nenhum dos dois se moveu. Laura podia sentir o calor da mão dele atravessando a garrafa, como se o uísque dentro já estivesse pegando fogo. Quando finalmente soltou, foi apenas para levar o copo aos lábios, mas Daniel não bebeu. Em vez disso, observou-a com uma intensidade que fez sua pele formigar.
— Você está tremendo — disse ele, depois de um tempo.
— Não estou com frio.
— Eu sei.
Ele estendeu a mão, devagar, como se pedisse permissão. Laura não se moveu quando os dedos dele roçaram seu pulso, deslizando pela pele sensível até o cotovelo, depois subindo pelo braço, deixando um rastro de fogo em seu caminho. Quando chegou ao ombro, parou, o polegar traçando círculos lentos na curva do pescoço dela.
— Você é advogada, certo? — perguntou ele, como se não estivesse tocando-a daquele jeito, como se não estivesse fazendo seu corpo inteiro se inclinar na direção dele sem que ela pudesse evitar.
Laura assentiu, a voz saindo mais rouca do que pretendia.
— Como você sabe?
— A pasta no banco ao lado. — Ele inclinou a cabeça na direção do assento vazio onde ela havia deixado suas coisas. — E a maneira como você segura o copo. Como se estivesse prestes a fazer um acordo.
Ela riu, mas o som foi abafado quando Daniel se aproximou ainda mais, o joelho dele roçando o dela por baixo do balcão. Laura podia sentir o calor do corpo dele, mesmo através das roupas, e por um segundo, imaginou como seria se não houvesse nada entre eles—nenhuma mesa, nenhum tecido, nenhuma distância.
— E você? — perguntou ela, tentando manter a voz firme. — O que um músico faz quando não está tocando em bares vazios?
— Esquece — respondeu ele, simples assim. — Ou tenta.
Os dedos dele ainda estavam em seu pescoço, o polegar agora acariciando a linha da mandíbula. Laura fechou os olhos por um instante, deixando-se afundar na sensação. Quando os abriu, Daniel estava perto o suficiente para que ela pudesse ver as pequenas manchas douradas em seus olhos castanhos, o contorno da barba por fazer, a maneira como os lábios se entreabriam como se estivessem à espera de algo.
— O que você está tentando esquecer? — perguntou ela, sussurrando.
Daniel não respondeu. Em vez disso, inclinou-se ainda mais, até que sua boca estivesse a centímetros da dela. Laura podia sentir o hálito quente dele, o cheiro do uísque misturado ao seu próprio perfume, e por um segundo, pensou que ele fosse beijá-la ali mesmo, na frente do balcão, com a chuva batendo na porta como um espectador silencioso.
Mas ele não beijou. Em vez disso, sorriu—aquele mesmo sorriso provocante—e recuou apenas o suficiente para que ela sentisse a ausência do calor dele como um vazio súbito.
— Talvez você devesse me ajudar a descobrir — disse ele, a voz baixa. — Afinal, compartilhar uma garrafa é um começo.
Laura não respondeu. Em vez disso, pegou o copo e tomou um longo gole, deixando o uísque queimar sua garganta enquanto os olhos de Daniel a observavam, escuros e famintos. Quando baixou o copo, seus lábios estavam úmidos, e ela sabia—sem precisar olhar—que ele estava olhando para eles.
— E o que vem depois do começo? — perguntou ela, desafiadora.
Daniel riu, um som que vibrou em seu peito e fez Laura sentir um arrepio descer pela espinha.
— Ah, Laura — disse ele, pegando o violão encostado atrás do balcão com um movimento fluido. — Isso depende de você.
O violão apareceu como se sempre tivesse estado ali, escondido entre garrafas meio vazias e caixas de guardanapos amassados. Daniel o puxou com um gesto quase casual, como se não estivesse ciente do peso que aquele objeto carregava—ou do modo como Laura prendeu a respiração quando as cordas refletiram a luz amarelada do bar. Ele o apoiou no colo, os dedos longos roçando as casas do braço do instrumento, e por um instante, o mundo pareceu conter apenas o som abafado da chuva e o ranger suave da madeira sob sua pele.
— Você não acredita em mim — disse ele, os lábios se curvando em um sorriso que não era de provocação, mas de algo mais perigoso: cumplicidade.
Laura cruzou os braços sobre o balcão, inclinando-se para frente até que o decote de sua blusa se abrisse um pouco mais, revelando a curva dos seios pressionados contra o tecido fino. Não era um gesto calculado, mas o uísque já tinha dissolvido as bordas do seu autocontrole, e ela sentia cada movimento como se fosse feito de mel—lento, doce, inevitável.
— Eu acredito que você *sabe* tocar — respondeu, a voz arrastada pelo álcool e pelo cansaço que, de repente, não parecia mais tão pesado. — Mas saber e *provar* são coisas diferentes.
Daniel riu, um som baixo e rouco que vibrou no peito dele e fez Laura imaginar como seria sentir aquilo contra sua boca. Ele não respondeu de imediato. Em vez disso, ajustou a posição do violão, os dedos dançando sobre as cordas em um acorde solto, preguiçoso, como se estivesse testando a afinação—ou testando *ela*. O som reverberou pelo bar vazio, ecoando nas paredes de madeira escura, e Laura sentiu o arrepio subir pela nuca, como se cada nota fosse um dedo percorrendo sua espinha.
— Tudo bem — disse ele, finalmente, erguendo os olhos para encontrar os dela. — O que você quer ouvir?
Laura mordeu o lábio inferior, sentindo o gosto do uísque que ainda persistia ali. Ela não era de desafios, não assim, não com estranhos em bares quase desertos enquanto a chuva transformava a cidade em um borrão de luzes e sombras. Mas havia algo em Daniel—na maneira como ele a olhava, como se já soubesse exatamente o que ela queria antes mesmo que ela mesma soubesse—que a fazia querer se render. Se perder.
— Algo que me faça esquecer que estou encharcada — disse, e a frase saiu mais ousada do que pretendia.
Os olhos dele escureceram, as pupilas dilatadas absorvendo a pouca luz do ambiente. Por um segundo, Laura pensou que ele fosse recusar, que fosse rir e dizer que música não secava roupas. Mas então, os dedos dele começaram a se mover.
A primeira nota foi suave, quase hesitante, como se ele estivesse tateando o caminho. Mas logo as outras vieram, fluindo juntas em uma melodia que Laura não reconheceu—algo lento, sinuoso, com um ritmo que parecia feito para corpos se movendo em sincronia. Era jazz, talvez, ou bossa nova, ou nenhuma das duas coisas; era apenas *ele*, a maneira como seus dedos pressionavam as cordas com precisão cirúrgica, como seu polegar dedilhava o baixo com uma cadência que fazia o estômago de Laura se contrair.
Ela fechou os olhos por um instante, deixando o som envolvê-la. A chuva ainda batia contra as janelas, mas agora parecia distante, como se o mundo lá fora tivesse deixado de existir. Só havia o violão, a voz grave de Daniel quando ele começou a cantarolar baixinho, e o calor que se espalhava por seu corpo a cada nota.
— *Você é fogo na chuva* — murmurou ele, as palavras se misturando à melodia, e Laura abriu os olhos, surpresa.
— O quê?
Ele sorriu, mas não parou de tocar.
— É o que você me faz sentir. Como se eu estivesse pegando fogo no meio de uma tempestade.
Laura sentiu o rosto queimar. Não era uma declaração, não exatamente, mas havia algo de íntimo naquelas palavras, algo que a fez se inclinar ainda mais para frente, como se pudesse absorver o som através da pele. O violão vibrava entre eles, uma ponte invisível, e ela percebeu que estava prendendo a respiração.
— Isso é um elogio ou uma reclamação? — perguntou, tentando manter a voz leve, mas falhando.
Daniel parou de tocar por um segundo, os dedos pairando sobre as cordas. Seus olhos percorreram o rosto dela, demorando-se na boca, no pescoço, na linha da clavícula exposta pelo decote. Laura sentiu cada olhar como um toque, como se ele estivesse traçando aqueles caminhos com os dedos em vez de com os olhos.
— Um aviso — disse ele, finalmente, voltando a tocar. — Porque fogo na chuva queima rápido. E não deixa nada para trás.
Laura engoliu em seco. O uísque queimava em sua garganta, mas não era nada comparado ao calor que se acumulava entre suas pernas. Ela queria responder, queria dizer que não se importava com o depois, que só queria *agora*—mas as palavras morreram na ponta da língua quando ele começou a cantar.
Era uma música em português, mas não uma que ela conhecesse. As palavras eram simples, quase bobas—*você é o sol, eu sou a sombra; você é o mar, eu sou o barco*—mas a maneira como ele as pronunciava, arrastando as vogais, deixando a voz rouca se arrastar sobre cada sílaba, transformava tudo em algo erótico. Laura sentiu o corpo reagir, os mamilos endurecendo sob o tecido da blusa, a umidade se acumulando entre as coxas.
Ela não percebeu que estava se mexendo até que seu joelho roçou no dele. Foi um toque acidental, mas nenhum dos dois se afastou. Daniel continuou cantando, mas seus olhos se fixaram nos dela, e Laura viu o momento exato em que a música deixou de ser apenas música e se tornou outra coisa—um convite, um desafio, uma promessa.
— Você está me olhando como se quisesse me devorar — disse ele, parando de cantar, mas mantendo os dedos no violão, dedilhando um acorde solto que vibrou no ar como um suspiro.
Laura não negou. Não havia por que mentir.
— E se eu quiser?
Ele riu, um som baixo e perigoso, e inclinou-se para frente, aproximando o rosto do dela até que ela pudesse sentir o cheiro de uísque e madeira em seu hálito.
— Então prove.
O violão ainda estava entre eles, mas Laura não se importou. Ela se levantou do banco, contornou o balcão com passos lentos, deliberados, e parou na frente dele. Daniel não se moveu. Apenas a observou, os olhos escuros seguindo cada movimento, cada respiração.
Ela estendeu a mão e tocou o violão. Não as cordas—não ainda. Primeiro, passou os dedos pela madeira polida do braço, sentindo o calor residual do corpo dele. Depois, deslizou a mão para o tampo, onde as cordas vibravam levemente, ainda ecoando o último acorde.
— Você toca como se estivesse fazendo amor com o instrumento — murmurou ela, a voz rouca.
Daniel não respondeu. Em vez disso, pegou a mão dela e a guiou até as cordas, pressionando seus dedos contra elas. O som que saiu foi dissonante, imperfeito, mas Laura sentiu o corpo inteiro reagir quando os dedos dele se fecharam sobre os seus, mostrando como pressionar, como puxar.
— Agora você — disse ele, a voz um sussurro.
Laura hesitou por um segundo. Ela não sabia tocar. Mas então, olhou para ele—para a maneira como seus lábios estavam entreabertos, para o modo como seu peito subia e descia em uma respiração acelerada—andou que não precisava saber. Não agora.
Ela pressionou as cordas com força, arrancando um som áspero, e Daniel gemeu baixinho, como se aquele som tivesse sido arrancado dele, não do violão. Seus dedos apertaram os dela, guiando-os em um ritmo que não era música, mas algo mais primitivo, mais urgente.
— Assim — murmurou ele, e Laura sentiu o hálito quente contra sua orelha. — Assim mesmo.
Ela não sabia quanto tempo ficou ali, os dedos entrelaçados aos dele, o violão vibrando entre seus corpos como uma extensão do desejo que crescia entre eles. A chuva continuava caindo, mas Laura não ouvia mais. Só havia o som das cordas, o calor do corpo de Daniel, a maneira como seus olhares se prendiam um no outro como se estivessem se afogando.
E então, sem aviso, ele soltou sua mão e puxou o violão para longe, apoiando-o no balcão com um movimento brusco. Laura respirou fundo, sentindo o vazio onde antes estava o instrumento, onde antes estavam os dedos dele.
— Chega de música — disse ele, a voz áspera.
Ela não respondeu. Apenas se aproximou mais, até que seus corpos estivessem quase se tocando, até que pudesse sentir o calor irradiando dele em ondas.
— O que você quer, então? — perguntou, sabendo muito bem a resposta.
Daniel não disse nada. Em vez disso, segurou seu rosto entre as mãos e a puxou para um beijo que não foi suave, não foi hesitante. Foi faminto, desesperado, como se ele tivesse esperado por aquilo a noite inteira.
E Laura percebeu, com um arrepio de antecipação, que *ela também*.
A respiração de Laura queimava entre os lábios entreabertos, o ar úmido do bar carregado com o cheiro de madeira envelhecida e uísque caro. Ela sentia o peso do olhar de Daniel sobre si, como se cada centímetro de sua pele estivesse sendo mapeado por aqueles olhos escuros, famintos. A melodia do violão ainda vibrava em algum lugar dentro dela, uma ressonância que se misturava ao latejar surdo entre suas coxas. Ele tinha parado de tocar, mas a música continuava—agora era o ritmo acelerado de seus batimentos, o som áspero de sua respiração, o farfalhar do tecido da blusa contra a pele arrepiada.
— Você toca como se soubesse exatamente o que está fazendo — ela murmurou, a voz baixa, quase perdida no barulho distante da chuva contra as janelas. Não era um elogio vazio. Havia algo de íntimo na forma como os dedos dele deslizavam pelas cordas, como se cada nota fosse uma carícia roubada.
Daniel inclinou a cabeça, um sorriso lento se espalhando pelo rosto. — E você gosta de fingir que não percebe.
Ela riu, um som curto e ofegante, e se aproximou mais, até que o joelho dela roçasse na perna dele por baixo do balcão. O contato foi elétrico, uma faísca que percorreu sua espinha e se instalou na base do ventre. — Talvez eu só goste de provocar.
— Então somos dois.
O espaço entre eles diminuiu ainda mais, até que Laura pudesse sentir o calor do corpo dele atravessando a fina camada de tecido de sua blusa. O cheiro de Daniel era uma mistura de sabonete cítrico e algo mais primitivo, algo que fazia sua boca secar. Ela se inclinou para frente, como se fosse sussurrar algo no ouvido dele—uma provocação, uma piada, qualquer coisa que justificasse aquela proximidade perigosa. Mas no momento em que seus lábios roçaram a orelha dele, Daniel virou o rosto.
Foi um movimento quase imperceptível, um reflexo. Mas bastou.
Seus lábios se encontraram no meio do caminho, um choque de calor e umidade. Não foi suave. Não foi hesitante. Foi como se duas forças finalmente colidissem depois de horas de tensão, de olhares furtivos, de toques acidentais que não eram tão acidentais assim. Laura sentiu o gosto de uísque na língua dele, misturado com algo mais doce, mais perigoso. Ela gemeu contra a boca de Daniel, um som baixo e rouco que pareceu acender algo dentro dele.
As mãos dele subiram imediatamente, enroscando-se nos cabelos dela com uma urgência que a fez arquear as costas. Os dedos longos e ágeis—aqueles mesmos dedos que haviam dedilhado o violão com tanta precisão—agora puxavam os fios soltos de seu coque, desfazendo-o com um movimento brusco. Laura não se importou. Na verdade, adorou a sensação de estar sendo desmontada, peça por peça, por aquele homem que ela mal conhecia e, no entanto, parecia entender cada centímetro dela.
— Porra — ele murmurou contra a boca dela, a voz rouca, quase um rosnado. — Eu estava tentando me comportar.
— Não se comporte — ela respondeu, as palavras saindo entre beijos, enquanto suas próprias mãos deslizavam pelos ombros largos dele, sentindo a tensão nos músculos sob a camisa. — Não agora.
Daniel não precisou de mais incentivo. Ele a puxou para mais perto, até que ela estivesse praticamente em seu colo, as pernas abertas ao redor do banco do bar. O calor do corpo dele era uma chama contra o frio que ainda se agarrava à pele dela, um contraste delicioso que a fazia tremer. Laura sentiu as mãos dele descerem pelas costas, puxando-a contra si com uma força que a deixou sem ar. Seus quadris se encaixaram perfeitamente, como se tivessem sido feitos para aquilo, e o atrito—mesmo através das roupas—foi suficiente para arrancar outro gemido dela.
— Você é tão linda — ele sussurrou, os lábios agora percorrendo o maxilar dela, descendo pelo pescoço, deixando um rastro de fogo por onde passavam. — Eu fiquei olhando para você desde que entrou aqui, imaginando como seria te beijar.
Laura inclinou a cabeça para trás, dando-lhe mais acesso, enquanto suas unhas cravavam nos ombros dele. — E? — ela provocou, a voz trêmula. — Valeu a pena esperar?
Daniel riu, um som escuro e satisfeito, antes de capturar os lábios dela novamente. Desta vez, o beijo foi mais lento, mais profundo, como se ele estivesse tentando memorizar o gosto dela. Laura correspondeu com a mesma intensidade, sua língua encontrando a dele em um ritmo que imitava algo muito mais íntimo. Ela sentia o corpo dele duro contra o seu, a evidência de seu desejo pressionando contra sua coxa, e a sensação a deixou tonta.
— Mais do que você imagina — ele respondeu, finalmente, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dela. Havia algo selvagem no olhar de Daniel, algo que a fez prender a respiração. — Mas eu quero mais.
Laura não hesitou. Ela segurou o rosto dele entre as mãos e o puxou de volta para si, beijando-o com uma fome que surpreendeu até a ela mesma. Não havia mais espaço para dúvidas, para hesitações. O bar, a chuva, o mundo lá fora—tudo havia desaparecido. Só existiam eles dois, o calor, o desejo, a necessidade crua que pulsava entre eles como uma corrente elétrica.
As mãos de Daniel deslizaram para baixo, agarrando a cintura dela com força, como se ele temesse que ela pudesse escapar. Laura não tinha a menor intenção de ir a lugar nenhum. Ela se apertou contra ele, sentindo cada músculo, cada curva do corpo dele, e gemeu quando os dentes dele roçaram seu lábio inferior.
— Daniel — ela murmurou, o nome dele soando como uma prece.
Ele respondeu com um beijo ainda mais profundo, as mãos agora explorando as costas dela, descendo até a curva de seu quadril. Laura sentiu o mundo girar quando ele a puxou para mais perto, até que não houvesse mais espaço entre eles, até que cada respiração fosse compartilhada.
E então, de repente, ele a levantou.
Foi um movimento rápido, quase brusco, e Laura instintivamente envolveu as pernas ao redor da cintura dele, os braços se enroscando em seu pescoço. Daniel a carregou sem esforço, os lábios nunca deixando os dela, enquanto se movia pelo bar com uma determinação que a deixou sem fôlego.
Ela não fazia ideia para onde estavam indo—e, naquele momento, não se importava.
O que quer que viesse a seguir, seria intenso.
O sofá velho rangeu sob o peso dos dois quando Daniel a depositou ali, as molas enferrujadas protestando com um gemido que se perdeu entre os suspiros de Laura. Ela ainda sentia o calor das mãos dele em sua cintura, a firmeza com que a segurara enquanto a carregava, como se ela fosse algo precioso demais para ser solto. Agora, deitada entre almofadas gastas pelo tempo e pelo uso, ela olhava para ele com os lábios entreabertos, o peito subindo e descendo em um ritmo acelerado.
Daniel não desviou os olhos. A luz amarelada da única lâmpada dos fundos do bar banhava seu rosto em sombras douradas, destacando a linha do maxilar, a curva dos lábios ainda úmidos do beijo anterior. Ele se ajoelhou na frente dela, as mãos deslizando pelas coxas de Laura, os dedos traçando círculos lentos sobre o tecido da saia, como se memorizasse cada centímetro antes de reivindicá-lo.
— Você tem ideia do que faz comigo? — A voz dele era rouca, quase um rosnado, e Laura sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
Ela mordeu o lábio inferior, os dedos se enroscando no tecido puído do sofá. — Mostre.
Foi um desafio, um convite, uma rendição. Daniel não precisou de mais nada. Com um movimento fluido, ele puxou a blusa dela para cima, os dedos ágeis desabotoando os botões um a um, até que o tecido se abriu, revelando a pele pálida e os contornos suaves do sutiã de renda preta. Laura arqueou as costas quando as mãos dele deslizaram por seu ventre, os polegares roçando a borda do elástico, provocando.
— Linda — ele murmurou, inclinando-se para depositar um beijo logo abaixo do umbigo. — Tão linda que chega a doer.
Laura enredou os dedos nos cabelos dele, puxando-o para mais perto, sentindo o hálito quente contra sua pele. — Não para.
Ele riu baixinho, um som escuro e perigoso, antes de subir com os lábios, deixando uma trilha de beijos úmidos pelo caminho. Quando chegou ao vale entre os seios, Laura gemeu, o corpo inteiro se contraindo em antecipação. Daniel não a fez esperar. Com um movimento preciso, ele desabotoou o sutiã, liberando-a, e seus lábios se fecharam ao redor de um mamilo, sugando com uma pressão que a fez arquear ainda mais, as unhas cravando-se nos ombros dele.
— *Porra* — ela sibilou, a palavra escapando entre os dentes.
Daniel respondeu com um som gutural, as mãos agora explorando as costas dela, puxando-a para mais perto, como se quisesse fundir seus corpos ali mesmo. Laura sentiu o calor se espalhar entre suas pernas, uma necessidade pulsante que a fazia se contorcer contra ele. Ela precisava de mais. Precisava dele.
Com um movimento brusco, ela empurrou Daniel para trás, invertendo as posições até que ele estivesse deitado no sofá, ela por cima. Os olhos dele brilharam com surpresa e desejo, e ela sorriu, lenta e deliberadamente, enquanto se inclinava para beijá-lo. Os lábios se encontraram em um choque de línguas e dentes, o gosto de uísque ainda presente, misturado ao sabor único dele.
— Minha vez — ela sussurrou contra a boca dele, antes de descer com os lábios pelo pescoço, mordiscando a pele sensível, sentindo o pulso acelerado sob sua língua.
Daniel gemeu, as mãos se fechando em punhos ao lado do corpo, como se lutasse para não a tocar. Laura não permitiu. Ela desceu ainda mais, os dedos ágeis desabotoando a camisa dele, revelando o peito esculpido, marcado por algumas cicatrizes finas que ela não resistiu em traçar com a ponta dos dedos. Quando chegou ao cós da calça, ela parou, olhando para ele com um sorriso provocante.
— Impaciente? — ela perguntou, os dedos brincando com o botão.
— Você está brincando com fogo — ele respondeu, a voz tensa.
— Eu gosto de queimar.
Com um movimento rápido, ela abriu a calça dele, puxando-a para baixo junto com a cueca, liberando-o. Daniel estava duro, a pele quente e sedosa sob seus dedos, e Laura não resistiu em envolver a mão ao redor dele, sentindo-o pulsar em sua palma. Daniel soltou um gemido rouco, os quadris se erguendo instintivamente.
— Laura… — ele rosnou, o nome dela soando como uma advertência.
Ela não se importou. Inclinou-se, os lábios pairando sobre a ponta, a respiração quente provocando-o. — O que você quer?
— Você — ele grunhiu, as mãos se enroscando nos cabelos dela, puxando-a para mais perto. — Só você.
Laura sorriu antes de tomá-lo na boca, lenta e deliberadamente, sentindo-o encher sua língua, o gosto salgado e masculino invadindo seus sentidos. Daniel gemeu alto, os dedos apertando seus cabelos com força, guiando-a em um ritmo que fazia seus próprios quadris se contorcerem de necessidade. Ela o levou até o fundo da garganta, sentindo-o tremer sob ela, antes de recuar, os lábios brilhando.
— Porra, Laura — ele arfou, os olhos escuros de desejo. — Você vai me matar.
Ela riu baixinho, subindo de volta para beijá-lo, deixando-o sentir o próprio gosto em sua boca. — Ainda não.
Com um movimento rápido, ela se livrou da saia e da calcinha, jogando-as no chão junto com as roupas dele. Daniel a puxou para si, as mãos explorando cada curva, cada centímetro de pele nua, como se quisesse memorizar seu corpo com o toque. Quando os dedos dele deslizaram entre suas pernas, Laura gemeu, arqueando-se contra a mão dele, sentindo-o provocá-la, circular o ponto mais sensível antes de mergulhar dois dedos dentro dela.
— Tão molhada — ele murmurou, os lábios roçando o lóbulo da orelha dela. — Tão pronta.
Laura mordeu o lábio, os quadris se movendo em um ritmo instintivo, buscando mais. — Daniel, por favor…
Ele não a fez esperar. Com um movimento rápido, ele a posicionou sobre si, guiando-a para baixo até que ela o sentisse preenchê-la por completo. Laura gemeu alto, as unhas cravando-se nos ombros dele, o corpo inteiro se contraindo ao redor dele. Daniel a segurou pela cintura, os dedos marcando sua pele enquanto a guiava em um ritmo lento e torturante, cada movimento profundo e deliberado.
— Olha pra mim — ele ordenou, a voz rouca.
Laura abriu os olhos, encontrando o olhar dele, escuro e intenso, cheio de uma necessidade que ecoava a sua. Ela se moveu sobre ele, os quadris rolando em círculos, sentindo-o atingir cada ponto certo dentro dela. Daniel gemeu, os dedos apertando sua cintura com mais força, puxando-a para baixo a cada impulso.
— Isso — ele grunhiu. — Assim.
Laura acelerou o ritmo, o prazer se acumulando em ondas cada vez mais intensas, cada movimento levando-a mais perto do limite. Daniel sentou-se, envolvendo-a com os braços, os lábios encontrando os dela em um beijo faminto enquanto a penetrava com mais força, mais fundo. Ela gemeu contra a boca dele, o corpo inteiro tremendo, à beira do abismo.
— Vem comigo — ele sussurrou, os dentes roçando o pescoço dela.
E Laura se deixou levar. Com um grito abafado, ela se desfez ao redor dele, o orgasmo a atravessando em ondas violentas, o corpo inteiro se contraindo em espasmos de prazer. Daniel a segurou com força, os quadris se movendo em um ritmo frenético até que ele também encontrou sua liberação, um gemido rouco escapando de seus lábios enquanto se derramava dentro dela.
Por um momento, não houve nada além do som de suas respirações ofegantes, o corpo de Laura ainda tremendo levemente sobre o dele. Daniel a puxou para mais perto, os braços envolvendo-a em um abraço apertado, os lábios depositando beijos suaves em seu ombro.
— Isso foi… — Laura começou, mas as palavras falharam.
— Eu sei — ele murmurou, os dedos traçando círculos preguiçosos em suas costas.
Ela fechou os olhos, sentindo o peso do corpo dele, o calor da pele, o cheiro de sexo e suor misturado ao aroma amadeirado do bar. Por um instante, tudo pareceu perfeito. Mas então, o som distante de uma porta se abrindo ecoou pelo corredor, seguido por passos abafados.
Daniel ergueu a cabeça, os olhos se estreitando. — Merda.
Laura se encolheu, os dedos apertando os lençóis imaginários—ou melhor, o tecido gasto do sofá. — Alguém está vindo?
Ele assentiu, a expressão tensa. — O dono do bar. Ele costuma fechar mais cedo.
Ela mordeu o lábio, o coração ainda acelerado, mas agora por um motivo diferente. — E agora?
Daniel a olhou, um sorriso lento se espalhando pelos lábios. — Agora a gente se veste. E depois… — ele inclinou-se, os lábios roçando o ouvido dela — a gente decide se essa noite acaba aqui.
Laura sentiu um arrepio percorrer seu corpo, apesar do calor que ainda os envolvia. Ela sabia que não queria que acabasse. Ainda não.
A luz cinzenta da manhã invadia o bar pelas frestas das persianas, pintando listras pálidas sobre os corpos entrelaçados. Laura acordou devagar, como se emergisse de um sonho líquido, os músculos ainda pesados de prazer, a pele sensível ao toque do ar fresco. O cheiro de madeira envelhecida misturava-se ao suor seco e ao perfume residual de sexo, um aroma que parecia grudar-se às paredes, aos lençóis embolados no chão, aos próprios poros dela. Ao seu lado, Daniel respirava fundo, o peito subindo e descendo em um ritmo lento, quase preguiçoso. Um dos braços dele estava preso sob o corpo dela, o outro jogado sobre a cintura dela em um gesto possessivo, mesmo no sono.
Ela virou o rosto para observá-lo. Os cílios escuros faziam sombra nas maçãs do rosto, e a barba por fazer delineava o maxilar em uma linha áspera. Os lábios, ainda levemente inchados dos beijos da noite anterior, estavam entreabertos, como se ele estivesse prestes a dizer algo. Laura sorriu, um sorriso que nasceu do cansaço satisfeito e da estranha intimidade de acordar ao lado de um desconhecido que, de alguma forma, já conhecia cada curva do seu corpo. Com cuidado, ela deslizou os dedos pelo antebraço dele, traçando as veias salientes, as cicatrizes finas que contavam histórias de cordas de violão e noites mal dormidas.
Daniel se mexeu, os olhos piscando até se fixarem nela. Por um segundo, houve uma confusão—um lampejo de surpresa, como se ele também não esperasse encontrá-la ali. Então, o reconhecimento se instalou, seguido por um sorriso lento, preguiçoso, que fez o estômago dela se contrair.
— Bom dia — murmurou ele, a voz rouca de sono e de tudo o que haviam feito.
— Bom dia — ela respondeu, sentindo a garganta seca. — A chuva parou.
Ele ergueu a cabeça o suficiente para espiar pela janela. O céu ainda estava carregado, mas as nuvens haviam se afastado, deixando um cinza opaco, quase prateado, como se o mundo inteiro tivesse sido lavado e agora secasse devagar. Daniel voltou a olhar para ela, os dedos brincando com uma mecha do cabelo dela, enrolando-a e desenrolando-a.
— Você costuma acordar assim, toda arrumadinha, depois de uma noite como a de ontem? — perguntou, a voz carregada de ironia.
Laura riu, um som baixo e rouco. — Arrumadinha? — Ela olhou para si mesma: a blusa amassada, as calças ainda parcialmente desabotoadas, os seios marcados por chupões que ela sabia que ficariam visíveis sob a roupa de trabalho. — Acho que não.
— Pois é. — Ele se aproximou, os lábios roçando o ombro dela. — Você está um desastre. E eu gosto disso.
Ela fechou os olhos quando os dentes dele morderam de leve a pele, um arrepio percorrendo-a. Mas então, o som de uma porta batendo em algum lugar do bar a fez estremecer. A realidade voltou com tudo: o sofá gasto, as garrafas vazias esquecidas no balcão, a luz da manhã que não perdoava.
— Merda — Daniel resmungou, afastando-se um pouco. — O dono deve estar chegando.
Laura se sentou, puxando os lençóis para cobrir o corpo, embora soubesse que era inútil. O tecido estava frio contra a pele quente, e ela sentiu um calafrio. Daniel se levantou com um movimento fluido, pegando a camisa do chão e vestindo-a sem pressa, os músculos das costas se contraindo sob a pele. Ela o observou, a maneira como os dedos dele abotoavam a camisa com uma precisão quase ritualística, como se cada movimento fosse uma forma de se recompor.
— Você tem que ir? — perguntou ele, virando-se para ela.
Laura hesitou. Parte dela queria dizer que sim, que tinha uma pilha de processos esperando no escritório, reuniões, prazos. Mas a outra parte, a que ainda sentia o gosto dele na boca, a que ainda vibrava com o eco dos gemidos da noite anterior, não queria ir a lugar nenhum.
— Não imediatamente — admitiu.
Daniel sorriu, um sorriso que era ao mesmo tempo alívio e desafio. — Ótimo. Porque eu estava pensando em fazer café.
Ele estendeu a mão para ela, e Laura a segurou, deixando-se ser puxada para fora do sofá. O chão estava frio sob seus pés descalços, e ela estremeceu, mas não se importou. Daniel a guiou até a pequena cozinha nos fundos do bar, um espaço apertado com uma cafeteira antiga, uma pia cheia de copos sujos e um fogão que parecia ter sobrevivido a várias décadas de uso. Ele ligou a cafeteira, o som do líquido escuro pingando na jarra quebrando o silêncio confortável entre eles.
— Você sempre faz café para as mulheres que traz aqui? — Laura perguntou, encostando-se na bancada.
Daniel riu, virando-se para encará-la. — Só para as que valem a pena.
Ela arqueou uma sobrancelha. — E eu valho?
Ele não respondeu de imediato. Em vez disso, deu um passo à frente, prendendo-a entre os braços, as mãos apoiadas na bancada de cada lado do corpo dela. Laura sentiu o cheiro do café misturado ao perfume dele, uma combinação estranhamente íntima.
— Você vale mais do que café — murmurou ele, os lábios quase tocando os dela. — Mas como eu não tenho champanhe aqui, café vai ter que servir.
Ela riu, mas o som morreu na garganta quando ele a beijou. Desta vez, não havia urgência, não havia a pressa da noite anterior. Era um beijo lento, exploratório, como se ele estivesse memorizando o formato da boca dela, o jeito como ela respondia. Laura se deixou levar, as mãos subindo para enroscar-se no cabelo dele, puxando-o mais para perto. O café esquecido chiava baixinho, o vapor subindo em espirais preguiçosas.
Quando se afastaram, os dois estavam ofegantes. Daniel encostou a testa na dela, os olhos fechados.
— Eu não quero que isso acabe — confessou ele, a voz baixa.
Laura sentiu um aperto no peito. Ela também não queria. Mas a vida não era feita de noites como aquela, de encontros fortuitos que queimavam como fogo e se apagavam antes do amanhecer. Ou talvez fosse, e eles é que haviam esquecido como viver assim.
— Nem eu — admitiu, finalmente.
Daniel se afastou o suficiente para servir duas xícaras de café. Ele entregou uma a ela, os dedos roçando nos dela por um segundo a mais do que o necessário. Laura levou a xícara aos lábios, sentindo o calor se espalhar pelo corpo. O café estava forte, amargo, exatamente como ela gostava.
— Então — disse ele, encostando-se na bancada ao lado dela —, o que a gente faz agora?
Laura olhou para ele, o coração batendo um pouco mais rápido. — A gente pode começar trocando números.
Daniel sorriu, pegando o celular no bolso. — Isso é um começo.
Eles trocaram os contatos, os dedos digitando com uma lentidão deliberada, como se cada número fosse uma promessa. Quando terminaram, Daniel guardou o celular e olhou para ela, os olhos escuros cheios de algo que Laura não conseguiu decifrar.
— E depois? — perguntou ela.
Ele não respondeu de imediato. Em vez disso, pegou a xícara dela e colocou-a na pia, junto com a sua. Então, segurou o rosto dela entre as mãos, os polegares traçando círculos nas maçãs do rosto.
— Depois — murmurou —, a gente vê.
E então, ele a beijou de novo. Desta vez, não havia sofá velho, nem bar vazio, nem chuva do lado de fora. Havia apenas eles, o gosto do café na língua, o calor dos corpos se encontrando mais uma vez, como se soubessem que aquela era a última vez que teriam a chance de se perder um no outro.
Quando se afastaram, Laura estava sem fôlego. Daniel encostou a testa na dela, os olhos fechados.
— Eu não sei o que isso foi — disse ele, finalmente. — Mas eu não me arrependo.
Laura sorriu, sentindo as lágrimas queimarem nos olhos. — Nem eu.
Eles se vestiram em silêncio, os movimentos lentos, como se estivessem adiando o inevitável. Quando Laura estava pronta para ir, Daniel a acompanhou até a porta dos fundos do bar. O ar lá fora estava fresco, úmido, o cheiro de terra molhada invadindo as narinas. Ela respirou fundo, sentindo o peso da noite que acabava.
— Você vai voltar? — perguntou ele, encostando-se no batente da porta.
Laura olhou para ele, memorizando cada detalhe: os olhos escuros, o sorriso torto, a maneira como o vento bagunçava o cabelo dele. — Eu não sei.
Daniel assentiu, como se esperasse essa resposta. — Tudo bem.
Ela deu um passo à frente, beijando-o uma última vez. Um beijo suave, quase casto, que dizia tudo o que as palavras não conseguiam. Quando se afastou, ele segurou a mão dela por um segundo, os dedos entrelaçados.
— Cuide-se, Laura.
— Você também, Daniel.
E então, ela se virou e começou a caminhar pela calçada molhada, os saltos batendo contra o concreto. Não olhou para trás. Sabia que, se olhasse, não conseguiria ir embora.
Atrás dela, Daniel ficou parado na porta, observando-a até que ela virasse a esquina e desaparecesse. Então, ele entrou no bar, fechando a porta com um clique suave. O silêncio que se seguiu era diferente do da noite anterior. Não havia tensão, não havia expectativa. Apenas a quietude de algo que havia terminado, mas que, de alguma forma, continuaria queimando dentro dele.
Laura, por sua vez, caminhou pelas ruas vazias da manhã, o corpo ainda vibrando com o eco do toque dele. Quando chegou ao carro, parou por um momento, olhando para o céu. As nuvens haviam se dissipado completamente, deixando um azul pálido, quase transparente. Ela sorriu, um sorriso triste e satisfeito, e entrou no carro.
Enquanto dirigia, o rádio tocava uma música antiga, uma daquelas que falavam de encontros fortuitos e despedidas inevitáveis. Laura aumentou o volume, deixando a melodia preencher o silêncio. Sabia que, em algum momento, olharia para trás e se perguntaria se tudo aquilo havia sido real. Mas, por enquanto, bastava saber que, por uma noite, ela havia se permitido queimar.
E que, às vezes, o fogo mais intenso era aquele que durava apenas algumas horas.