Entre Linhas e Lençóis
**Entre Linhas e Lençóis**
O ar-condicionado do vigésimo andar sussurrava como um segredo entre as paredes de vidro, seu zumbido constante abafando o tilintar distante dos teclados e o farfalhar dos papéis. Clara ajustou a gola da blusa de seda—*azul-marinho, discreta, como tudo nela*—e alisou a saia lápis que moldava suas coxas sem chamar atenção. Do outro lado da divisória de mogno, a porta do escritório de Daniel permanecia fechada, como sempre, um portal para um reino onde as regras eram ditadas por ele e apenas por ele.
Havia dois anos que ela cruzava aquele limiar diariamente, carregando pastas, agendas e, às vezes, o peso de olhares que não se atreviam a se demorar. Daniel Varga não era um homem de gestos desnecessários. Cada movimento seu era calculado, cada palavra pesada como chumbo ou afiada como uma lâmina. E ainda assim, Clara conhecia os detalhes que ninguém mais percebia: a maneira como ele esfregava o polegar no canto da boca quando lia algo que o desagradava, o cheiro de couro envelhecido e bergamota que impregnava seus ternos italianos, a forma como seus olhos—*cinza, quase prateados*—se fixavam nela um segundo a mais do que o profissional quando acreditava que ninguém estava olhando.
— Clara, o relatório da reunião com os investidores de Hong Kong. — A voz dele atravessou a porta entreaberta, grave e sem inflexão, como se já soubesse que ela estaria ali, pronta.
Ela se levantou, os saltos afundando silenciosamente no carpete espesso, e empurrou a porta com a ponta dos dedos. O escritório era uma extensão do próprio Daniel: minimalista, impecável, com uma mesa de mogno que brilhava sob a luz fria das lâmpadas de LED. Ele estava de pé junto à janela, as mãos enfiadas nos bolsos da calça de alfaiataria, o paletó pendurado com precisão nas costas da cadeira. A luz da tarde delineava seu perfil—maxilar quadrado, nariz reto, a sombra de uma barba por fazer que ele nunca deixava crescer por completo.
— Já está impresso e encadernado — ela disse, depositando a pasta sobre a mesa. — Também enviei uma cópia digital para o seu tablet, como pediu.
Daniel não se virou imediatamente. Ficou ali, observando a cidade lá embaixo, os prédios refletindo o sol poente como espelhos quebrados. Quando finalmente se voltou, seus olhos encontraram os dela com uma intensidade que fez o ar prender em seus pulmões.
— Obrigado — murmurou, e havia algo naquelas duas sílabas que soou como um convite ou uma advertência.
Clara assentiu, recuando um passo. Era sempre assim: um jogo de avanços e recuos, de palavras medidas e silêncios carregados. Ela conhecia seu lugar—assistente eficiente, sombra discreta, a pessoa que antecipava suas necessidades antes mesmo que ele as formulasse. Mas havia momentos, como aquele, em que a linha entre o profissional e o pessoal se tornava tão tênue que ela podia sentir o calor da pele dele mesmo através do tecido da camisa.
— Mais alguma coisa, senhor Varga?
Ele ergueu uma sobrancelha, lento, como se saboreasse a formalidade do tratamento.
— Daniel — corrigiu, a voz baixa. — Quando estamos a sós, Clara.
Ela engoliu em seco. *A sós.* As palavras pairaram entre eles, pesadas. O escritório parecia menor de repente, as paredes se fechando como um punho. Clara sabia que deveria sair, que deveria manter a distância que sempre mantivera, mas seus pés se recusavam a se mover.
— Daniel — repetiu, testando o peso do nome na língua. Soou íntimo demais, perigoso demais.
Ele sorriu, um lampejo rápido que não alcançou os olhos.
— Melhor. — Então, voltando-se para a mesa, folheou o relatório com dedos longos e precisos. — Pode ir. Tenho uma ligação em cinco minutos.
Clara saiu, fechando a porta atrás de si com um clique suave. No corredor, encostou-se à parede por um instante, os dedos pressionando o esterno, como se pudesse conter o ritmo acelerado do coração. Do outro lado do vidro, a cidade pulsava, indiferente. Mas ali, entre aquelas quatro paredes, algo havia mudado. Algo que ela não sabia nomear—apenas sentir.
E, pela primeira vez em dois anos, Clara permitiu-se imaginar o que aconteceria se, um dia, deixasse de ser apenas a sombra discreta. Se, por acaso, decidisse cruzar a linha.
Clara passou a noite seguinte ao evento corporativo revirando-se entre os lençóis, o corpo ainda vibrando com o eco dos olhares que Daniel lhe lançara durante o coquetel. O salão iluminado por lustres de cristal, o cheiro de champanhe caro e o murmúrio das conversas elegantes haviam se dissolvido em algo mais denso, mais íntimo, quando ele se aproximara para ajustar o colarinho de sua blusa—um gesto casual, quase paternal, se não fosse pela maneira como seus dedos roçaram a pele sensível de sua clavícula. *"Você está linda hoje"*, dissera, a voz baixa, como se fosse um segredo só deles. E então, como sempre, recuara, deixando-a com a respiração presa e o desejo latejando entre as pernas.
Agora, deitada na cama estreita de seu apartamento, Clara pressionava as coxas uma contra a outra, tentando aliviar a pressão que se acumulava ali. O ar-condicionado zumbia baixo, insuficiente para resfriar o calor que subia por seu pescoço. Com um suspiro, ela se levantou e foi até a mesa de trabalho, onde o notebook ainda estava aberto, exibindo a tela de descanso com a logo da empresa—um círculo prateado que refletia a luz azulada do quarto.
Ela deveria ter desligado o aparelho. Deveria ter ido dormir. Mas algo a impelia a abrir o arquivo de rascunhos, aquele que nunca tinha coragem de enviar. O cursor piscava, impaciente, sobre as palavras que ela digitara e apagara uma dúzia de vezes nos últimos meses:
*"Daniel,*
*Hoje, no elevador, você segurou a porta para mim. Seus dedos roçaram os meus quando peguei a pasta, e eu quase deixei cair tudo no chão só para sentir sua mão na minha de novo. Você não faz ideia de como é difícil ficar parada ao seu lado, fingindo que não percebo o jeito como seus olhos escurecem quando você pensa que ninguém está olhando. Eu queria saber o que você vê quando me encara assim. Queria saber se é só curiosidade, ou se, por trás de toda essa frieza, existe um homem que também sente o peso do silêncio entre nós.*
*Às vezes, quando você dita cartas para mim, eu gravo sua voz no celular só para ouvir depois, no escuro. Sua entonação é sempre tão controlada, mas às vezes—só às vezes—ela falha. Como agora, que estou escrevendo isso e meu coração está batendo tão forte que tenho medo de você ouvir da sua sala.*
*O que aconteceria se eu dissesse isso na sua cara? Se eu deixasse de ser a Clara eficiente, a Clara discreta, e virasse apenas uma mulher olhando para um homem que ela deseja há dois anos?*
*Não mandei esse e-mail. Nunca mandaria. Mas queria que você soubesse."*
Ela releu as linhas, os dedos pairando sobre o teclado. O arquivo estava salvo na pasta *"Privado"*, onde guardava anotações pessoais, listas de compras e rascunhos de poemas ruins. Nunca passara pela sua cabeça que pudesse enviá-lo por engano. Mas então, como se o destino tivesse um senso de humor cruel, seu polegar escorregou no touchpad. A tela piscou. E, antes que pudesse impedir, o e-mail foi disparado para o endereço de Daniel.
O som da confirmação de envio ecoou no quarto como um tiro.
Clara ficou paralisada, os olhos arregalados fixos na tela. *"Mensagem enviada."* As palavras pareciam pulsar, zombando dela. Por um segundo, considerou ligar para a TI e pedir que interceptassem o e-mail—mas isso significaria explicar por que uma assistente pessoal estava enviando confissões íntimas para o CEO. Não havia desculpa que não a fizesse parecer ridícula, ou pior, desesperada.
Com um gemido baixo, ela enterrou o rosto nas mãos. *"Merda. Merda, merda, merda."* O que ele pensaria? Que ela era uma tola, uma funcionária desequilibrada que não sabia separar vida pessoal de profissional? Ou—e essa possibilidade a fez estremecer—que ela era exatamente o que ele sempre suspeitara: uma distração, uma fraqueza que ele não podia se dar ao luxo de ter?
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O dia seguinte amanheceu cinzento, com uma garoa fina que deixava a cidade enevoada, como se o próprio ar estivesse carregado de tensão. Clara chegou ao escritório meia hora mais cedo, na esperança de evitar Daniel antes que ele lesse o e-mail. Mas, assim que entrou no elevador, seu celular vibrou. Uma notificação da caixa de entrada.
*"Clara, venha à minha sala assim que chegar. Precisamos conversar. — D."*
As palavras eram curtas, formais. Não havia como saber se ele estava furioso, indiferente ou—Deus a ajudasse—divertido. Ela engoliu em seco, sentindo o gosto metálico do nervosismo na língua.
Quando as portas do elevador se abriram no andar da diretoria, Clara respirou fundo e alisou a saia lápis, como se o tecido pudesse protegê-la. A secretária de Daniel, uma mulher de meia-idade chamada Marlene, ergueu os olhos do computador e lhe lançou um olhar curioso.
— Ele está esperando por você — disse, sem rodeios. — Vá direto.
Clara assentiu, os saltos afundando no carpete espesso enquanto caminhava até a porta de mogno maciço. Por um instante, hesitou. Então, bateu duas vezes e entrou.
Daniel estava de pé junto à janela, as mãos enfiadas nos bolsos da calça de alfaiataria. A luz pálida da manhã delineava sua silhueta, destacando os ombros largos e a postura rígida. Ele não se virou imediatamente, como se precisasse de um momento para se recompor.
— Feche a porta — ordenou, a voz grave, sem emoção.
Clara obedeceu, o clique da fechadura ecoando como um ponto-final. Quando finalmente se voltou para ela, seus olhos—sempre tão controlados—estavam escuros, ilegíveis.
— Sente-se.
Ela se aproximou da cadeira em frente à mesa, mas não se sentou. Em vez disso, ficou de pé, as mãos unidas à frente do corpo, como uma aluna diante do diretor.
— Daniel, eu—
— Você me enviou um e-mail ontem à noite — ele a interrompeu, cortando qualquer tentativa de desculpa. — Um e-mail… interessante.
Clara sentiu o rosto queimar. *"Interessante"* não era a palavra que ela usaria. *"Humilhante"* chegava mais perto.
— Foi um acidente — murmurou, desviando os olhos para o chão. — Eu estava trabalhando em algo pessoal e… o touchpad falhou. Eu sinto muito.
— Um acidente — ele repetiu, como se testando o peso da palavra. Então, deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. Clara prendeu a respiração. — Você costuma escrever sobre seus chefes em seus arquivos pessoais, Clara?
— Não. Nunca. — Sua voz saiu mais aguda do que pretendia. — Eu juro, foi a primeira vez. E eu nunca teria enviado se—
— Se o quê? — Ele inclinou a cabeça, um sorriso tênue brincando nos lábios. — Se soubesse que eu leria? Ou se soubesse que *eu gostaria* de ler?
O coração de Clara disparou. *"Gostaria?"* O que isso significava?
— Você… gostou? — perguntou, antes que pudesse se conter.
Daniel soltou uma risada baixa, sem humor.
— Gostei? — Ele deu mais um passo, agora tão perto que ela podia sentir o calor de seu corpo, o cheiro de sua colônia—algo amadeirado, com um toque de especiarias. — Clara, eu passei a noite inteira relendo aquele e-mail. E cada vez que chegava ao final, tinha que me lembrar de que você é minha funcionária. Que eu não podia simplesmente aparecer na sua casa e mostrar o quanto *gostei*.
As palavras pairaram no ar, pesadas, carregadas de promessas não ditas. Clara sentiu o corpo inteiro reagir—os mamilos enrijecendo sob a blusa de seda, a umidade se acumulando entre as pernas. Ela mordeu o lábio inferior, tentando se controlar, mas o desejo era uma corrente elétrica percorrendo sua pele.
— Você não deveria dizer coisas assim — sussurrou.
— Por quê? — Ele ergueu a mão, como se fosse tocar seu rosto, mas parou no meio do caminho, os dedos pairando a centímetros de sua bochecha. — Porque você não quer ouvir? Ou porque tem medo do que pode acontecer se ouvir?
Clara fechou os olhos por um segundo, tentando se ancorar na realidade. Mas a realidade, naquele momento, era o perfume de Daniel, o som de sua respiração, a maneira como sua presença parecia sugar todo o oxigênio da sala.
— Eu não tenho medo — mentiu.
Ele sorriu, um sorriso lento, perigoso.
— Então prove.
O desafio pairou entre eles, tão tangível quanto o ar. Clara sabia que deveria recuar. Sabia que, se cedesse agora, não haveria volta. Mas então Daniel se aproximou ainda mais, sua coxa roçando a dela, e todo o seu autocontrole se desfez.
— Como? — perguntou, a voz trêmula.
Ele não respondeu com palavras. Em vez disso, segurou seu queixo entre os dedos, inclinando seu rosto para cima. Seus lábios estavam a centímetros dos dela, tão perto que Clara podia sentir o hálito quente contra a boca.
— Você quer que eu te beije, Clara? — murmurou, a voz rouca. — Ou quer que eu te mande embora e finja que nada disso aconteceu?
Ela não conseguiu responder. Em vez disso, ergueu-se na ponta dos pés e fechou a distância entre eles.
O primeiro toque foi hesitante, quase experimental. Os lábios de Daniel eram mais macios do que ela imaginara, mas firmes, exigentes. Ele não recuou. Não a empurrou. Em vez disso, sua mão deslizou para a nuca dela, puxando-a mais perto, aprofundando o beijo com uma fome que fez Clara gemer contra sua boca.
O mundo ao redor desapareceu. Não havia mais escritório, não havia mais hierarquia, não havia mais regras. Havia apenas o calor de Daniel, a pressão de seus dedos na pele, o gosto de café e menta em sua língua. Quando ele finalmente se afastou, ambos estavam ofegantes.
— Isso — ele disse, a voz áspera — foi um erro.
Clara assentiu, mas não se moveu. Não conseguia.
— Um erro delicioso — completou, passando o polegar sobre o lábio inferior dela, inchado pelo beijo.
Ela fechou os olhos, sentindo o toque como uma marca.
— E agora? — perguntou, abrindo-os novamente.
Daniel recuou um passo, como se precisasse de espaço para pensar. Seu olhar percorreu o corpo dela, demorando-se nos seios, na curva dos quadris, antes de voltar para seu rosto.
— Agora — disse, a voz baixa — você vai voltar para sua mesa. E vai fingir que esse beijo nunca aconteceu.
Clara sentiu uma pontada de decepção, mas assentiu.
— E você?
— Eu vou fazer o mesmo — ele mentiu, porque ambos sabiam que era impossível. — Mas, Clara…
Ela ergueu os olhos.
— Sim?
— Da próxima vez que você me escrever um e-mail como aquele — ele sorriu, lento e perigoso —, não envie por acidente.
E, com isso, virou-se de costas, deixando-a sozinha na sala, com o coração batendo tão forte que ela tinha certeza de que ele podia ouvir.
A porta da sala de Daniel se fechou com um clique suave, mas definitivo. Clara permaneceu de pé, as mãos trêmulas segurando a borda da mesa de reuniões como se fosse a única coisa que a mantinha ancorada à realidade. O ar condicionado soprava frio contra sua nuca, mas ela sentia o calor subir pelo pescoço, queimar as bochechas. O silêncio era pesado, carregado de algo que ela não ousava nomear.
Daniel não se sentou. Caminhou até a janela, as mãos enfiadas nos bolsos da calça de alfaiataria, o tecido moldando-se aos músculos das coxas enquanto ele olhava para a cidade lá embaixo. O sol da tarde filtrava-se pelas persianas, desenhando listras douradas sobre sua camisa branca, destacando o contorno dos ombros largos, a linha rígida das costas. Ele respirou fundo, como se estivesse prestes a mergulhar em águas profundas.
— Sente-se, Clara.
A voz dele era baixa, controlada, mas havia um fio de tensão ali, algo que ela nunca tinha ouvido antes. Não era raiva. Não exatamente. Era algo mais perigoso.
Ela obedeceu, os dedos deslizando sobre a superfície polida da mesa antes de se acomodar na cadeira. As pernas tremiam, e ela cruzou os tornozelos, apertando-os com força. O vestido de linho azul-marinho que usava parecia subitamente apertado, o decote modesto agora uma provocação. Ela podia sentir o olhar dele sobre si, mesmo sem vê-lo.
Daniel virou-se lentamente. A luz do sol iluminava metade do seu rosto, deixando a outra na sombra, como se ele fosse duas pessoas: o CEO intocável e o homem que ela havia imaginado em segredo. Ele não se aproximou. Ficou parado ali, a alguns passos de distância, como se qualquer movimento pudesse quebrar o frágil equilíbrio entre eles.
— Você leu o e-mail que me enviou.
Não era uma pergunta.
Clara engoliu em seco. O gosto de café da manhã ainda estava na sua língua, amargo. Ela assentiu.
— Eu… eu não queria enviar. Foi um erro. Eu estava escrevendo para uma amiga, e—
— Não minta para mim.
A interrupção foi suave, mas cortante. Daniel inclinou a cabeça, os olhos escuros fixos nela. Clara sentiu o ar faltar. Ele sabia. Claro que sabia. Não havia como explicar aquele texto, aquelas palavras, sem admitir a verdade.
— Eu não estou bravo — ele continuou, a voz mais baixa agora, quase íntima. — Estou intrigado.
Ela levantou os olhos, surpresa. Intrigado? Era isso que ele sentia? Não indignação, não escândalo, mas curiosidade?
— Intrigado — repetiu, como se testando a palavra na língua.
Daniel deu um passo à frente. Depois outro. A sombra recuou, revelando o rosto inteiro, os lábios levemente entreabertos, como se ele também estivesse saboreando algo novo. Ele parou ao lado da cadeira dela, perto o suficiente para que ela sentisse o calor do seu corpo, o cheiro da sua colônia—madeira de cedro e algo cítrico, limpo, masculino.
— Você escreveu que me observa quando acha que não estou olhando — disse ele, a voz quase um sussurro. — Que anota os meus hábitos como se fossem pistas de um enigma.
Clara prendeu a respiração. Ele estava citando o e-mail. Palavra por palavra.
— Que sonha com a minha boca no seu pescoço — continuou, e agora havia um tom rouco na sua voz, algo que fez os mamilos dela enrijecerem sob o tecido do vestido. — Que imagina como seria se eu a tocasse.
Ela fechou os olhos por um segundo, envergonhada, excitada, apavorada. Quando os abriu novamente, Daniel estava mais perto. Tão perto que ela podia ver as pequenas linhas ao redor dos seus olhos, as íris castanhas salpicadas de dourado. Tão perto que, se ela se inclinasse um pouco, poderia roçar os lábios nos dele.
— Foi só um devaneio — murmurou ela, mas a voz saiu fraca, sem convicção.
— Um devaneio muito detalhado — ele rebateu, e havia um sorriso na sua voz, algo perverso e delicioso. — Você descreveu o meu escritório, Clara. A maneira como eu me sento na cadeira. O jeito como aperto a caneta entre os dedos quando estou pensando.
Ela sentiu o rosto queimar. Ele estava certo. Ela tinha descrito tudo. Até a maneira como ele passava a mão pelo cabelo quando estava frustrado, como se quisesse arrancá-lo.
— Você não deveria ter lido — disse ela, mas não havia força na sua voz.
— Eu não consegui parar — ele admitiu, e agora estava tão perto que ela podia sentir o hálito quente contra a sua testa. — Li três vezes. Quatro. Até memorizar cada palavra.
O coração dela batia tão forte que ela tinha certeza de que ele podia ouvir. Daniel ergueu a mão, lentamente, como se estivesse se aproximando de um animal assustado. Os dedos roçaram o seu queixo, erguendo-o até que ela não tivesse escolha a não ser olhar para ele.
— Você quer saber o que eu pensei quando li? — perguntou, a voz um fio de seda.
Clara não conseguia falar. Apenas assentiu.
— Pensei em como seria provar essa boca que descreve tantas coisas — ele murmurou, o polegar deslizando sobre o lábio inferior dela, puxando-o levemente para baixo. — Pensei em como seria ter essas pernas ao redor da minha cintura enquanto eu te fodo contra a parede do meu escritório.
As palavras foram como um choque elétrico. Ela soltou um suspiro trêmulo, os dedos apertando os braços da cadeira. Daniel inclinou-se mais, a boca pairando sobre a dela, tão perto que ela podia sentir o calor, a promessa.
— Pensei em como seria ouvir você gemer o meu nome — continuou, a voz rouca. — E em como eu faria questão de que você gritasse.
Ela fechou os olhos, o corpo inteiro tremendo. Ele estava tão perto. Tão perto que, se ela se inclinasse apenas um centímetro, os lábios se encontrariam. Mas ele não a beijou. Recuou apenas o suficiente para que ela abrisse os olhos novamente, para que visse o desejo cru nos dele.
— E então? — perguntou ele, a voz baixa, perigosa. — Foi só um devaneio, Clara? Ou você também quer isso?
Ela abriu a boca para responder, mas as palavras morreram na garganta. Porque não era só um devaneio. Nunca tinha sido. Ela o queria. O queria com uma intensidade que a assustava, que a deixava sem fôlego. Mas dizer isso em voz alta era como pular de um penhasco sem saber se havia água lá embaixo.
Daniel sorriu, lento, como se soubesse exatamente o que ela estava pensando.
— Não precisa responder agora — disse ele, recuando um passo, deixando-a respirar novamente. — Mas saiba de uma coisa, Clara.
Ela o olhou, o coração batendo tão forte que doía.
— Eu também penso em você — confessou ele, a voz baixa, quase um segredo. — Mais do que deveria.
E então, antes que ela pudesse reagir, ele se virou e caminhou até a porta, abrindo-a com um gesto firme.
— Pode voltar ao trabalho.
Clara permaneceu sentada, os dedos ainda apertando a cadeira, o corpo inteiro vibrando. Ela não sabia quanto tempo ficou ali, tentando recuperar o fôlego, tentando entender o que tinha acabado de acontecer.
Quando finalmente se levantou, as pernas ainda tremiam. Ela passou a mão pelo vestido, alisando-o, como se isso pudesse apagar a marca invisível que ele tinha deixado nela. Ao passar pela porta, lançou um último olhar para Daniel, que estava de costas, olhando pela janela novamente, as mãos nos bolsos.
Ele não a olhou. Não disse mais nada.
Mas ela sabia.
Isso estava longe de acabar.
O avião pousou com um solavanco suave, as luzes da pista refletindo nos vidros escuros da cabine enquanto Clara ajustava a alça da bolsa no ombro. O ar condicionado do aeroporto era um alívio depois do calor úmido de São Paulo, mas a tensão entre ela e Daniel parecia seguir um ritmo próprio, independente do clima. Desde a confissão na sala dele, uma semana antes, os dois haviam se evitado com a precisão de quem conhece os limites de um campo minado. Ela digitava relatórios com os dedos trêmulos; ele assinava documentos sem erguer os olhos. Mas agora, ali, no saguão do hotel em Curitiba, não havia planilhas nem reuniões para servir de escudo.
— Só tem um quarto disponível — anunciou a recepcionista, olhando alternadamente para os dois com um sorriso profissional. — Foi uma feira de negócios na cidade. Todos os hotéis estão lotados.
Daniel não hesitou. — Ficamos com ele.
Clara abriu a boca para protestar, mas as palavras morreram antes de saírem. Ele já havia entregado o cartão corporativo, os dedos longos batendo levemente no balcão, como se a decisão fosse tão simples quanto pedir um café. Ela sentiu o peso do olhar dele sobre si, quente e inevitável, enquanto a recepcionista entregava as chaves.
O elevador subiu em silêncio. Clara observou as luzes dos andares piscarem no painel, contando os segundos até que as portas se abrissem no décimo segundo andar. O quarto era espaçoso, com uma cama king size coberta por um edredom cinza-claro e uma janela que dava para a cidade iluminada. Ela deixou a bolsa sobre a poltrona, os dedos roçando o tecido macio do estofado, como se pudesse ancorar-se ali.
— Vou tomar um banho — disse Daniel, tirando o paletó e pendurando-o no cabide com movimentos precisos. — A reunião é em duas horas.
Clara assentiu, mas não se moveu. O som da água correndo no banheiro ecoou pelo quarto, misturando-se ao ruído abafado do trânsito lá fora. Ela tirou os sapatos, sentindo o carpete felpudo sob os pés, e aproximou-se da janela. As luzes da cidade tremeluziam como estrelas caídas, e por um momento, desejou que fossem mesmo estrelas—algo distante, intocável.
A porta do banheiro se abriu com um rangido suave.
Ela não se virou, mas sentiu o vapor quente que escapava do ambiente, carregando o cheiro do sabonete dele—algo cítrico, com um fundo amadeirado, como se a pele de Daniel guardasse o aroma de uma floresta depois da chuva. Ouviu os passos atrás de si, lentos, deliberados. O calor do corpo dele se aproximou, sem tocá-la, mas perto o suficiente para que ela sentisse o contraste entre o ar fresco do quarto e o calor úmido que emanava da toalha enrolada em sua cintura.
— Você está tremendo — murmurou ele, a voz rouca.
Clara fechou os olhos. — Não estou.
Uma risada baixa, quase um suspiro. — Está.
E então, a mão dele deslizou pela sua nuca, os dedos enredando-se nos cabelos soltos, puxando-a levemente para trás. O movimento foi suave, mas firme o suficiente para que ela sentisse o controle se esvaindo. Quando abriu os olhos, viu o próprio reflexo na janela—os lábios entreabertos, as pupilas dilatadas—e, atrás dela, o contorno escuro de Daniel, os ombros largos ainda úmidos, a toalha pendendo perigosamente baixa.
— Eu deveria dizer que isso é um erro — disse ele, a boca tão perto da orelha dela que o hálito quente fez sua pele arrepiar. — Que amanhã vamos nos arrepender.
Clara engoliu em seco. — Você vai?
— Não.
A mão livre dele deslizou pela lateral do corpo dela, contornando a curva da cintura, parando logo acima do quadril. — Mas se você quiser que eu pare, é só dizer.
Ela não disse nada. Em vez disso, inclinou a cabeça para trás, encostando-a no ombro dele, e deixou que os dedos dele explorassem. A palma da mão dele era áspera em alguns pontos, macia em outros, como se carregasse as marcas de quem assinava contratos e apertava mãos, mas também de quem sabia exatamente como tocar. Quando os dedos roçaram a pele exposta entre a blusa e a saia, Clara soltou um suspiro involuntário.
— Isso não é justo — murmurou ela.
— O quê?
— Você sabe o que faz comigo.
Daniel riu, um som escuro e satisfeito, e mordeu de leve o lóbulo da orelha dela. — E você não faz ideia do que faz comigo.
A toalha caiu no chão com um baque surdo.
Clara se virou, finalmente, e o viu nu diante dela—o peito largo, os músculos definidos pelo hábito de nadar às seis da manhã, as cicatrizes finas que ela nunca tinha notado antes, como linhas de uma história que ele nunca contara. Os olhos dele a percorreram com a mesma intensidade com que ela o observava, como se estivessem memorizando cada detalhe, cada sombra.
— Você é linda — disse ele, e não havia dúvida na voz, apenas uma constatação crua.
Ela sentiu o rosto queimar, mas não desviou o olhar. Em vez disso, levou as mãos à barra da blusa e a puxou por cima da cabeça, deixando-a cair ao lado da toalha. O sutiã de renda preta era simples, mas a forma como os olhos dele escureceram ao vê-lo fez com que parecesse algo muito mais provocante.
— Eu não sou — murmurou ela, mas as palavras perderam força quando ele a puxou contra si, a pele nua de ambos colidindo em um choque de calor.
— Você é — insistiu ele, as mãos deslizando pelas costas dela, desabotoando o sutiã com uma facilidade que denunciava prática. — E eu vou provar.
O sutiã caiu. Daniel não perdeu tempo—abaixou a cabeça e tomou um dos mamilos na boca, a língua quente e úmida fazendo-a arquear as costas. Clara agarrou os ombros dele, as unhas cravando-se na pele, e ele gemeu contra seu seio, o som vibrando através dela como uma corrente elétrica. Quando ele mudou para o outro mamilo, os dentes roçando de leve, ela soltou um gemido que ecoou pelo quarto.
— Shhh — sussurrou ele, erguendo a cabeça apenas o suficiente para olhar nos olhos dela. — Não queremos que os vizinhos saibam o que estamos fazendo.
Clara mordeu o lábio, tentando conter o riso, mas o riso morreu quando ele a empurrou gentilmente em direção à cama. Ela caiu de costas sobre o colchão macio, e ele a seguiu, cobrindo-a com o corpo, a boca encontrando a dela em um beijo que era ao mesmo tempo urgente e lento, como se tivessem todo o tempo do mundo.
As mãos dele exploraram cada centímetro dela—os seios, a cintura, as coxas—enquanto as dela se enredavam nos cabelos dele, puxando-o mais perto, querendo mais. Quando os dedos dele deslizaram para dentro da saia, encontrando a renda da calcinha já úmida, Clara arqueou os quadris, buscando mais pressão.
— Impaciente — murmurou ele contra os lábios dela.
— Você me faz assim — respondeu ela, a voz entrecortada.
Ele sorriu, um sorriso perverso, e então puxou a calcinha para baixo, jogando-a de lado. Clara se desvencilhou da saia, chutando-a para longe, e ficou nua diante dele, os joelhos dobrados, os olhos desafiadores.
— Agora é a minha vez — disse ela, empurrando-o de leve até que ele estivesse deitado de costas.
Daniel não resistiu. Observou, os olhos semicerrados, enquanto ela se ajoelhava entre as pernas dele, as mãos deslizando pelas coxas musculosas. Quando a boca dela encontrou a ereção dele, quente e pulsante, ele soltou um xingamento baixo, os dedos enredando-se nos cabelos dela.
— Porra, Clara…
Ela não respondeu. Em vez disso, tomou-o mais fundo, a língua trabalhando em movimentos lentos e deliberados, saboreando a reação dele—o corpo tenso, os gemidos abafados, as mãos que a guiavam sem forçar. Quando ele a puxou para cima, invertendo as posições novamente, ela não protestou.
— Eu quero você — disse ele, a voz rouca, os olhos queimando. — Agora.
Clara assentiu, as pernas se abrindo para ele, e então ele estava ali, a ponta do pau roçando sua entrada, provocando-a. Ela mordeu o lábio inferior, os quadris se movendo em busca de alívio, mas ele segurou seus pulsos, prendendo-os acima da cabeça.
— Não tão rápido — murmurou ele, a respiração quente contra o pescoço dela.
E então, com um movimento lento e controlado, ele a penetrou.
Clara arqueou as costas, um gemido escapando dos lábios, enquanto ele a preenchia completamente. Ele parou por um momento, os olhos fixos nos dela, como se quisesse memorizar a expressão em seu rosto. Então começou a se mover, os quadris encontrando um ritmo que era ao mesmo tempo suave e implacável.
— Você é tão apertada — gemeu ele, a voz tensa. — Tão perfeita.
Clara não conseguiu responder. As palavras se perderam em meio aos sons que escapavam de sua garganta—gemidos, suspiros, o nome dele repetido como uma prece. As mãos dele soltaram seus pulsos, deslizando pelas laterais do corpo dela, agarrando seus quadris para aprofundar cada estocada. Ela sentiu o prazer crescendo, uma onda que ameaçava engoli-la, e quando ele mudou o ângulo, atingindo aquele ponto dentro dela que a fazia ver estrelas, ela não conseguiu mais se conter.
— Daniel… — gemeu ela, o corpo tremendo, as unhas cravando-se nas costas dele.
Ele não parou. Em vez disso, acelerou o ritmo, perseguindo o próprio prazer enquanto ela se desfazia embaixo dele. Quando gozou, foi com um grunhido rouco, o corpo inteiro tensionando antes de desabar sobre ela, a respiração ofegante contra o pescoço dela.
Ficaram assim por um longo momento, os corpos entrelaçados, a pele úmida de suor, os batimentos cardíacos aos poucos desacelerando. Clara passou os dedos pelas costas dele, sentindo as cicatrizes, as marcas de uma vida que ela ainda não conhecia. Ele ergueu a cabeça, olhando para ela com uma expressão que ela não conseguiu decifrar—algo entre possessividade e vulnerabilidade.
— Isso não vai ser só hoje — disse ele, a voz baixa.
Clara não respondeu. Não precisava.
Porque os dois sabiam que, quando o sol nascesse, nada seria como antes.
A manhã seguinte chegou com a luz fria do inverno atravessando as persianas do escritório, pintando listras douradas sobre a mesa de Clara. Ela acordou antes do despertador, o corpo ainda marcado pela noite anterior—o peso dos dedos de Daniel em seus quadris, o calor da boca dele contra a sua, a forma como ele a prendera contra a parede do quarto de hotel como se quisesse fundi-la à alvenaria. Agora, de volta à rotina, cada movimento parecia carregado de uma eletricidade nova, como se o ar entre eles tivesse sido substituído por algo mais denso, mais inflamável.
Ela vestiu o tailleur cinza com cuidado, escolhendo a blusa de seda azul-petróleo que sabia que realçava o tom dos seus olhos. No espelho, passou os dedos pelos lábios, ainda levemente inchados, e sorriu para o reflexo. *Profissional*, lembrou a si mesma. *Fingir que nada aconteceu.* Mas quando abriu a porta do apartamento, o perfume de Daniel—sândalo e couro envelhecido—ainda parecia grudado em sua pele.
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O escritório estava estranhamente silencioso quando ela chegou, como se até as paredes soubessem que algo havia mudado. Clara cumprimentou os colegas com um aceno educado, evitando o contato visual prolongado, como se temesse que alguém pudesse ler em seus olhos o que acontecera entre quatro paredes. Na sua mesa, encontrou um café preto, sem açúcar, exatamente como gostava, deixado ali sem explicação. Ao lado, um bilhete dobrado com uma caligrafia precisa: *"Reunião às 9h. Não se atrase."*
Ela mordeu o lábio inferior, sentindo o calor subir pelo pescoço. *Ele não ia facilitar as coisas.*
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Daniel chegou às 8h59, como sempre, o sobretudo impecável balançando com o ritmo dos seus passos. Ele não olhou para ela ao passar, mas Clara sentiu o peso do seu olhar como uma carícia—rápida, quase imperceptível, mas suficiente para fazer seu estômago se contrair. Quando ele entrou na sala de reuniões, ela respirou fundo e o seguiu, os saltos batendo contra o piso de mármore como pequenos disparos.
A reunião foi uma tortura. Daniel conduziu tudo com a frieza habitual, analisando gráficos e projeções com uma precisão cirúrgica, enquanto Clara tomava notas com mãos que tremiam levemente. A cada vez que ele se inclinava para apontar algo no relatório, ela sentia o cheiro da sua colônia, misturado ao aroma do café que ele bebia—amargo, forte, como ele. Quando seus dedos roçaram acidentalmente ao pegar o mesmo documento, ela prendeu a respiração. Ele não recuou.
— Clara — disse ele, a voz baixa, apenas para ela —, você está com a apresentação do terceiro trimestre?
Ela ergueu os olhos, encontrando os dele. *Diga algo normal*, pensou. *Algo profissional.*
— Está no meu computador. Posso enviar por e-mail.
— Não precisa. — Ele se levantou, contornando a mesa até ficar ao lado dela. — Vamos resolver isso agora.
O tom era casual, mas havia algo de deliberado na forma como ele se aproximou, como se quisesse testar os limites. Clara sentiu o calor do corpo dele irradiando, mesmo com os centímetros de distância entre eles. Quando ele se inclinou para ver a tela, seu braço roçou no dela, e ela teve certeza de que ele fez de propósito.
— Aqui — murmurou ele, apontando para um dado específico. — Precisamos ajustar essa projeção.
Ela assentiu, tentando se concentrar, mas tudo o que conseguia pensar era na forma como as mãos dele haviam explorado seu corpo na noite anterior, como se cada curva fosse um território a ser conquistado. Quando ele se afastou, ela exalou lentamente, aliviada e frustrada ao mesmo tempo.
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O resto do dia foi uma dança de olhares evitados e palavras medidas. Clara se jogou no trabalho, respondendo e-mails, organizando a agenda de Daniel, certificando-se de que cada detalhe estivesse impecável. Mas sempre que ele passava pela sua mesa, ela sentia—o peso do silêncio entre eles, a forma como ele diminuía a velocidade dos passos, como se quisesse prolongar o momento.
Às 17h30, quando o escritório começou a esvaziar, ela finalmente relaxou os ombros. Estava guardando seus pertences na bolsa quando a voz dele soou atrás dela, baixa e rouca:
— Vamos descer juntos.
Ela se virou, surpresa. Daniel estava parado ali, as mãos nos bolsos do paletó, os olhos escuros fixos nela com uma intensidade que a fez prender a respiração.
— O elevador está lotado — disse ela, hesitante.
— Não está. — Ele deu um passo à frente. — Eu verifiquei.
Clara engoliu em seco. Não havia como recusar sem parecer suspeita. Então assentiu, pegando a bolsa e seguindo-o até os elevadores.
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O metal frio da parede pressionou suas costas quando as portas se fecharam. O elevador estava vazio, mas Clara ainda sentia o peso da presença de Daniel como uma força física. Ele digitou o código do térreo e se virou para ela, os olhos percorrendo seu corpo de cima a baixo com uma lentidão deliberada.
— Você está linda hoje — murmurou ele, a voz áspera.
Ela sentiu o rosto esquentar.
— Obrigada. Você também está… profissional.
Ele riu baixo, um som que vibrou no peito dela.
— Profissional? — Ele deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. — É assim que você me vê agora?
— Daniel… — Ela olhou para as portas, como se esperasse que alguém entrasse a qualquer momento. — Não podemos.
— Não podemos o quê? — Ele ergueu a mão, os dedos roçando levemente a lateral do seu pescoço, traçando uma linha até o colarinho da blusa. — Falar? Tocar? Ou você está com medo de que alguém descubra?
— Os dois — admitiu ela, a voz quase um sussurro.
Ele se inclinou, a boca pairando perto da orelha dela.
— Então você vai ter que ficar quieta.
Antes que ela pudesse reagir, os lábios dele encontraram os seus, quentes e exigentes. Clara gemeu contra a boca dele, as mãos indo instintivamente para o peito de Daniel, sentindo o tecido caro do paletó sob os dedos. Ele a empurrou contra a parede, o corpo pressionando o dela, e ela sentiu a rigidez da sua ereção através da calça, o que a fez arquear levemente as costas.
— Porra — ele rosnou, interrompendo o beijo por um segundo. — Você não faz ideia do quanto eu quis fazer isso o dia todo.
Ela não teve tempo de responder. As portas do elevador se abriram com um *ding* suave, e vozes ecoaram no corredor. Daniel se afastou rapidamente, ajustando a gravata com uma expressão impassível, enquanto Clara tentava recuperar o fôlego, os lábios ainda formigando.
Dois colegas de outro departamento entraram, rindo de alguma piada interna. Eles cumprimentaram Daniel com um aceno, sem notar a tensão no ar, mas Clara viu o momento exato em que um deles olhou para ela—os lábios inchados, o rubor nas bochechas, a forma como ela apertava a bolsa como se fosse um salva-vidas.
— Boa noite, Clara — disse o homem, com um sorriso que não chegava aos olhos.
Ela forçou um sorriso de volta.
— Boa noite.
As portas se fecharam novamente, e o elevador continuou a descida, mas o clima havia mudado. Daniel não a tocou de novo, mas o ar entre eles estava carregado, como se a qualquer momento pudesse explodir.
Quando chegaram ao térreo, ele saiu primeiro, sem olhar para trás.
— Amanhã — disse ele, a voz firme —, vamos conversar.
Clara assentiu, mas sabia que não seria uma conversa qualquer. E, pela primeira vez, não tinha certeza se queria que fosse.
A manhã seguinte chegou com o peso de um veredito. Clara acordou antes do despertador, os lençóis embolados entre as pernas, o corpo ainda vibrando com a memória dos dedos de Daniel percorrendo sua pele no elevador. Ela passou os dedos pelos lábios, como se pudesse reter o gosto dele, mas só encontrou o travo amargo do café que havia tomado às pressas.
No escritório, o silêncio entre eles era uma entidade viva, pulsando nos corredores, nos olhares desviados, nas pausas calculadas antes de cada palavra. Clara digitava relatórios com uma precisão mecânica, enquanto Daniel, atrás da porta fechada de sua sala, ditava e-mails com uma voz que ela já sabia decifrar: cada inflexão, cada pausa, cada suspiro contido. Eles eram dois atores em um palco vazio, esperando o momento certo para quebrar o script.
Foi no meio da tarde que ele a chamou.
— Clara. — A voz dele pelo interfone era baixa, quase rouca. — Preciso que revise o discurso para a coletiva de imprensa.
Ela entrou na sala com o coração batendo na garganta. Daniel estava de pé junto à janela, as mãos enfiadas nos bolsos da calça de alfaiataria, a luz do sol delineando os contornos de seus ombros largos. Ele não se virou imediatamente, como se precisasse daquele segundo a mais para se preparar.
— Feche a porta — disse ele, finalmente.
Ela obedeceu, os dedos trêmulos girando a maçaneta. O clique ecoou como um tiro.
— O discurso está aqui. — Ela estendeu o tablet, mas ele não fez menção de pegá-lo. Em vez disso, seus olhos escuros a percorreram de cima a baixo, lentos, deliberados, como se estivesse memorizando cada detalhe.
— Você está linda hoje.
As palavras a atingiram como um choque. Não era um elogio vazio; era uma confissão. Clara sentiu o calor subir pelo pescoço, as bochechas queimando.
— Obrigada — murmurou, desviando o olhar para o tablet. — Mas… o discurso.
— Esqueça o discurso.
Ele deu um passo à frente, depois outro, até que o cheiro de sua colônia — algo amadeirado, com um toque de especiarias — a envolvesse por completo. Clara recuou instintivamente, mas a mesa a impediu. Daniel não a tocou, mas sua presença era uma parede de calor, de músculos tensionados sob o tecido caro da camisa.
— Daniel, nós não podemos… — Ela tentou soar firme, mas a voz falhou.
— Não podemos o quê? — Ele inclinou a cabeça, os lábios se curvando em um sorriso perigoso. — Não podemos admitir que passamos a noite inteira imaginando como seria te ter debaixo de mim? Não podemos dizer que, desde que li aquele e-mail, não consigo pensar em outra coisa senão em como você geme quando está prestes a gozar?
As palavras a atravessaram como uma corrente elétrica. Clara apertou os dedos contra a borda da mesa, as unhas cravando-se na madeira.
— Isso é loucura — sussurrou.
— É. — Ele assentiu, como se concordasse com uma verdade óbvia. — Mas é a nossa loucura.
Então, antes que ela pudesse responder, ele fechou o espaço entre eles. Uma mão segurou sua nuca, os dedos enroscando-se nos cabelos presos em um coque severo, enquanto a outra deslizou pela sua cintura, puxando-a contra o corpo dele. Clara soltou um suspiro entrecortado quando sentiu a ereção pressionando seu ventre, dura, insistente.
— Daniel… — Ela tentou protestar, mas a boca dele já estava sobre a sua, voraz, exigente. Não era um beijo suave; era uma reivindicação, uma marca. A língua dele invadiu sua boca, explorando, dominando, enquanto as mãos desciam para apertar suas nádegas, erguendo-a levemente sobre a mesa.
— Você quer que eu pare? — ele murmurou contra seus lábios, os dentes roçando o lábio inferior dela.
Clara não respondeu. Em vez disso, enlaçou os braços ao redor do pescoço dele, puxando-o para mais perto, e mordeu seu lábio com força suficiente para fazê-lo gemer.
— Era isso que você queria ouvir? — ela desafiou, a voz rouca.
Daniel riu, um som baixo e perigoso, antes de empurrá-la contra a mesa com mais força. Os papéis voaram, o tablet caiu no chão com um baque surdo, mas nenhum dos dois se importou. Ele ergueu sua saia até a cintura, os dedos ágeis encontrando o elástico da calcinha.
— Você não faz ideia do que eu quero fazer com você — ele rosnou, enquanto afastava o tecido e deslizava um dedo para dentro dela.
Clara arqueou as costas, um gemido escapando de sua garganta. Estava encharcada, o corpo traindo qualquer tentativa de resistência.
— Então me mostre — ela conseguiu dizer, antes que ele a silenciasse com outro beijo.
Daniel a virou de costas, inclinando-a sobre a mesa. Clara sentiu o ar frio contra a pele exposta quando ele puxou a calcinha para baixo, deixando-a cair em torno dos tornozelos. O som do zíper da calça dele sendo aberto foi como um gatilho. Ela se apoiou nos cotovelos, as unhas arranhando a superfície polida da mesa, enquanto ele se posicionava atrás dela.
— Você tem certeza? — ele perguntou, a voz áspera, os dedos traçando círculos lentos em sua entrada.
— Sim — ela gemeu, empurrando-se contra a mão dele. — Por favor.
Ele não precisou de mais incentivo. Com um movimento rápido, Daniel a penetrou, enterrando-se até o fim. Clara gritou, o corpo esticado ao máximo para acomodá-lo, a sensação de plenitude quase insuportável. Ele não deu tempo para que ela se ajustasse; em vez disso, começou a se mover, estocadas profundas e brutais que faziam a mesa ranger sob eles.
— Você é minha — ele grunhiu, uma mão segurando seu quadril com força, a outra enroscada em seus cabelos, puxando sua cabeça para trás. — Diga.
— Sou sua — ela repetiu, as palavras se perdendo em meio aos gemidos. — Só sua.
Daniel aumentou o ritmo, cada investida mais intensa que a anterior, até que Clara sentiu o orgasmo se aproximando como uma onda. Ele percebeu, porque seus movimentos se tornaram mais curtos, mais precisos, atingindo aquele ponto dentro dela que a fazia ver estrelas.
— Goza para mim — ele ordenou, a voz um rosnado no ouvido dela. — Agora.
E ela obedeceu. O clímax a atingiu como um raio, fazendo seu corpo convulsionar ao redor dele. Daniel gemeu, os dedos cravando-se em sua carne enquanto ele também chegava ao ápice, derramando-se dentro dela com um último impulso profundo.
Por um momento, só houve o som de suas respirações ofegantes, o cheiro de sexo misturado ao couro da poltrona e ao perfume caro de Daniel. Clara mal conseguia se manter de pé, as pernas trêmulas, o corpo mole de prazer.
Ele a puxou para si, beijando seu pescoço, seus ombros, como se não conseguisse parar de tocá-la.
— Isso não foi um erro — ele murmurou, a voz ainda rouca. — Nunca foi.
Clara fechou os olhos, deixando-se afundar no abraço dele.
— Eu sei.
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A coletiva de imprensa estava marcada para as cinco da tarde. Clara ajustou o blazer sobre o vestido justo, os dedos ainda formigando com o toque de Daniel. Ele havia saído primeiro da sala, depois de um último beijo roubado, deixando-a sozinha para se recompor. Quando ela entrou no auditório, o burburinho cessou por um segundo. Todos sabiam. Ou, pelo menos, suspeitavam.
Daniel estava no palco, impecável como sempre, mas havia algo diferente em sua postura. Uma confiança nova, uma tranquilidade que Clara nunca tinha visto antes. Ele a viu entrar e sorriu — um sorriso discreto, só para ela.
— Boa tarde a todos — ele começou, a voz firme, ecoando pelo salão. — Hoje, além dos resultados trimestrais, tenho um anúncio pessoal a fazer.
O silêncio se tornou absoluto. Clara prendeu a respiração.
— Nos últimos meses, minha relação com Clara Vasconcelos, minha assistente executiva, evoluiu para algo além do profissional. — Ele fez uma pausa, os olhos encontrando os dela no meio da multidão. — Estamos juntos. E, para evitar qualquer conflito de interesses, Clara será transferida para o departamento de estratégia corporativa, onde continuará contribuindo com sua inteligência e dedicação.
O salão explodiu em murmúrios. Câmeras piscaram, repórteres se inclinaram para a frente, ansiosos. Clara sentiu o rosto queimar, mas não desviou o olhar. Daniel a encarava com uma intensidade que a fez esquecer de todo o resto.
— Alguma pergunta? — ele indagou, erguendo uma sobrancelha.
Um repórter da primeira fila levantou a mão.
— Isso não é antiético, considerando a diferença de posição hierárquica?
Daniel sorriu, frio e calculista.
— A ética é relativa quando duas pessoas adultas e consentidas decidem compartilhar mais do que um escritório. — Ele fez uma pausa, os dedos tamborilando no púlpito. — Mas, se preferirem, podemos discutir os números de vendas do último trimestre.
O assunto foi encerrado ali.
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Naquela noite, Clara chegou ao apartamento de Daniel com uma garrafa de vinho e um sorriso malicioso. Ele abriu a porta vestindo apenas uma calça de moletom baixa nos quadris, o peito nu ainda marcado pelas unhas dela.
— Você demorou — ele disse, puxando-a para dentro.
— Tive que passar no meu apartamento para pegar algumas coisas — ela respondeu, deixando a bolsa cair no chão. — Afinal, agora que somos um casal oficial, acho que é justo que eu tenha uma gaveta aqui.
Daniel a empurrou contra a parede, as mãos já explorando o corpo dela por baixo do vestido.
— Uma gaveta? — Ele riu, mordiscando seu pescoço. — Você vai precisar de um armário inteiro.
Clara enlaçou as pernas ao redor da cintura dele, sentindo-o duro contra sua coxa.
— Promessas, promessas — ela provocou.
Ele a carregou até o quarto, jogando-a na cama com um movimento brusco.
— Vamos ver se você consegue me fazer cumpri-las.
E, enquanto a noite caía sobre a cidade, Clara descobriu que sim. Ele cumpria todas.