Entre Lençóis e Palavras Não Ditas

HeterossexualPor Tonkix6 leituras
Entre Lençóis e Palavras Não Ditas
**Entre Lençóis e Palavras Não Ditas** A chuva caía em fios prateados sobre a cidade, como se o céu tivesse decidido costurar o tempo em pontos soltos, unindo passado e presente em um mesmo tecido úmido. Clara pisou na calçada molhada, os saltos afundando levemente nas poças que refletiam as luzes neon do bar *O Último Acorde*. O cheiro de asfalto lavado misturava-se ao aroma de cerveja derramada e fumaça de cigarro, um perfume familiar que a envolveu como um abraço esquecido. Ela hesitou por um segundo, a mão ainda na maçaneta da porta, sentindo o peso da mala de viagem ao seu lado—uma companheira silenciosa de semanas de solidão em hotéis sem alma, onde as palavras que escrevia à noite pareciam ecoar mais alto do que sua própria respiração. Dentro do bar, o calor humano era quase palpável. Corpos se espremiam entre mesas de madeira escura, risadas se entrelaçavam ao som de uma guitarra desafinada no canto, e o brilho âmbar das lâmpadas penduradas no teto criava halos dourados sobre cabeças e copos. Clara passou os dedos pelos cabelos castanhos, agora mais longos do que na última vez em que estivera ali, e respirou fundo. Não era a mesma mulher que partira. A viagem a havia mudado—ou talvez apenas revelado camadas que antes ela enterrava sob páginas de romances inacabados e noites em claro. Foi então que o viu. Rafael estava encostado no balcão, uma cerveja pela metade à sua frente, os dedos tamborilando distraidamente na madeira como se tocasse uma melodia invisível. O tempo havia sido generoso com ele: os cabelos pretos, antes rebeldes, agora caíam em ondas disciplinadas sobre a testa, e a barba por fazer delineava um queixo que ela conhecia tão bem quanto as linhas de sua própria mão. Ele usava uma camisa de botões azul-escura, as mangas arregaçadas até os cotovelos, revelando antebraços fortes, marcados por veias que Clara costumava seguir com a ponta dos dedos. Quando ele ergueu o olhar, como se pressentisse sua presença, os olhos verdes—sempre tão intensos, como folhas ao sol—encontraram os dela. Um segundo. Dois. O suficiente para que o bar inteiro parecesse conter a respiração. Clara sentiu o ar escapar dos pulmões. Não era apenas surpresa. Era reconhecimento. Era o peso de todas as noites em que se perguntara *e se...*, de todas as cartas que escrevera e rasgara, de todas as vezes em que seu corpo traíra sua mente, lembrando-se do calor dele mesmo quando a razão insistia em esquecer. Rafael não sorriu. Não se moveu. Apenas sustentou seu olhar, e naquele silêncio carregado, Clara soube que ele também havia contado os dias. — Clara. A voz dele era rouca, como se tivesse passado horas gritando ou cantando—ou talvez apenas esperando por aquele momento. Ela não respondeu. Não precisava. Os lábios dele se curvaram em algo que não era bem um sorriso, mas uma promessa, uma confissão muda. — Você voltou. — Por pouco tempo. As palavras saíram antes que ela pudesse filtrá-las. Uma mentira. Ou talvez uma verdade que ainda não estava pronta para admitir. Rafael afastou-se do balcão, dando um passo em sua direção. O movimento fez com que o espaço entre eles diminuísse, e Clara pôde sentir o cheiro dele—sabão, couro da jaqueta que ele usava no ombro, e algo mais profundo, algo que era só dele, um perfume que ela havia tentado esquecer em frascos de lavanda e lençóis frios. Ele estendeu a mão, hesitante, como se temesse que ela fosse desaparecer se a tocasse. — Posso? Ela assentiu, e os dedos dele roçaram os seus, leves como asas de mariposa. Um toque casual, quase inocente. Mas Clara sentiu o calor subir pelo braço, queimar a nuca, descer em espiral até o ventre. Rafael percebeu. Claro que percebeu. Os olhos dele escureceram, e por um instante, ela viu o mesmo fogo que costumava consumi-los anos atrás, quando as palavras eram desnecessárias e os corpos falavam por si. — Você está diferente — ele murmurou, ainda segurando sua mão. — Você não. Era verdade. Rafael sempre fora o tipo de homem que carregava o mundo nos ombros sem parecer pesado. A confiança dele era silenciosa, uma força que não precisava de demonstração. Clara, por outro lado, sentia-se como um livro aberto com páginas arrancadas—fragmentada, incompleta. — Preciso de uma bebida — ela disse, puxando a mão devagar. Rafael não insistiu. Apenas seguiu-a com o olhar enquanto ela se aproximava do balcão, os quadris balançando levemente sob o vestido preto que moldava suas curvas. Ele sabia que ela estava ciente de seus olhos sobre ela. Sabia que ela gostava disso. — Uísque — ela pediu ao barman, sem olhar para trás. — Duplo? — Triplo. Rafael riu baixinho, aproximando-se novamente. Dessa vez, não havia hesitação. Ele se colocou ao lado dela, os corpos quase se tocando, e pediu uma cerveja. — Ainda bebe como se estivesse tentando afogar alguma coisa — ele comentou, os lábios perto demais do ouvido dela. Clara virou o rosto, os narizes quase se roçando. — E você ainda fala como se soubesse de tudo. — Não sei de tudo. Mas sei que você nunca conseguiu mentir para mim. O barman deslizou o copo em sua direção. Clara o agarrou, os dedos tremendo levemente, e tomou um gole longo, sentindo o líquido queimar a garganta. Rafael observava cada movimento, cada sombra que passava pelo rosto dela. — Por que voltou, Clara? Ela poderia ter mentido. Poderia ter dito que era por trabalho, por família, por qualquer coisa que não fosse a verdade. Mas as palavras morreram na ponta da língua quando ele estendeu a mão novamente, dessa vez para afastar uma mecha de cabelo que caía sobre seu rosto. O gesto foi tão íntimo, tão familiar, que ela fechou os olhos por um segundo. — Não sei. Rafael não respondeu. Apenas inclinou-se mais, até que seus lábios estivessem a um fio de cabelo dos dela. — Eu sei. E então, antes que ela pudesse reagir, ele se afastou, deixando-a com a sensação de que havia sido beijada e abandonada no mesmo instante. O bar pareceu girar. Clara agarrou-se ao balcão, o coração batendo tão forte que tinha certeza de que ele podia ouvir. — Vai chover mais forte — ele disse, olhando pela janela, onde os relâmpagos riscavam o céu como cicatrizes. — Você tem onde ficar? Clara hesitou. O apartamento que alugara temporariamente ficava a apenas algumas quadras dali, mas a ideia de ficar sozinha naquela noite, com a lembrança dele tão viva na pele, era insuportável. — Sim. — Mentira. Ela não negou. Rafael pegou a jaqueta do encosto da cadeira e a estendeu sobre os ombros dela. O gesto foi tão natural que Clara quase chorou. — Vamos. — Para onde? Ele sorriu, aquele sorriso lento e perigoso que ela conhecia tão bem. — Para algum lugar onde a gente não precise fingir que não quer a mesma coisa. E antes que ela pudesse responder, Rafael entrelaçou os dedos nos dela e a puxou para fora do bar, para a tempestade que já começava a desabar sobre a cidade. A chuva caía em cortinas grossas, transformando as ruas em rios escuros. Rafael puxou Clara pela mão, os dedos entrelaçados como se temessem se soltar, e ela o seguiu sem resistência, o calor do corpo dele atravessando a jaqueta que ainda cobria seus ombros. Os trovões rugiam acima deles, abafando o som dos passos apressados sobre a calçada molhada. O vento chicoteava os cabelos de Clara contra o rosto, mas ela não se importava—só conseguia sentir o peso do olhar dele, mesmo quando não o encarava. O prédio surgiu à frente, uma construção antiga de fachada descascada, com uma porta de ferro rangente. Clara procurou as chaves no bolso do vestido, os dedos tremendo levemente. Rafael não soltou sua mão enquanto ela destrancava a porta, e quando finalmente entraram, o silêncio do apartamento vazio os envolveu como um manto. Apenas o som da chuva batendo contra as janelas e o zumbido distante de um poste de luz quebrado preenchiam o espaço. — Não tem luz? — ele perguntou, fechando a porta atrás de si. — Só as velas — ela respondeu, apontando para a mesa de centro, onde três velas brancas já queimavam, lançando sombras dançantes pelas paredes nuas. Rafael soltou a mão dela e caminhou até o centro da sala, observando o ambiente com curiosidade. O apartamento era pequeno, quase espartano: um sofá gasto, uma estante vazia, uma mesa com papéis espalhados—manuscritos inacabados, anotações rabiscadas às pressas. No canto, um piano vertical, coberto por um lençol branco, parecia esperar. — Você ainda toca? — Clara perguntou, tirando a jaqueta e pendurando-a no cabide ao lado da porta. Ele se virou, as mãos nos bolsos da calça jeans, os olhos escuros refletindo a luz bruxuleante das velas. — Às vezes. Quando a música não me sufoca. Ela entendeu o que ele não disse. *Quando não lembro de você.* Clara se aproximou da janela, observando a tempestade lá fora. A chuva escorria pelo vidro como lágrimas, e por um momento, desejou que pudesse lavar também o que restava entre eles—o que não fora dito, o que fora deixado para trás. Rafael parou atrás dela, perto o suficiente para que ela sentisse o calor do corpo dele, mas sem tocá-la. — Você sumiu — ele murmurou, a voz baixa, quase engolida pelo som da tempestade. — Eu precisei. — Por quê? Ela fechou os olhos. *Porque doía demais. Porque cada vez que eu olhava para você, via tudo o que não poderíamos ter.* — Não sei se consigo explicar. — Tente. Clara se virou, encontrando o olhar dele. Os anos haviam deixado marcas sutis em Rafael—linhas finas ao redor dos olhos, uma barba por fazer que lhe dava um ar mais maduro, mais perigoso. Mas os olhos eram os mesmos: escuros, intensos, capazes de desarmá-la com um único olhar. — Eu não sabia como ficar — ela admitiu. — Cada palavra que a gente trocava depois daquela noite… era como se estivéssemos rasgando a mesma ferida, de novo e de novo. Rafael respirou fundo, como se as palavras dela tivessem atingido algo dentro dele. — E agora? — Agora… — Clara hesitou, mordendo o lábio inferior. — Agora eu não sei se consigo ir embora de novo. Ele não respondeu de imediato. Em vez disso, estendeu a mão e afastou uma mecha de cabelo úmido do rosto dela, os dedos roçando sua bochecha. Clara prendeu a respiração. — Você ainda cheira a jasmim — ele murmurou. Ela riu, um som baixo e trêmulo. — Você ainda faz isso. — O quê? — Dizer coisas que me deixam sem ar. Rafael sorriu, mas seus olhos não acompanharam o gesto. Havia algo mais ali, algo que Clara não conseguia decifrar—medo, talvez, ou a mesma incerteza que a consumia. — Você mudou — ele disse, finalmente. — Antes, você falava demais. Agora, parece que cada palavra é medida. — E você? — ela retrucou. — Ainda foge quando as coisas ficam sérias? Ele não respondeu. Em vez disso, deu um passo para trás, como se precisasse de espaço para respirar. Clara sentiu o frio da ausência dele imediatamente, como se o calor do corpo de Rafael fosse a única coisa que a mantinha de pé. — Eu não fugi — ele disse, depois de um longo silêncio. — Eu só… não sabia como ficar. Ela cruzou os braços, como se pudesse se proteger da vulnerabilidade que as palavras dele despertavam. — E agora sabe? Rafael não respondeu. Em vez disso, caminhou até o piano e puxou o lençol que o cobria, revelando as teclas amareladas pelo tempo. Passou os dedos sobre elas, como se testasse a resistência do instrumento. — Você lembra daquela noite? — ele perguntou, sem olhar para ela. — No estúdio da faculdade, depois da apresentação? Clara sentiu o estômago se contrair. *Como poderia esquecer?* — Você tocou *Clair de Lune* para mim — ela disse, a voz suave. — E eu chorei. — Você sempre chorava quando eu tocava. — Não era só pela música. Ele finalmente a encarou, os dedos parando sobre as teclas. — Eu sei. O silêncio se estendeu entre eles, carregado de tudo o que não fora dito na época. Clara se aproximou, parando ao lado dele, perto o suficiente para sentir o cheiro de chuva e couro da jaqueta que ele ainda vestia. — Por que você nunca me procurou? — ela perguntou, a pergunta escapando antes que pudesse contê-la. Rafael fechou os olhos por um instante, como se as palavras o machucassem. — Porque eu sabia que, se te visse de novo, não ia conseguir te deixar ir. Clara sentiu o coração bater mais forte. *E agora? O que mudou?* Antes que pudesse perguntar, Rafael se virou para ela, os olhos escuros queimando com uma intensidade que a fez prender a respiração. — E você? — ele murmurou. — Por que nunca me procurou? Ela abriu a boca para responder, mas as palavras morreram na garganta. *Porque eu tinha medo. Porque eu não sabia se conseguiria sobreviver a você de novo.* Em vez disso, apenas balançou a cabeça, os lábios entreabertos, como se as palavras estivessem presas ali, sufocando-a. Rafael não esperou por uma resposta. Em um movimento rápido, segurou o rosto dela entre as mãos e a beijou—não com a urgência desesperada de antes, mas com uma lentidão torturante, como se quisesse memorizar cada detalhe. Clara gemeu contra os lábios dele, as mãos agarrando a camisa de Rafael, puxando-o para mais perto. Mas então, ele se afastou, deixando-a ofegante. — Eu não vim aqui para isso — ele disse, a voz rouca. — Não? — ela perguntou, o corpo ainda vibrando com o toque dele. Rafael passou os dedos pelos lábios dela, como se tentasse guardar o gosto. — Eu vim porque não aguentava mais a ideia de te perder de novo. Clara sentiu algo se quebrar dentro dela—uma barreira, um muro que ela mesma havia construído. Antes que pudesse responder, Rafael se afastou, caminhando até a janela, onde a chuva continuava a cair em torrentes. — Mas se a gente fizer isso — ele continuou, olhando para a tempestade —, não vai ter volta. Ela não respondeu. Em vez disso, se aproximou por trás dele, pressionando o corpo contra as costas de Rafael, os braços envolvendo sua cintura. Ele prendeu a respiração quando ela apoiou o queixo em seu ombro, os lábios roçando a orelha dele. — Eu não quero voltar — ela sussurrou. Rafael se virou, os olhos escuros brilhando com algo que Clara não conseguia decifrar—desejo, sim, mas também algo mais profundo, algo que a assustava e a atraía na mesma medida. — Tem certeza? Ela não respondeu com palavras. Em vez disso, segurou o rosto dele entre as mãos e o beijou de novo, desta vez com uma fome que não deixava espaço para dúvidas. E quando Rafael a puxou para mais perto, as mãos deslizando pelas costas dela, Clara soube que não havia mais como voltar atrás. O apartamento alugado por Clara era pequeno, mas aconchegante—paredes claras, móveis simples, um piano vertical encostado na parede oposta à janela, como se alguém o tivesse colocado ali apenas para preencher um espaço vazio. Rafael parou diante dele, passando os dedos pelas teclas em um acorde dissonante, quase casual, como se testasse a resistência do instrumento. O som ecoou pela sala, misturando-se ao tamborilar da chuva no vidro. — Você ainda toca? — Clara perguntou, a voz baixa, quase engolida pelo silêncio que se seguiu. Ele não respondeu de imediato. Apenas inclinou a cabeça, como se escutasse algo além das notas soltas, algo que só ele conseguia ouvir. Então, sem pressa, sentou-se no banco, ajustando a altura com um movimento preciso. As mãos pousaram sobre as teclas, os dedos longos e ágeis, acostumados a comandar sons. — Às vezes — murmurou, e o primeiro acorde ressoou, profundo, vibrando no peito de Clara como um segundo batimento cardíaco. Ela se aproximou devagar, os pés descalços sobre o piso frio, e sentou-se ao lado dele, tão perto que o tecido da calça dele roçava na sua perna. O piano era estreito, feito para uma pessoa, e o espaço entre eles se tornou uma fronteira tênue, um limite que ambos sabiam que poderiam cruzar a qualquer momento. Rafael começou a tocar algo lento, melancólico, uma melodia que Clara não reconheceu, mas que parecia feita de memórias—de noites em apartamentos emprestados, de risos abafados entre lençóis, de promessas sussurradas e depois esquecidas. As notas subiam e desciam, como um fôlego preso, e ela sentiu o calor do corpo dele irradiando, misturando-se ao seu próprio. — Isso é novo — ela disse, a voz quase um sussurro. — É. — Ele não olhou para ela, os olhos fixos nas teclas, mas havia um sorriso mínimo nos lábios. — Comecei a compor depois que você foi embora. A frase pairou no ar, carregada de significados não ditos. Clara engoliu em seco, sentindo o peso daquelas palavras como uma carícia áspera. Ela queria perguntar *por que não me procurou?*, mas sabia que a resposta já estava ali, nas notas que ele tocava, no jeito como seus dedos pressionavam as teclas com uma intensidade quase violenta. Em vez disso, deixou que a música a envolvesse, fechando os olhos por um instante. O som era denso, cheio de camadas, como se cada nota carregasse uma confissão. Quando abriu os olhos novamente, viu que Rafael a observava de soslaio, os lábios entreabertos, a respiração levemente acelerada. — Você lembra daquela noite em Ouro Preto? — ele perguntou, a voz rouca. Clara não precisou pensar. A lembrança veio nítida, como se o tempo não tivesse passado: o quarto de pensão com cheiro de madeira antiga, a chuva batendo no telhado de zinco, Rafael tocando *Clair de Lune* no piano da sala de jantar, enquanto ela, bêbada de vinho e saudade, dançava descalça no meio do cômodo. Ele tinha parado de tocar no meio da música, olhando para ela com uma expressão que ela nunca esquecera—algo entre adoração e fome. — Lembro — ela respondeu, e sua voz saiu mais baixa do que pretendia. Rafael sorriu, um sorriso lento, perigoso. As mãos continuaram a se mover sobre as teclas, mas a melodia mudou, tornando-se mais urgente, mais íntima. Era como se ele estivesse tocando apenas para ela, como se cada nota fosse um convite. — Você ainda dança? — ele perguntou, os dedos deslizando para as notas mais agudas, leves, quase provocantes. Clara sentiu o corpo responder antes mesmo de a mente processar a pergunta. Um arrepio percorreu sua espinha, e ela se inclinou levemente para frente, os lábios quase roçando o ombro dele. — Só quando vale a pena — murmurou. Rafael parou de tocar de repente, as mãos pairando sobre as teclas. O silêncio que se seguiu foi tão carregado que Clara pôde ouvir o próprio coração batendo, acelerado, descompassado. Ele se virou para ela, os olhos escuros brilhando sob a luz fraca do abajur, e por um momento, nenhum dos dois se moveu. Então, lentamente, ele ergueu uma mão e tocou o rosto dela, os dedos traçando a linha da mandíbula, o contorno dos lábios. Clara prendeu a respiração, sentindo o calor da pele dele contra a sua, a aspereza leve das pontas dos dedos. — Vale a pena? — ele perguntou, a voz tão baixa que era quase um sussurro. Ela não respondeu. Em vez disso, segurou a mão dele e a guiou para baixo, pressionando-a contra seu pescoço, onde a pulsação latejava, selvagem. Rafael fechou os olhos por um instante, como se saboreasse a sensação, e quando os abriu novamente, havia algo primitivo neles, algo que fez Clara se aproximar ainda mais, até que seus joelhos se tocaram. — Toque para mim — ela pediu, a voz trêmula. — Como naquela noite. Ele não precisou de mais incentivo. As mãos voltaram ao piano, mas desta vez a música era diferente—mais intensa, mais urgente, como se ele estivesse tentando dizer tudo o que não podia colocar em palavras. Clara se levantou devagar, os pés descalços sobre o piso frio, e começou a se mover. Não era uma dança ensaiada, nada do que se vê em filmes ou em espetáculos. Era algo mais cru, mais verdadeiro—o balanço dos quadris, o arquear das costas, os braços se erguendo como se ela estivesse tentando alcançar algo que só existia na memória. Rafael a observava enquanto tocava, os olhos nunca deixando os dela, e Clara podia sentir o desejo dele como uma corrente elétrica, queimando entre os dois. A música se tornou mais rápida, mais apaixonada, e Clara se aproximou do piano, apoiando as mãos na tampa de madeira, inclinando-se para frente até que seus lábios estivessem a centímetros dos dele. — Você ainda sabe o que eu gosto — ela murmurou, a voz rouca. Rafael parou de tocar de novo, as mãos pairando no ar. O silêncio que se seguiu foi tão denso que Clara pôde ouvir a própria respiração, rápida e superficial. — Eu nunca esqueci — ele disse, e então, sem aviso, puxou-a para si. O banco do piano rangeu sob o peso dos dois, e Clara se viu sentada no colo dele, as pernas abertas ao redor de sua cintura, as mãos dele segurando seus quadris com uma firmeza que a fez gemer. Ela podia sentir a ereção dele pressionando contra ela, mesmo através das camadas de roupa, e o conhecimento de que ele a desejava tanto quanto ela o desejava a deixou tonta. — Rafael... — ela sussurrou, o nome dele saindo como uma prece. Ele não respondeu. Em vez disso, enterrou o rosto no pescoço dela, os lábios quentes contra a pele sensível, os dentes roçando de leve. Clara arqueou as costas, as mãos se enroscando nos cabelos dele, puxando-o para mais perto, como se quisesse fundir os dois corpos em um só. — Eu esperei tanto tempo por isso — ele murmurou contra a pele dela, a voz abafada, carregada de algo que soava como desespero. Clara sentiu as lágrimas queimarem nos olhos, mas não deixou que caíssem. Em vez disso, segurou o rosto dele entre as mãos e o beijou, com uma fome que vinha de anos de silêncio, de noites solitárias, de palavras não ditas. E quando Rafael a puxou para mais perto, as mãos deslizando por baixo da blusa dela, Clara soube que não havia mais volta. O piano, a chuva, o mundo lá fora—nada disso importava mais. Só existiam eles, o calor dos corpos, o gosto dos lábios, e a promessa tácita de que, desta vez, não deixariam nada para depois. A respiração de Rafael estava quente contra a clavícula de Clara, o hálito misturado ao cheiro de uísque e algo mais primitivo, algo que vinha de dentro dele e a envolvia como uma promessa. As mãos dele, antes pousadas com cuidado sobre os quadris dela, agora apertavam com uma urgência que não admitia recuos. Clara sentiu o peso do corpo dele contra o seu, o piano ainda vibrando em notas soltas sob os dedos ágeis, mas a música já não importava. O mundo havia se reduzido àquele espaço entre eles, ao atrito das roupas, ao som abafado da chuva batendo contra as janelas como se o próprio céu estivesse tentando entrar. — Clara — ele murmurou, e o nome dela saiu como um aviso, como se ele estivesse prestes a perder o controle. Os lábios dele roçaram o lóbulo da orelha dela, depois desceram pelo pescoço, deixando um rastro de fogo onde tocavam. — Eu não consigo mais. Ela deveria ter dito algo. Deveria ter encontrado palavras para frear aquilo, para dar nome ao que estava acontecendo, mas a verdade era que ela também não queria mais resistir. Anos de silêncio, de olhares roubados em corredores de faculdade, de noites em que se deitou imaginando como seria se ele tivesse ficado, se ela tivesse tido coragem de pedir. Agora, ali, com as mãos dele subindo pela sua cintura, puxando-a para mais perto, Clara só conseguia pensar em como era bom sentir aquele desejo cru, sem filtros, sem mentiras. — Então não espere — ela respondeu, a voz rouca, quase irreconhecível. Rafael não precisou de mais nada. Os lábios dele encontraram os dela em um beijo que não era suave, nem paciente. Era voraz, como se ele estivesse tentando devorá-la, como se quisesse absorver cada suspiro, cada gemido, cada pedaço dela que havia sido negado por tanto tempo. Clara correspondeu com a mesma fome, as mãos agarrando os ombros dele, as unhas cravando-se na camisa como se quisesse rasgá-la. O tecido cedeu sob seus dedos, e ela não se importou. O som das costuras se rompendo era música, era libertação. — Você não faz ideia do que eu queria fazer com você — ele sussurrou contra a boca dela, os dentes mordiscando o lábio inferior de Clara antes de voltar a beijá-la com ainda mais intensidade. As mãos dele deslizaram para baixo, puxando a blusa dela para cima, e Clara ergueu os braços sem hesitar, deixando que ele a despisse com uma urgência que a fez tremer. O ar frio do apartamento tocou sua pele nua, mas o calor do corpo de Rafael logo a envolveu novamente. Ele a empurrou contra o piano, as teclas protestando sob o peso dos dois, mas nenhum deles se importou. Os dedos dele percorriam suas costas, descendo até a curva dos quadris, apertando-a contra si de uma forma que não deixava dúvidas sobre o quanto ele a queria. Clara arqueou-se, sentindo a ereção dele pressionando contra sua coxa, e um gemido escapou de seus lábios. — Rafael… — ela murmurou, o nome dele uma súplica, uma confissão. Ele não respondeu com palavras. Em vez disso, os lábios dele desceram pelo pescoço dela, depois pelos seios, a língua traçando círculos lentos ao redor do mamilo antes de sugá-lo com uma intensidade que a fez gritar. Clara agarrou os cabelos dele, puxando-o para mais perto, como se quisesse fundir-se a ele ali mesmo. As mãos dele não paravam, explorando cada centímetro de sua pele, como se estivesse memorizando-a, como se quisesse gravar aquele momento em sua memória para sempre. — Eu sonhei com isso — ele admitiu, a voz rouca, os lábios roçando a pele dela enquanto falava. — Com você assim, entregue, sem medo. Clara sentiu as lágrimas queimando nos olhos, mas não eram de tristeza. Eram de alívio, de reconhecimento. Porque ela também tinha sonhado. Sonhado com as mãos dele, com a boca dele, com o jeito como ele a olhava como se ela fosse a única coisa que importava no mundo. E agora, ali, com os corpos entrelaçados, com a chuva batendo contra as janelas como uma cortina que os isolava do resto do mundo, ela sabia que não havia mais volta. — Eu também — ela confessou, as palavras saindo entrecortadas. — Toda noite, Rafael. Toda maldita noite. Ele gemeu contra a pele dela, como se as palavras tivessem acendido algo dentro dele. As mãos dele deslizaram para a cintura da calça dela, os dedos ágeis desabotoando o botão, puxando o zíper para baixo com uma urgência que a fez tremer. Clara ajudou, erguendo os quadris para que ele pudesse tirar a peça, deixando-a apenas de calcinha, exposta, vulnerável, mas sem medo. Porque ali, com ele, ela não precisava de defesas. Rafael se afastou por um segundo, apenas o suficiente para olhar para ela, para absorver cada detalhe do corpo de Clara sob a luz fraca do abajur. Os olhos dele estavam escuros, famintos, e o jeito como a observava fez com que ela se sentisse desejada de uma forma que ia além do físico. Era como se ele estivesse vendo todas as partes dela que ela havia escondido por tanto tempo. — Você é linda — ele murmurou, a voz carregada de algo que soava como adoração. — Tão linda que dói. Clara não conseguiu responder. Em vez disso, puxou-o para mais perto, beijando-o com uma paixão que vinha de anos de espera, de noites em que se perguntou se ele ainda pensava nela, se ainda a queria. As mãos dele deslizaram pelas coxas dela, puxando-a para a beirada do piano, e Clara sentiu a madeira fria contra suas costas, um contraste delicioso com o calor do corpo dele. — Eu preciso de você — ele sussurrou, os lábios roçando a orelha dela, a voz um gemido. — Agora. Clara não hesitou. As mãos dela desceram até a calça dele, desabotoando-a com uma pressa que refletia a urgência que sentia. Rafael ajudou, chutando os sapatos para longe, tirando a calça e a cueca em um movimento rápido, deixando-se tão exposto quanto ela. Clara o puxou para si, sentindo o peso do corpo dele contra o seu, a pele quente, os músculos tensos sob seus dedos. — Então me tenha — ela respondeu, a voz um sussurro rouco. E foi o que ele fez. Rafael a beijou novamente, com uma intensidade que a fez esquecer de respirar, enquanto as mãos dele deslizavam por baixo da calcinha dela, os dedos encontrando o ponto onde ela mais o queria. Clara gemeu contra a boca dele, as unhas cravando-se em seus ombros, o corpo arqueando-se em busca de mais. Ele não a fez esperar. Com um movimento rápido, tirou a última peça de roupa que os separava, e então estava ali, entre as pernas dela, a ponta do membro pressionando contra sua entrada com uma lentidão que era quase uma tortura. — Por favor — ela pediu, a voz quebrada. Rafael não precisou de mais incentivo. Com um movimento firme, ele a penetrou, preenchendo-a de uma forma que a fez gritar, os dedos agarrando-se aos ombros dele como se fosse a única coisa que a mantinha ancorada à realidade. Ele parou por um segundo, os olhos fechados, a respiração pesada, como se estivesse tentando se controlar. Mas Clara não queria controle. Ela queria paixão, queria entrega, queria tudo o que ele havia guardado por tanto tempo. — Não pare — ela sussurrou, erguendo os quadris, incentivando-o a continuar. E ele continuou. Os movimentos de Rafael eram profundos, ritmados, cada estocada arrancando um gemido dos lábios de Clara. Ela se agarrou a ele, as unhas marcando suas costas, os dentes mordiscando o ombro dele enquanto o prazer crescia dentro dela, uma onda que ameaçava engoli-la por completo. Rafael não parava, não desacelerava, como se estivesse determinado a fazê-la sentir cada segundo, cada centímetro, cada pedaço dele que a preenchia. — Clara… — ele murmurou, o nome dela uma prece, um aviso. Ela sentiu o corpo dele tensionar, os movimentos ficando mais rápidos, mais urgentes, e soube que ele estava perto. E então, com um gemido rouco, Rafael a beijou novamente, engolindo o grito dela quando o orgasmo a atingiu, uma explosão de prazer que a fez tremer, que a fez esquecer de tudo, exceto do corpo dele contra o seu, do calor, do suor, da sensação de que, finalmente, eles estavam exatamente onde deveriam estar. Rafael não parou. Continuou movendo-se dentro dela, prolongando o prazer, até que, com um último gemido, ele também chegou ao clímax, o corpo tremendo enquanto se entregava por completo. Clara o segurou, os braços envolvendo-o com força, como se não quisesse deixá-lo ir, como se temesse que, ao soltar, tudo aquilo pudesse desaparecer como um sonho. Por um longo momento, os dois ficaram ali, entrelaçados, a respiração pesada, os corações batendo em uníssono. A chuva ainda caía lá fora, mas o som parecia distante, como se o mundo tivesse parado de girar, como se só existisse aquele apartamento, aquele piano, aqueles corpos exaustos e saciados. Rafael ergueu a cabeça, os olhos encontrando os dela, e Clara viu nele algo que não via há anos: paz. Não era apenas o prazer físico, mas algo mais profundo, algo que vinha de saber que, finalmente, eles haviam encontrado o caminho de volta um para o outro. — Eu não vou embora de novo — ele prometeu, a voz rouca, mas firme. Clara sorriu, as lágrimas finalmente escorrendo, mas agora eram lágrimas de alívio, de felicidade. Ela segurou o rosto dele entre as mãos, beijando-o com uma ternura que contrastava com a paixão desesperada de minutos antes. — Eu sei — ela respondeu. E, naquele momento, com os corpos ainda entrelaçados, com a promessa de um futuro que finalmente parecia possível, Clara soube que eles não precisavam de mais palavras. O que havia entre eles estava além das frases não ditas, além dos anos de distância. Estava ali, na forma como se tocavam, na forma como se olhavam, na forma como, mesmo em silêncio, eles sempre haviam se entendido. Mas o amanhecer ainda estava longe, e a noite prometia mais. A chuva batia contra as janelas como se quisesse entrar, como se até ela soubesse que ali, entre aqueles lençóis embolados, algo estava sendo reescrito. Rafael segurou o rosto de Clara entre as mãos, os polegares traçando o contorno de suas maçãs do rosto, como se memorizasse cada detalhe antes de mergulhar de vez. Os lábios dele encontraram os dela novamente, mas agora não havia pressa—apenas a lentidão de quem sabe que o tempo, finalmente, está do seu lado. — Você é linda — ele murmurou contra a boca dela, a voz tão baixa que se perdeu no som da tempestade. — Tão linda que chega a doer. Clara fechou os olhos, sentindo o peso daquelas palavras não só nos ouvidos, mas na pele, como se cada sílaba fosse um toque. Ela passou as mãos pelos ombros dele, sentindo a tensão dos músculos sob os dedos, a forma como ele estremecia ao seu contato. Rafael era fogo e controle, uma combinação que sempre a deixara à beira do precipício. — Não pare — ela pediu, a voz falhando. — Não pense, só… sinta. Ele não precisou de mais incentivo. As mãos dele deslizaram pelo corpo dela, despindo-a com uma urgência que não era desespero, mas sim a necessidade de redescobrir cada curva, cada cicatriz, cada marca que o tempo havia deixado. A blusa de Clara caiu no chão, seguida pela calça, até que ela ficou apenas de lingerie preta, o tecido rendado contrastando com a palidez da pele iluminada pela luz fraca do abajur. Rafael se afastou por um segundo, apenas para admirá-la, os olhos escuros percorrendo cada centímetro exposto. Clara sentiu o calor do olhar dele como se fosse uma carícia, e um arrepio percorreu sua espinha. — Você não faz ideia do quanto eu esperei por isso — ele disse, a voz rouca. — Do quanto eu sonhei com você assim, só minha, de novo. Ela estendeu a mão, puxando-o de volta para si, os corpos colidindo com um suspiro mútuo. A boca dele encontrou o pescoço dela, beijando, mordiscando, enquanto as mãos exploravam as costas, os quadris, as coxas. Clara arqueou-se contra ele, sentindo a ereção pressionando contra seu ventre, dura e insistente. — Eu também sonhei — ela confessou, as unhas cravando-se nos ombros dele. — Mas a realidade é melhor. Rafael riu, um som baixo e gutural, antes de capturar os lábios dela novamente. Dessa vez, o beijo foi mais profundo, mais intenso, como se quisessem devorar um ao outro. As línguas se entrelaçaram, os dentes roçando levemente, e Clara sentiu o gosto dele misturado ao vinho que haviam bebido antes—amargo e doce, exatamente como ele sempre fora. As mãos dele encontraram o fecho do sutiã, e com um movimento hábil, o tecido se soltou. Clara não teve tempo de sentir vergonha ou hesitação; Rafael já estava inclinando-se para tomar um mamilo entre os lábios, chupando com uma pressão que a fez gemer alto. Ela enredou os dedos nos cabelos dele, puxando-o mais para perto, enquanto o prazer se espalhava em ondas pelo seu corpo. — Isso… — ela sussurrou, a voz trêmula. — Assim, por favor. Ele obedeceu, alternando entre os seios, lambendo, mordiscando, até que Clara sentisse que ia enlouquecer. Então, as mãos dele desceram, os dedos deslizando sob a renda da calcinha, encontrando-a já molhada, pronta. Rafael gemeu contra a pele dela, o som vibrando através dela como uma corrente elétrica. — Você está tão pronta para mim — ele murmurou, os lábios roçando o lóbulo da orelha dela. — Tão molhada, tão minha. Clara não conseguiu responder. As palavras morreram na garganta quando ele começou a acariciá-la, os dedos deslizando com uma precisão que a fez arquear as costas, os quadris buscando mais contato. Ela mordeu o lábio inferior, tentando conter os gemidos, mas Rafael não permitiu. — Não se contenha — ele ordenou, a voz firme. — Quero ouvir você. Quero saber que é real. E então ela deixou escapar, um som entre um suspiro e um gemido, enquanto ele a tocava exatamente do jeito que ela precisava. Os dedos dele circulavam, pressionavam, exploravam, até que Clara sentiu o corpo inteiro tensionar, a respiração ficando mais rápida, mais superficial. — Rafael… — ela gemeu, o nome dele uma súplica. Ele não parou. Em vez disso, inclinou-se para beijá-la novamente, engolindo os sons que ela fazia, enquanto continuava a acariciá-la até que o orgasmo a atingisse com força. Clara gritou contra a boca dele, o corpo tremendo, as unhas cravando-se nas costas de Rafael enquanto as ondas de prazer a atravessavam. Quando finalmente voltou a si, ela o encontrou olhando para ela com um sorriso satisfeito, os lábios inchados pelos beijos, os olhos escuros brilhando de desejo. — Isso foi só o começo — ele prometeu, a voz carregada de promessas. Clara não teve tempo de responder. Rafael já estava tirando a calcinha dela, deslizando-a pelas pernas com uma lentidão torturante, antes de se ajoelhar entre as coxas dela. Os olhos dele encontraram os dela, uma pergunta silenciosa, e Clara assentiu, as bochechas corando. — Eu quero sentir você — ela disse, a voz quase um sussurro. Ele não precisou de mais nada. Os lábios dele encontraram o centro dela, a língua deslizando com uma precisão que a fez arquear as costas, as mãos agarrando os lençóis. Rafael sabia exatamente como tocá-la, como levá-la ao limite e depois recuar, prolongando o prazer até que Clara sentisse que ia explodir. — Por favor… — ela implorou, os quadris se movendo contra a boca dele. — Por favor, não pare. Ele riu, um som baixo e vibrante contra a pele dela, antes de aumentar a pressão, a língua trabalhando em círculos enquanto os dedos a penetravam lentamente. Clara sentiu o segundo orgasmo se aproximando, mais intenso que o primeiro, e quando ele finalmente a atingiu, ela gritou, o corpo todo tremendo enquanto as ondas de prazer a atravessavam. Rafael não deu trégua. Ele se levantou, os lábios brilhando com os vestígios dela, e começou a se despir, os olhos nunca deixando os dela. Clara observou, hipnotizada, enquanto ele tirava a camisa, revelando o peito musculoso, as tatuagens que ela conhecia tão bem. Então vieram as calças, e quando ele ficou nu diante dela, Clara sentiu a boca secar. Ele era lindo. Sempre fora, mas agora, com a luz do abajur lançando sombras sobre a pele, com o desejo evidente em cada linha do corpo, ele era irresistível. — Venha aqui — ela pediu, estendendo a mão. Rafael não hesitou. Ele se deitou sobre ela, o peso do corpo dele pressionando-a contra o colchão, e Clara sentiu a ereção dele roçando contra sua coxa. Ela envolveu as pernas ao redor dos quadris dele, puxando-o para mais perto, até que ele estivesse exatamente onde ela o queria. — Eu preciso de você — ela sussurrou, os lábios roçando a orelha dele. — Agora. Rafael não precisou de mais incentivo. Ele se posicionou entre as pernas dela, os olhos fixos nos dela enquanto entrava lentamente, centímetro por centímetro, até que estivesse completamente dentro. Clara gemeu, o corpo se ajustando ao dele, a sensação de plenitude quase demais para suportar. — Você é tão apertada — ele murmurou, os lábios encontrando os dela. — Tão perfeita. Ele começou a se mover, primeiro devagar, cada estocada profunda e deliberada. Clara envolveu os braços ao redor do pescoço dele, os quadris acompanhando o ritmo, enquanto os corpos se moviam em sincronia. A chuva lá fora parecia acompanhar o ritmo deles, batendo contra as janelas em uma cadência que ecoava os gemidos abafados, os suspiros entrecortados. — Mais rápido — ela pediu, a voz rouca. — Por favor. Rafael obedeceu, aumentando o ritmo, as estocadas ficando mais fortes, mais urgentes. Clara sentiu o prazer se construindo novamente, mais intenso, mais avassalador, e quando ele a atingiu, foi como se o mundo inteiro explodisse ao redor deles. Ela gritou, o corpo arqueando-se contra o dele, enquanto Rafael a seguia, os movimentos ficando erráticos até que ele também gozasse, enterrando o rosto no pescoço dela enquanto murmurava o nome dela como uma prece. Por um longo momento, eles ficaram assim, entrelaçados, os corpos suados e saciados, a respiração voltando ao normal. A chuva continuava a cair, mas agora parecia mais suave, como se até ela estivesse satisfeita. Rafael rolou para o lado, puxando Clara para junto de si, os corpos ainda conectados de alguma forma. Ele beijou a testa dela, os lábios demorando-se na pele úmida. — Eu não quero que isso acabe — ele confessou, a voz baixa. Clara sorriu, aninhando-se contra ele. — Então não acabe. E, naquele momento, com a noite ainda longa pela frente, com a promessa de mais horas entrelaçados, Clara soube que eles tinham todo o tempo do mundo. Mas o amanhecer ainda estava por vir, e com ele, novas perguntas, novas possibilidades. Por enquanto, porém, havia apenas o calor dos corpos, o som da chuva, e o silêncio confortável de quem finalmente encontrou o caminho de volta. A primeira luz da manhã se infiltrou pelas frestas da cortina, fina como um véu, desenhando listras douradas sobre os corpos ainda entrelaçados. Clara acordou devagar, como se emergisse de um sonho profundo, mas o peso do braço de Rafael sobre sua cintura e o calor de sua respiração contra a nuca eram reais demais para serem ilusão. Ela fechou os olhos novamente, saboreando a quietude, o cheiro de suor seco e sexo misturado ao aroma cítrico do sabonete que ele usara na noite anterior. A chuva havia parado, mas o ar ainda guardava a umidade da madrugada, pesada e doce. Rafael se mexeu atrás dela, os lábios roçando a curva de seu ombro em um beijo lento, preguiçoso. Sua mão, antes imóvel, deslizou pela barriga dela, dedos traçando círculos preguiçosos sobre a pele ainda sensível. — Você está acordada — ele murmurou, a voz rouca de sono e satisfação. Clara sorriu, virando-se para encará-lo. O rosto dele estava marcado pelas sombras da noite—olheiras leves, a barba por fazer, os lábios ligeiramente inchados. Ela ergueu a mão e tocou a boca dele, sentindo o calor úmido de sua respiração contra a ponta dos dedos. — Como você sabe? — Porque você prende a respiração quando finge dormir — ele respondeu, puxando-a para mais perto, até que seus corpos se encaixassem perfeitamente. — E porque eu conheço cada som que você faz. Ela riu baixinho, o som se perdendo entre eles. Rafael aproveitou para capturar seus lábios em um beijo lento, profundo, como se tivessem todo o tempo do mundo. E, de certa forma, tinham. Não havia pressa, não havia nada além do agora, do toque das peles, do gosto salgado da manhã nos lábios um do outro. — Eu sonhei com você — ela confessou, quando ele se afastou apenas o suficiente para respirar. — Ah, é? — Ele arqueou uma sobrancelha, os olhos escuros brilhando com curiosidade. — Com o que exatamente? Clara mordeu o lábio, sentindo o rubor subir pelo pescoço. Não era vergonha, mas algo mais profundo, uma vulnerabilidade que só ele conseguia arrancar dela. — Com isso — ela admitiu, passando a mão pelo peito dele, descendo devagar até o quadril. — Com a gente. Só que no sonho era diferente. A gente estava em um lugar que não existia, uma casa antiga, cheia de livros e pianos, e você tocava para mim enquanto eu escrevia. E de repente, você parava de tocar e vinha até mim, e… — E? — Rafael incentivou, a voz baixa, quase um sussurro. — E você me beijava como se fosse a última vez — ela completou, os dedos agora traçando o contorno da coxa dele, sentindo os músculos se contraírem sob o toque. — Como se não houvesse amanhã. Ele não disse nada por um momento, apenas a observou com uma intensidade que a fez tremer. Então, com um movimento suave, rolou sobre ela, prendendo-a entre os lençóis e o peso de seu corpo. Clara arqueou as costas instintivamente, sentindo a ereção matinal dele pressionar contra seu ventre. — E se eu te dissesse que não foi um sonho? — ele perguntou, os lábios roçando a orelha dela enquanto falava. — Que eu também pensei nisso a noite toda? Em como seria acordar assim, com você, todos os dias? Ela fechou os olhos, sentindo o coração acelerar. Não era só desejo—era algo mais, algo que ela não ousava nomear ainda, mas que pulsava entre eles com a mesma intensidade da paixão da noite anterior. — Eu diria que você está louco — ela respondeu, mas a voz saiu fraca, traída pela emoção. Rafael sorriu, um sorriso lento e perigoso, antes de capturar seus lábios novamente. Desta vez, o beijo foi diferente—mais lento, mais profundo, como se ele quisesse memorizar cada detalhe, cada respiração, cada suspiro. As mãos dele deslizaram pelo corpo dela, relembrando curvas, redescobrindo lugares que já conheciam de cor, mas que agora pareciam novos. Clara gemeu contra a boca dele quando os dedos encontraram o ponto entre suas pernas, já úmido e pronto. Rafael não teve pressa—deslizou um dedo para dentro dela devagar, depois outro, observando as reações dela como se fosse a primeira vez. Ela arqueou as costas, as unhas cravando-se nos ombros dele, e ele sorriu contra a pele de seu pescoço. — Você é linda assim — ele murmurou, a voz rouca. — Toda entregue, toda minha. Ela não respondeu com palavras. Em vez disso, puxou-o para mais perto, guiando-o para dentro dela com um movimento dos quadris. Os dois gemeram ao mesmo tempo quando ele a preencheu completamente, os corpos se movendo em um ritmo antigo, conhecido, mas que ainda tinha o poder de surpreender. Desta vez, não havia pressa. Não havia a urgência da noite anterior, a necessidade desesperada de se perderem um no outro. Agora, era diferente—era lento, deliberado, como se cada movimento fosse uma promessa. Rafael se apoiou nos cotovelos, olhando nos olhos dela enquanto se movia, e Clara sentiu algo se quebrar dentro de si, algo que ela havia mantido trancado por muito tempo. — Eu te amo — ela sussurrou, as palavras escapando antes que pudesse detê-las. Rafael parou por um segundo, os olhos escuros fixos nos dela. Então, com um gemido rouco, ele se inclinou e capturou seus lábios em um beijo que parecia conter todas as palavras que ele não conseguia dizer. Quando se afastou, sua respiração estava irregular, os músculos tensos. — Eu também te amo — ele confessou, a voz quebrada. — Nunca parei. E então eles se moveram juntos, mais rápido agora, como se as palavras tivessem acendido algo dentro deles. Clara sentiu o orgasmo se aproximar como uma onda, lenta e inevitável, e quando finalmente a atingiu, foi com uma intensidade que a deixou sem ar. Rafael a seguiu logo depois, enterrando o rosto no pescoço dela enquanto murmurava seu nome, o corpo tremendo com a força do prazer. Por um longo tempo, ficaram ali, entrelaçados, os corpos suados e saciados, a respiração voltando ao normal. A luz da manhã agora inundava o quarto, banhando tudo em um brilho dourado. Rafael rolou para o lado, puxando Clara para junto de si, e ela se aninhou contra ele, sentindo o batimento do coração dele contra o seu. — O que a gente faz agora? — ela perguntou, a voz suave. Rafael beijou o topo de sua cabeça, os dedos brincando com os fios de cabelo dela. — Agora a gente vive — ele respondeu, simples. — Sem pressa, sem medo. Só a gente. Clara sorriu, fechando os olhos. Não precisava de mais nada. Não naquele momento. Porque, pela primeira vez em muito tempo, ela sentia que tinha tudo o que precisava—o calor dele, o som de sua respiração, a promessa de um futuro que, finalmente, parecia possível. E quando Rafael a puxou para mais um beijo, lento e doce, ela soube que, não importava o que viesse pela frente, eles enfrentariam juntos. Porque agora, entre lençóis e palavras não ditas, eles haviam encontrado um ao outro novamente. E dessa vez, não soltariam.

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