Entre Lençóis e Mentiras

TraiçãoPor Tonkix7 leituras
Entre Lençóis e Mentiras
**Entre Lençóis e Mentiras** O salão de festas do Grand Hotel Miramar respirava opulência sob a luz dourada dos lustres de cristal. As paredes, revestidas de seda champagne, refletiam o brilho das taças de champanhe que tilintavam nas mãos de convidados vestidos a rigor, enquanto o murmúrio das conversas se misturava ao som suave de um quarteto de cordas. O ar carregava o perfume caro de rosas brancas dispostas em arranjos imponentes e o aroma discreto de cigarros cubanos, fumados em pequenos grupos perto das janelas abertas para a noite carioca. Lara ajustou o decote do vestido de seda preta, um modelo que abraçava suas curvas com a precisão de uma segunda pele. O tecido, leve como uma carícia, deslizava entre seus dedos enquanto ela alisava a saia, sentindo o peso do olhar de alguém sobre si. Não precisava se virar para saber que era observada—sempre fora assim. Aos trinta e quatro anos, seu corpo ainda guardava a memória dos olhares famintos, mesmo depois de cinco anos de casamento. O anel de diamante no dedo anular esquerdo brilhava sob a luz, um lembrete silencioso de que aquela noite não era para ela. — Lara Vasconcelos? Não acredito. A voz era grave, familiar, e carregava o mesmo tom de provocação que ela lembrava dos corredores da faculdade. Virou-se devagar, como se o tempo pudesse se esticar entre um movimento e outro, e encontrou Daniel. Ele estava mais alto do que em suas lembranças, os ombros largos preenchendo o terno cinza-chumbo com uma elegância despojada. Os cabelos escuros, antes rebeldes, agora estavam penteados para trás, revelando uma testa alta e olhos verdes que pareciam absorver a luz ao redor. O sorriso era o mesmo—lento, confiante, como se soubesse de um segredo que ela ainda não havia descoberto. — Daniel Costa — ela disse, e o nome escapou de seus lábios como um suspiro. — Faz quanto tempo? — Seis anos, três meses e... — ele fez uma pausa, fingindo calcular — uns dezessete dias. Mas quem está contando? Lara riu, surpresa com a precisão. Ou talvez não. Daniel sempre fora assim: meticuloso nas coisas que importavam. Ela se lembrou das noites em que ele decorava datas de provas, aniversários de colegas, até mesmo o dia em que ela havia cortado o cabelo pela primeira vez. "Para nunca esquecer", ele dizia, enquanto passava os dedos pelas mechas curtas, como se pudesse memorizar cada fio. — Você está linda — ele murmurou, aproximando-se o suficiente para que ela sentisse o calor de seu corpo, mas sem invadir seu espaço. — O casamento te fez bem. Ela ergueu o queixo, desafiando-o a dizer mais. O elogio era perigoso, carregado de algo que não era apenas cortesia. Daniel sabia disso. Lara também. — E você? — devolveu, deixando os olhos percorrerem o terno impecável, os sapatos italianos, a pulseira de couro no pulso esquerdo, um detalhe que destoava da formalidade. — Empresário, pelo que ouvi dizer. — Ouviu certo. — Ele estendeu a mão, como se fosse tocar seu braço, mas mudou de ideia no último segundo, pegando uma taça de champanhe da bandeja de um garçom que passava. — Negócios imobiliários. Nada tão glamoroso quanto parece. Ela aceitou a taça que ele ofereceu, os dedos roçando nos dele por um segundo a mais do que o necessário. O contato enviou um arrepio pela sua espinha, rápido como um relâmpago. — E seu marido? — Daniel perguntou, levando a taça aos lábios. — Não veio? Lara tomou um gole do champanhe, deixando as bolhas explodirem na língua antes de responder. — Ricardo teve uma reunião de última hora. Ele manda lembranças. Era mentira. Ricardo havia dito que não queria "perder tempo em festas chatas", mas Lara não estava com disposição para explicar isso a Daniel. Não quando seus olhos verdes a observavam com aquela intensidade que sempre a deixava sem ar. — Que pena — ele murmurou. — Eu gostaria de revê-lo. — Duvido — ela retrucou, sorrindo. — Você nunca gostou dele. Daniel riu, um som baixo e rouco que fez o estômago de Lara se contrair. — Não era ele o problema, Lara. Era o fato de que você escolheu ele. O salão pareceu girar por um instante. Ela sabia que não deveria morder a isca, mas as palavras escaparam antes que pudesse detê-las. — E o que você teria feito de diferente? Ele se inclinou, o hálito quente contra sua orelha enquanto sussurrava: — Eu teria te levado embora antes que você tivesse tempo de escolher. O coração de Lara disparou. Ela recuou um passo, precisando de espaço, mas Daniel não a soltou. Não com os olhos. Ele a prendia ali, naquele jogo antigo de sedução e desafio, como se os anos não tivessem passado. Como se ela ainda fosse a garota que tremia quando ele a encostava contra a parede do estacionamento da faculdade, as mãos percorrendo seu corpo com uma urgência que beirava a violência. — Você sempre foi bom com as palavras — ela disse, tentando soar leve, mas sua voz saiu rouca. — E você sempre foi péssima em resistir a elas. Um silêncio se instalou entre eles, carregado de tudo o que não era dito. Lara olhou ao redor, buscando algo—qualquer coisa—que a distraísse daquela corrente elétrica que parecia conectá-los. Viu casais dançando ao som de uma valsa lenta, mulheres rindo com as cabeças inclinadas, homens trocando apertos de mão e olhares cúmplices. Nada daquilo parecia real. Nada, exceto Daniel. — Vamos dançar? — ele perguntou, estendendo a mão. Ela hesitou. A última vez que haviam dançado juntos foi em uma festa de formatura, quando ele a puxou para um canto escuro e a beijou até que seus lábios ficassem inchados. Lara ainda se lembrava do gosto de vodca e menta em sua boca, da maneira como ele a segurava como se ela fosse algo precioso e frágil. — Não acho que seja uma boa ideia — ela disse, mas não se afastou. — Desde quando você se importa com boas ideias? Antes que pudesse responder, ele a puxou pela cintura, guiando-a para o centro do salão. Lara deveria ter protestado, mas o toque de Daniel era hipnótico, e seus pés se moveram por conta própria. Quando ele a girou, o vestido rodou ao seu redor como uma onda escura, e ela sentiu o tecido roçar nas coxas, uma sensação quase indecente. — Você ainda cheira a jasmim — ele murmurou, os lábios quase tocando sua têmpora. Lara fechou os olhos por um segundo, deixando o perfume do champanhe, o calor do corpo dele e o som da música se misturarem em uma memória que não era bem uma lembrança, mas algo mais perigoso: um desejo. — E você ainda mente muito bem — ela respondeu, abrindo os olhos para encontrar os dele. Daniel sorriu, lento e perigoso. — Quem disse que estou mentindo? A música mudou, e eles pararam de dançar, mas continuaram próximos, como se o mundo ao redor tivesse desaparecido. Lara sabia que deveria se afastar. Sabia que cada segundo ali era uma traição silenciosa, uma fissura na vida que havia construído com tanto cuidado. Mas então Daniel inclinou a cabeça, os olhos verdes escurecendo, e ela soube que não iria a lugar nenhum. Pelo menos, não ainda. E, pela primeira vez em anos, Lara Vasconcelos permitiu-se desejar algo que não deveria. A orquestra tocava uma versão lenta de *"Fly Me to the Moon"*, as notas de piano deslizando pelo salão como fumaça dourada. Lara se apoiou na borda do balcão de mármore, girando o pé da taça entre os dedos, o cristal fino refletindo a luz âmbar dos lustres. O champanhe já havia perdido o gosto de celebração, transformando-se em algo mais ácido, mais urgente. Ela sentia o olhar dele antes mesmo de virar o rosto. Daniel estava do outro lado da pista, conversando com um grupo de investidores, mas seus olhos verdes — aqueles mesmos que um dia a haviam feito esquecer o próprio nome — a encontravam com a precisão de um predador. Ele ergueu o copo em sua direção, um gesto quase imperceptível, e Lara respondeu com um movimento mínimo da cabeça, o suficiente para que ele soubesse que ela havia notado. Que ela *estava* notando. A multidão se movia entre eles, corpos elegantes em vestidos de seda e ternos sob medida, mas era como se uma corrente invisível os puxasse um para o outro. Lara desviou o olhar primeiro, fingindo interesse no bufê de frutas cristalizadas, mas suas mãos tremiam levemente ao pegar uma uva. O açúcar derreteu na língua, doce demais, quase obsceno. — Você está evitando alguém? A voz dele surgiu às suas costas, baixa e rouca, como se tivesse sido arrastada por anos de noites mal dormidas. Lara não precisou se virar para saber que ele estava perto o suficiente para que o calor do seu corpo aquecesse o espaço entre eles. Respirou fundo antes de responder, deixando que o perfume de jasmim do seu perfume se misturasse ao cheiro de couro e especiarias que emanava dele. — Ou talvez eu esteja apenas admirando a vista. Daniel riu, um som grave que vibrou contra a pele dela. Ele se aproximou mais, os dedos roçando de leve no cotovelo de Lara ao pegar uma taça de vinho da bandeja de um garçom que passava. O toque foi breve, mas suficiente para que ela sentisse o formigamento subir pelo braço. — A vista aqui é interessante, sim — ele murmurou, levando o copo aos lábios. — Mas não tanto quanto a que eu lembro. Lara arqueou uma sobrancelha, fingindo indiferença, mas o coração batia tão forte que ela temia que ele ouvisse. — Você sempre foi bom com palavras. É por isso que agora é empresário e não poeta? — Ah, Lara. — Ele inclinou a cabeça, os olhos brilhando com algo que poderia ser diversão ou desafio. — Você sabe que eu nunca precisei de palavras para te convencer de nada. O ar entre eles ficou mais denso, carregado com a memória não dita de noites em apartamentos minúsculos, de lençóis embolados e risadas abafadas contra travesseiros. Lara mordeu o lábio inferior, sentindo o rubor subir pelo pescoço. Precisava se controlar. Precisava *lembrar* de quem era agora: Lara Vasconcelos, esposa de um homem poderoso, anfitriã de jantares impecáveis, mulher que não se deixava levar por impulsos. Mas então Daniel se aproximou ainda mais, e o tecido do seu vestido pareceu ficar mais justo, como se o corpo dela soubesse, antes mesmo da mente, o que estava por vir. — Você mudou — ele disse, observando-a com uma intensidade que a fez sentir-se nua. — Está mais... contida. — As pessoas mudam. — Não todas. — Ele estendeu a mão, como se fosse tocar o colar de pérolas que ela usava, mas parou no último segundo, os dedos pairando a centímetros da sua pele. — Algumas coisas continuam iguais. Lara prendeu a respiração. O colar era um presente do marido, um símbolo de tudo o que ela havia conquistado. Mas, naquele momento, parecia uma coleira. — Você está flertando comigo, Daniel? Ele sorriu, lento e perigoso. — Estou apenas sendo honesto. Você sempre odiou quando eu mentia. — E você sempre mentiu muito bem. — Não agora. — Ele baixou a voz, inclinando-se até que seus lábios quase roçassem a orelha dela. — Posso sentir o seu perfume daqui. Jasmim e algo mais... algo quente. Como se você ainda fosse a mesma garota que eu deixei suada e sem fôlego naquela noite em Búzios. Lara fechou os olhos por um segundo, sentindo o calor se espalhar entre as pernas. Quando os abriu, Daniel estava observando-a com uma expressão que misturava vitória e fome. Ela deveria se afastar. Deveria inventar uma desculpa e sumir no meio da multidão. Mas as palavras morreram na sua garganta quando ele estendeu a mão novamente, desta vez sem hesitar, e tocou o pulso dela, os dedos deslizando pela pele sensível até encontrar o ponto onde o sangue pulsava. — Você está nervosa — ele constatou, satisfeito. — Você é insuportável. — E você está mentindo de novo. Lara riu, mas o som saiu trêmulo. Ao redor deles, as pessoas dançavam, conversavam, riam, alheias à tensão que se enrolava entre os dois como uma corda prestes a arrebentar. Ela olhou para a pista de dança, onde casais se moviam ao ritmo da música, e de repente sentiu uma vontade absurda de ser uma delas. De fingir, nem que fosse por três minutos, que não havia um abismo se abrindo sob seus pés. — Me tira para dançar — ela pediu, antes que pudesse se arrepender. Daniel não respondeu. Apenas segurou sua mão e a guiou até o centro do salão, onde a luz era mais suave e as sombras mais generosas. Quando a puxou para perto, Lara sentiu o corpo dele contra o seu, firme e familiar, como se os anos não tivessem passado. Ele cheirava a whisky caro e a algo mais primitivo, algo que fazia seu estômago se contrair. — Você se lembra da última vez que dançamos? — ele perguntou, os lábios roçando o lóbulo da sua orelha enquanto a conduzia em um passo lento. — Foi em uma festa de formatura. Você pisou no meu pé três vezes. — E você riu como se fosse a coisa mais engraçada do mundo. — Porque era. — Lara encostou a testa no ombro dele por um segundo, sentindo o calor da sua pele através do tecido da camisa. — Você era péssimo dançarino. — Mas ótimo em outras coisas. Ela não respondeu. Não precisava. Os dois sabiam do que ele estava falando. O corpo dela se lembrava, mesmo que a mente tentasse negar. As mãos de Daniel deslizaram pelas suas costas, parando logo acima da curva da cintura, os polegares fazendo círculos lentos e deliberados. Lara sentiu o vestido se tornar uma segunda pele, o tecido fino demais para conter o calor que subia pelo seu corpo. — Você ainda pensa nisso? — ele perguntou, a voz rouca. — Na gente? Lara ergueu o rosto, encontrando os olhos dele. Havia algo ali que ia além do desejo, algo mais perigoso: uma pergunta que ela não queria responder. — Às vezes — admitiu. Daniel sorriu, satisfeito, e a puxou mais para perto, até que não houvesse mais espaço entre eles. Lara sentiu a ereção dele contra o seu ventre e mordeu o lábio para não gemer. A música mudou, mas eles continuaram se movendo no mesmo ritmo lento, como se o mundo ao redor tivesse desaparecido. — E o seu marido? — ele perguntou, os lábios quase tocando os dela. — Ele te faz sentir assim? Lara fechou os olhos. A pergunta era uma faca, afiada e precisa. Ela poderia mentir. Poderia dizer que sim, que era feliz, que não sentia falta daquilo — daquela loucura, daquele fogo. Mas as palavras morreram na sua garganta quando Daniel inclinou a cabeça e roçou os lábios nos dela, um toque leve como uma promessa. — Não responda — ele murmurou. — Eu já sei. E então, antes que Lara pudesse reagir, ele a puxou para fora da pista de dança, em direção às portas de vidro que levavam à varanda. O ar fresco da noite bateu no seu rosto, mas não foi o suficiente para esfriar o fogo que queimava dentro dela. Daniel a encostou contra a parede, as mãos segurando seu rosto com uma urgência que a fez tremer. — Me diz para parar — ele sussurrou, os lábios a centímetros dos dela. Lara não disse nada. Apenas fechou os olhos e o puxou para mais perto. A varanda se estendia como um segredo aberto para a noite, um retângulo de mármore frio sob os pés de Lara, iluminado apenas pelo brilho difuso das luzes da cidade que se infiltrava pelas frestas das cortinas pesadas. O ar carregava o cheiro de chuva recente, misturado ao perfume adocicado das gardênias plantadas em vasos de porcelana ao longo do parapeito. Daniel a guiou com uma mão firme na base de suas costas, os dedos queimando através do tecido fino do vestido, como se ele já soubesse exatamente onde cada curva de seu corpo se encaixava contra o dele. Ela não resistiu. Não quando o calor da palma dele se espalhou por sua coluna, não quando o polegar roçou a pele exposta logo acima da cintura, enviando um arrepio que desceu até os dedos dos pés. A música da festa ainda ecoava abafada pelas portas de vidro, um murmúrio distante, como se pertencessem a outro mundo. Aqui, só existiam eles, o silêncio cúmplice e o peso daquilo que estavam prestes a fazer. — Você lembra da última vez? — Daniel perguntou, a voz baixa, quase rouca. Ele não precisou especificar. Lara sabia. A lembrança veio como um soco no estômago: o apartamento minúsculo dele na época da faculdade, as paredes finas demais, os lençóis embolados, o jeito como ele a beijava como se quisesse devorá-la inteira. — Eu ainda sonho com o gosto da sua boca. Ela deveria ter dito algo. Uma piada, uma negação, qualquer coisa que quebrasse o feitiço. Mas as palavras se perderam quando ele se aproximou, o corpo alto e largo bloqueando a luz, a sombra dele caindo sobre ela como uma promessa. Lara sentiu o próprio peito subir e descer rápido demais, o vestido de seda subitamente apertado demais, os mamilos endurecendo sob o tecido. — Daniel… — O nome saiu como um suspiro, uma advertência fraca. Ele sorriu, lento, conhecedor. — Você diz meu nome como se doesse. E doía. Doía porque ela se lembrava de como era ser dele, de como era se perder nele, de como o mundo inteiro desaparecia quando ele a tocava. Doía porque, mesmo depois de anos, mesmo depois de um casamento, de uma vida inteira construída sobre mentiras pequenas e grandes, o corpo dela ainda reconhecia o dele. Ainda respondia. Daniel ergueu a mão, os nós dos dedos roçando a linha do maxilar dela, descendo pelo pescoço, parando no ponto onde o pulso batia descontrolado. Lara fechou os olhos, sentindo o calor da pele dele, a aspereza leve das cicatrizes que ele havia adquirido com o tempo — uma na têmpora, outra no dorso da mão. Cicatrizes que ela não conhecia, mas que queria explorar com a boca. — Você está tremendo — ele murmurou, os lábios quase tocando a orelha dela. — É o frio. Uma risada baixa, incrédula. — Mentira. Ele tinha razão. Não era o frio. Era o medo. Não do que estavam prestes a fazer, mas do que aquilo significaria depois. Do que ela se tornaria. Mas então Daniel inclinou a cabeça, e o hálito quente dele bateu contra sua boca, e Lara esqueceu de tudo. O primeiro toque foi hesitante, quase reverente. Os lábios dele roçaram os dela, uma vez, duas, como se ele estivesse dando a ela uma última chance de recuar. Mas Lara não recuou. Em vez disso, ela se ergueu na ponta dos pés, os dedos se enroscando na lapela do paletó dele, e o beijou de volta. E foi como se uma represa tivesse se rompido. Daniel gemeu contra a boca dela, um som gutural, animalesco, e a puxou com força, as mãos descendo para a cintura, apertando, como se quisesse fundir os corpos deles ali mesmo. Lara abriu os lábios para ele, deixando que a língua invadisse, quente e exigente, e o gosto do vinho e do desejo se misturou em um sabor que ela reconheceu instantaneamente. Era o gosto de antes. O gosto de sempre. As mãos dele deslizaram para baixo, agarrando as nádegas dela, erguendo-a um pouco, encaixando-a contra a ereção que pressionava o zíper da calça. Lara arqueou as costas, um gemido escapando de sua garganta quando sentiu o quanto ele a queria. O tecido do vestido subiu pelas coxas, e o ar frio da noite contrastou com o calor que emanava entre as pernas dela. — Porra, Lara… — Daniel interrompeu o beijo apenas para respirar, os lábios descendo pelo pescoço dela, mordiscando, lambendo, deixando uma trilha de fogo em sua pele. — Você não faz ideia do que eu quero fazer com você. Ela fez. Porque queria as mesmas coisas. Queria as mãos dele em todos os lugares, queria a boca dele em todos os lugares, queria sentir o peso do corpo dele sobre o seu, dentro do seu. Queria esquecer que tinha um marido esperando em casa, que tinha uma vida que não incluía isso — essa loucura, essa urgência, esse desejo que queimava mais forte do que qualquer promessa. — Então faça — ela sussurrou, as unhas cravando-se nos ombros dele. — Faça tudo. Daniel não precisou de mais incentivo. Com um movimento rápido, ele a girou, pressionando-a contra a parede fria da varanda. Lara sentiu o mármore áspero contra as costas, um contraste delicioso com o calor do corpo dele colado ao seu. As mãos de Daniel deslizaram para baixo, erguendo o vestido até a cintura, os dedos encontrando a renda fina da calcinha. — Tão molhada — ele murmurou, o polegar pressionando contra o tecido úmido, fazendo-a arquear. — Você sempre foi assim comigo. Lara mordeu o lábio para não gemer alto. Não podia. Não aqui. Não onde qualquer um poderia ouvir. Mas Daniel não parecia se importar. Ele afastou a calcinha para o lado com um movimento brusco, e então dois dedos deslizaram para dentro dela, lentos, profundos, enquanto o polegar circulava o clitóris com uma precisão que a fez tremer. — Daniel… — O nome dele saiu como um apelo, uma súplica. — Eu sei — ele respondeu, a voz rouca. — Eu sei do que você precisa. E sabia mesmo. Porque ele sempre soube. Sempre soube como tocá-la, como fazê-la perder o controle, como fazê-la esquecer de tudo, menos dele. Os dedos dele se moveram mais rápido, mais fundo, e Lara sentiu o orgasmo se aproximando como uma onda, alta e inevitável. Ela agarrou os ombros dele, as unhas cravando-se na carne, os quadris se movendo em sincronia com a mão dele, buscando mais, sempre mais. Mas então, quando estava prestes a gozar, Daniel parou. Lara abriu os olhos, ofegante, confusa. Ele sorriu, um sorriso perverso, os lábios brilhando com o beijo deles. — Não aqui — ele disse, a voz baixa, decidida. — Não assim. Ela deveria ter ficado aliviada. Deveria ter arrumado o vestido, respirado fundo, voltado para a festa como se nada tivesse acontecido. Mas não fez nada disso. Em vez disso, ela olhou para ele, os olhos escuros de desejo, e assentiu. — Onde? — perguntou, a voz trêmula. Daniel não respondeu. Apenas segurou a mão dela e a puxou de volta para dentro do hotel, em direção aos elevadores, deixando para trás a varanda, a festa, e qualquer resquício de controle que ainda restava. O elevador subiu em silêncio, o espelho fosco refletindo apenas sombras distorcidas de dois corpos entrelaçados. Lara sentia o calor da mão de Daniel na sua, os dedos dele entrelaçados aos seus como se fossem feitos para se encaixar ali. O perfume dele—algo amadeirado, com um toque de especiarias—se misturava ao aroma doce do vinho que ainda queimava em sua garganta. Ela não sabia dizer se era o álcool ou o desejo que a fazia tremer, mas cada batida do seu coração parecia ecoar nas paredes metálicas do cubículo. Quando as portas se abriram, Daniel a puxou para fora com um movimento decidido, como se temesse que ela pudesse mudar de ideia. Lara o seguiu pelo corredor acarpetado, os saltos afundando levemente no tecido espesso, os passos abafados pelo zumbido distante do ar-condicionado. O quarto dele ficava no final do corredor, a porta já entreaberta, como se o próprio espaço os estivesse esperando. Ao cruzarem a soleira, o mundo lá fora pareceu desaparecer—não havia mais festa, nem marido, nem anos de distância. Apenas eles, o quarto iluminado pela luz âmbar de um abajur e o som da respiração acelerada de ambos. Daniel fechou a porta com um clique suave e, antes que Lara pudesse se virar, ele já estava atrás dela, as mãos deslizando pela cintura, puxando-a contra o corpo firme. Ela sentiu o contorno da ereção dele contra as costas, a pressão quente e insistente, e um gemido escapou de seus lábios antes que pudesse contê-lo. Ele riu baixinho, os lábios roçando a orelha dela enquanto sussurrava: — Você não faz ideia de quantas vezes imaginei isso. Lara fechou os olhos, a culpa e o prazer guerreando dentro dela. *Eu não deveria estar aqui. Eu não deveria querer isso.* Mas então a boca de Daniel encontrou o pescoço dela, os dentes levemente raspando a pele sensível, e todo pensamento racional se dissolveu em um arrepio. As mãos dele subiram, desabotoando o vestido com uma lentidão torturante, cada botão aberto revelando mais do seu corpo—o sutiã de renda preta, a curva dos seios, a pele arrepiada pelo toque dele. — Linda — ele murmurou, os dedos traçando círculos preguiçosos sobre os mamilos já endurecidos. — Tão linda quanto eu me lembrava. Lara se virou, finalmente, e o beijou com uma fome que a surpreendeu. Era como se todos os anos de saudade, de desejo reprimido, estivessem concentrados naquele único momento. A língua dele invadiu sua boca, possessiva, enquanto as mãos dela deslizavam pelo peito dele, sentindo os músculos definidos sob a camisa. Ela o empurrou contra a parede, surpreendendo até a si mesma com a ousadia, e ele gemeu quando ela mordeu o lábio inferior dele, puxando-o entre os dentes. — Porra, Lara — ele rosnou, as mãos agarrando os quadris dela com força. — Você vai me matar. — Então morra — ela respondeu, a voz rouca, antes de puxar a camisa dele para fora da calça e arrancar os botões em um movimento brusco. O tecido se abriu, revelando o peito bronzeado, os pelos escuros que desciam em uma linha fina até o cós da calça. Lara não resistiu: inclinou-se e passou a língua sobre um mamilo dele, sentindo-o enrijecer sob o toque. Daniel gemeu, os dedos se enroscando nos cabelos dela, puxando-a para mais perto. Mas então, com um movimento rápido, ele a girou, pressionando-a contra a parede agora. Lara sentiu o frio do gesso nas costas, um contraste delicioso com o calor do corpo dele colado ao seu. As mãos dele desceram, puxando o vestido para baixo até que ele caísse aos seus pés em um monte de seda. Ela ficou apenas de lingerie, os saltos ainda nos pés, e Daniel a observou com um olhar que a fez sentir-se exposta e poderosa ao mesmo tempo. — Você é ainda mais perfeita do que nos meus sonhos — ele disse, a voz rouca, antes de se ajoelhar na frente dela. Lara prendeu a respiração quando ele beijou a parte interna da coxa, os lábios quentes contra a pele trêmula. As mãos dele seguraram suas nádegas, puxando-a para mais perto, e ela sentiu a respiração dele contra o tecido úmido da calcinha. Um gemido escapou quando ele pressionou a boca ali, a língua traçando círculos lentos sobre o algodão, provocando-a. — Daniel… — ela sussurrou, as pernas fraquejando. Ele riu contra ela, o hálito quente fazendo-a tremer. — O que foi, amor? — ele perguntou, os dedos enganchando na lateral da calcinha. — Quer que eu pare? — Não ouse — ela respondeu, a voz firme apesar do tremor. Com um movimento rápido, ele puxou a calcinha para o lado e enterrou o rosto entre as pernas dela. Lara arqueou as costas, as unhas cravando-se na parede enquanto a língua dele a invadia, explorando-a com uma precisão que a fez ver estrelas. Ele alternava entre lambidas lentas e chupadas fortes, os dedos se juntando à brincadeira, entrando e saindo dela em um ritmo que a deixava à beira do abismo. — Isso… assim… — ela ofegou, os quadris se movendo involuntariamente contra a boca dele. Daniel gemeu, o som vibrando contra ela, e aumentou a intensidade. Lara sentiu o orgasmo se aproximando, uma onda quente e avassaladora, mas então ele parou de repente, deixando-a ofegante, o corpo inteiro pulsando de frustração. — Não… — ela protestou, mas ele já estava de pé, os lábios brilhantes, os olhos escuros de desejo. — Ainda não — ele disse, a voz rouca. — Quero sentir você gozando em mim. Antes que ela pudesse responder, ele a pegou no colo e a carregou até a cama, depositando-a sobre os lençóis macios. Lara o observou enquanto ele tirava a calça, a cueca escura revelando uma ereção que a fez morder o lábio. Ele se ajoelhou entre as pernas dela, os dedos traçando círculos preguiçosos sobre o clitóris, fazendo-a arquear as costas. — Você tem ideia do que eu quero fazer com você? — ele perguntou, a voz baixa, perigosa. Lara balançou a cabeça, incapaz de falar. — Quero te foder até você esquecer o próprio nome — ele disse, os dedos deslizando para dentro dela novamente. — Quero te ouvir gemendo o meu enquanto goza. Quero te marcar de um jeito que ele nunca mais consiga te tocar sem lembrar de mim. As palavras dele a incendiaram. Ela puxou-o para baixo, beijando-o com uma urgência que não deixava espaço para dúvidas. Daniel respondeu com a mesma fome, os corpos se encaixando como se tivessem sido feitos um para o outro. Ele se posicionou entre as pernas dela, a ponta do pau roçando a entrada, e Lara gemeu, as unhas cravando-se nas costas dele. — Por favor — ela implorou, a voz quebrada. Daniel não precisou de mais incentivo. Com um movimento lento, ele entrou nela, preenchendo-a de uma forma que a fez arquear as costas e gritar. Ele parou por um segundo, os olhos fechados, como se saboreasse a sensação, antes de começar a se mover. Os primeiros movimentos foram lentos, profundos, cada estocada arrancando um gemido dos lábios dela. Mas logo o ritmo aumentou, os corpos batendo um contra o outro em uma dança frenética. Lara envolveu as pernas ao redor da cintura dele, puxando-o para mais perto, querendo-o mais fundo, mais forte. Daniel obedeceu, as mãos segurando os quadris dela com força enquanto a fodia com uma intensidade que a deixava sem fôlego. Ela sentiu o orgasmo se aproximando novamente, mais forte desta vez, uma pressão deliciosa crescendo dentro dela. — Goza pra mim — ele ordenou, os dentes cerrados. — Quero sentir você. E ela gozou. O prazer a atingiu como um raio, fazendo-a gritar o nome dele enquanto o corpo inteiro convulsionava. Daniel não parou, continuando a se mover dentro dela, prolongando o orgasmo até que ela estivesse ofegante, os músculos tremendo. Só então ele se permitiu gozar, enterrando-se fundo e gemendo enquanto se derramava dentro dela. Por um momento, não houve nada além do som das respirações entrecortadas e dos corações batendo acelerados. Lara fechou os olhos, sentindo o peso do corpo dele sobre o seu, o calor da pele suada. Mas então, como um balde de água fria, a realidade voltou a invadir seus pensamentos. *O que eu fiz?* Daniel percebeu a mudança nela. Ele se apoiou nos cotovelos, olhando-a com uma expressão que misturava satisfação e preocupação. — Ei — ele disse, afastando uma mecha de cabelo do rosto dela. — Onde você está? Lara engoliu em seco, sentindo as lágrimas queimando nos olhos. — Eu não posso fazer isso — ela sussurrou. Daniel franziu a testa, mas antes que pudesse responder, o som estridente de um telefone cortou o silêncio. Lara congelou. O toque era inconfundível—o toque personalizado do celular dela, o mesmo que seu marido usava para ligar. E ele estava ligando. De novo. O toque do telefone ecoou como um grito no quarto escuro, cortando a névoa espessa do prazer. Lara sentiu o corpo de Daniel ainda dentro dela, pesado, pulsante, enquanto o som insistente rasgava o silêncio. O nome de seu marido iluminou a tela do celular, jogado sobre a mesa de cabeceira, e por um segundo, o mundo pareceu parar. O ar condicionado sussurrava contra a pele suada, o cheiro de sexo misturado ao perfume caro de Daniel, o gosto salgado dos beijos ainda grudado nos lábios. Ela não se moveu. Daniel ergueu a cabeça, os olhos escuros fixos nela, a respiração ainda acelerada. Um sorriso lento se desenhou em seus lábios, como se soubesse exatamente o que aquele toque significava—uma linha sendo cruzada, um limite sendo pisado. Ele se apoiou nos antebraços, o movimento fazendo com que seu corpo deslizasse um pouco mais fundo dentro dela, arrancando um gemido baixo de Lara. — Não vai atender? — ele murmurou, a voz rouca, os dedos traçando círculos preguiçosos na curva de seu quadril. Lara mordeu o lábio inferior, sentindo o calor subir pelo pescoço. O telefone parou de tocar, mas segundos depois recomeçou, implacável. Ela fechou os olhos, tentando ignorar a culpa que se enroscava em seu peito como uma serpente. Mas então Daniel se moveu de novo, um movimento lento e deliberado, e o prazer apagou tudo o mais. — Não — ela sussurrou, as unhas cravando-se nos ombros dele. Daniel riu baixinho, um som escuro e satisfeito, antes de se inclinar para capturar sua boca em um beijo faminto. Lara correspondeu, enredando os dedos nos cabelos dele, puxando-o para mais perto. O telefone parou de novo, mas ela mal percebeu. O mundo se resumia àquele quarto, àquele momento, ao corpo de Daniel sobre o seu, dentro do seu, movendo-se com uma precisão que a fazia arquejar. — Isso mesmo — ele murmurou contra seus lábios, as mãos deslizando por suas coxas, erguendo-as para que ele pudesse se enterrar ainda mais fundo. — Esqueça tudo. Só nós dois. Lara gemeu, o som abafado contra a pele dele. O telefone recomeçou a tocar, mas desta vez ela nem sequer ouviu. O ritmo de Daniel acelerou, cada investida mais intensa, mais possessiva, como se ele quisesse marcar cada centímetro dela. Ela se agarrou a ele, as pernas envolvendo sua cintura, os calcanhares pressionando suas costas, incentivando-o a ir mais fundo, mais forte. — Você é minha — ele grunhiu, os dentes roçando o lóbulo da orelha dela. — Só minha. Lara não respondeu. Não podia. As palavras se perderam em um gemido quando ele mudou o ângulo, atingindo um ponto que a fez ver estrelas. O prazer a consumia, uma onda quente e avassaladora que apagava qualquer pensamento coerente. O telefone tocou mais uma vez, mas ela o ignorou, perdida no turbilhão de sensações. Daniel a observava, os olhos semicerrados, o suor escorrendo pela têmpora. Havia algo de predatório em seu olhar, uma satisfação crua por vê-la assim—desfeita, entregue, esquecida de tudo que não fosse ele. Ele diminuiu o ritmo por um instante, apenas para provocá-la, e Lara gemeu em protesto, as unhas cravando-se em suas costas. — Por favor — ela implorou, a voz quebrada. Ele sorriu, lento e perverso, antes de retomar o movimento com força renovada. Lara arqueou as costas, o prazer crescendo em espiral, cada investida mais intensa que a anterior. O telefone parou de tocar, mas o silêncio que se seguiu foi ainda mais carregado, como se o universo estivesse prendendo a respiração. — Goza pra mim — Daniel ordenou, a voz rouca. — Agora. E Lara obedeceu. O orgasmo a atingiu como uma explosão, um calor líquido se espalhando por seu corpo enquanto ela gritava, os músculos se contraindo ao redor dele. Daniel gemeu, sentindo-a apertá-lo, e se enterrou fundo uma última vez, gozando com um grunido gutural, o corpo tremendo sobre o dela. Por longos segundos, não houve nada além do som das respirações ofegantes, do coração batendo acelerado, do suor escorrendo entre os corpos entrelaçados. Lara fechou os olhos, sentindo o peso de Daniel sobre si, o calor de sua pele, o cheiro de sexo e desejo que impregnava o ar. Mas então, como se o mundo tivesse decidido lembrá-la de sua existência, o telefone tocou de novo. Desta vez, Lara abriu os olhos. Daniel ergueu a cabeça, os lábios ainda úmidos dos beijos, e olhou para ela com uma expressão que misturava desejo e algo mais—algo que ela não conseguiu decifrar. Possessividade, talvez. Ou a certeza de que, agora, ela estava perdida. — Ele não vai parar — Daniel murmurou, os dedos traçando o contorno de seu rosto. — E você sabe disso. Lara engoliu em seco, sentindo o peso daquelas palavras. O telefone parou de tocar, mas o silêncio que se seguiu foi ainda mais opressivo. — Eu preciso ir — ela sussurrou, mas não fez nenhum movimento para se levantar. Daniel sorriu, lento e perigoso, antes de se inclinar para beijá-la de novo, um beijo profundo, demorado, como se quisesse provar que ela ainda era dele. — Não precisa — ele murmurou contra seus lábios. — Ainda não. E antes que ela pudesse responder, ele a puxou para mais perto, as mãos deslizando por seu corpo, reacendendo o fogo que ela pensava ter se extinguido. O telefone tocou mais uma vez. Lara fechou os olhos e se deixou levar. O primeiro raio de sol atravessou as cortinas pesadas do quarto de hotel, pintando listras douradas sobre os lençóis amarrotados e os corpos entrelaçados. Lara acordou com o peso do braço de Daniel sobre sua cintura, a respiração quente dele contra sua nuca, o cheiro de sexo e suor impregnado na pele. Por um instante, deixou-se ficar ali, imóvel, como se pudesse adiar o mundo lá fora apenas pelo desejo de não se mover. Mas a realidade já se infiltrava pelas frestas da janela, implacável. Com cuidado, deslizou para fora da cama, os músculos protestando em pequenos espasmos de prazer e exaustão. Cada passo em direção ao banheiro era uma lembrança viva: as marcas dos dentes de Daniel na curva de seu ombro, as unhas dela cravadas nas costas dele, a umidade entre suas coxas que ainda latejava. No espelho, seu reflexo era o de uma mulher que não reconhecia completamente. Os lábios inchados, os cabelos emaranhados, os olhos brilhantes demais—não de lágrimas, mas de algo mais perigoso, mais vivo. Passou os dedos pelo pescoço, onde a barba de Daniel havia deixado uma trilha avermelhada, e sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A água do chuveiro estava quase escaldante, mas ela não se importou. Precisava daquela queimadura para lavar mais do que o suor da noite anterior. Esfregou a pele com uma urgência quase violenta, como se pudesse arrancar de si mesma as evidências do que havia feito. Mas o sabonete não apagava as memórias: o gosto do vinho misturado ao sal da pele dele, o som dos gemidos abafados contra o travesseiro, a maneira como Daniel a olhara quando ela gozara pela terceira vez, como se fosse um troféu que ele sempre soubera que conquistaria. Enrolada na toalha, Lara voltou para o quarto e encontrou Daniel sentado na beira da cama, nu, os cotovelos apoiados nos joelhos, observando-a com um sorriso preguiçoso. Havia algo de predatório naquele olhar, como se ele já estivesse calculando o próximo movimento. Ela desviou os olhos, pegando suas roupas do chão com mãos trêmulas. — Você está linda assim — ele murmurou, a voz rouca de sono e satisfação. — Desarrumada. Minha. Lara mordeu o lábio inferior, sentindo o calor subir pelo pescoço. Não respondeu. Vestiu-se em silêncio, cada peça de roupa uma armadura contra a vulnerabilidade que ameaçava engoli-la. Quando calçou os sapatos, Daniel se levantou e se aproximou, envolvendo-a pela cintura antes que ela pudesse se afastar. — Não precisa fazer essa cara — ele disse, os lábios roçando o lóbulo de sua orelha. — Você não é uma mulher que se arrepende. Não de verdade. Ela fechou os olhos, sentindo o corpo traí-la mais uma vez, reagindo ao toque dele como se fosse a coisa mais natural do mundo. Mas então se desvencilhou, pegando a bolsa com um movimento brusco. — Eu tenho que ir. Daniel não tentou detê-la. Apenas cruzou os braços, o sorriso nunca deixando seu rosto. — Você vai voltar. Não era uma pergunta. Lara não olhou para trás ao sair do quarto. O corredor do hotel estava silencioso, o tipo de silêncio que antecede o caos. Apertou o botão do elevador várias vezes, como se isso pudesse apressar sua fuga, mas quando as portas se abriram, hesitou. Lá dentro, o espelho refletia uma mulher de olhos assombrados, a maquiagem borrada, o vestido amassado de uma forma que nenhum ferro de passar poderia consertar. Respirou fundo e entrou. O saguão do hotel estava quase vazio, apenas alguns funcionários arrumando as flores nas mesas e um casal idoso tomando café da manhã. Lara passou por eles com a cabeça baixa, sentindo-se como uma criminosa. Mas então ouviu seu nome. — Lara? Era uma voz feminina, familiar. Virou-se e viu Clara, uma antiga colega de faculdade, acenando para ela com um sorriso simpático. Clara não era próxima o suficiente para notar os detalhes, mas Lara sentiu o pânico subir pela garganta mesmo assim. — Oi! — respondeu, forçando um sorriso. — Não sabia que você estava aqui. — Cheguei ontem para uma conferência — Clara disse, aproximando-se. — E você? Também veio a trabalho? Lara assentiu, as palavras presas na garganta. Clara inclinou a cabeça, como se estivesse tentando decifrar algo. — Você está bem? Parece… cansada. — Longa noite — Lara conseguiu dizer, e então, porque não conseguiu evitar, acrescentou: — Reencontrei um velho amigo. Os olhos de Clara brilharam de curiosidade. — Alguém que eu conheço? — Daniel — Lara respondeu antes que pudesse se conter. O sorriso de Clara se alargou. — Daniel *Ribeiro*? Nossa, faz séculos! Como ele está? — O mesmo — Lara mentiu, sentindo o peso da traição se multiplicar. — Charmoso. Bem-sucedido. — Vocês dois sempre tiveram uma química incrível — Clara comentou, sem malícia, mas as palavras atingiram Lara como um soco. — Fico feliz que tenham se reencontrado. Lara conseguiu murmurar um agradecimento e se despediu, mas as palavras de Clara ecoaram em sua mente durante todo o caminho até o táxi. *Química incrível.* Era isso que as pessoas viam? Uma faísca que nunca se apagara, uma história antiga que agora ganhava um novo capítulo? Ou era apenas ela, se agarrando a desculpas para justificar o que havia feito? O carro parou em frente ao seu prédio, e Lara pagou o motorista com mãos que tremiam levemente. O porteiro a cumprimentou com um aceno, e ela respondeu com um sorriso mecânico, rezando para que ele não notasse o cheiro de sexo que ainda parecia grudado em sua pele. No elevador, fechou os olhos e encostou a testa no espelho frio, tentando se recompor. Quando a porta do apartamento se abriu, o silêncio a recebeu como um tapa. A casa estava impecável, como sempre—o marido de Lara, Ricardo, era meticuloso até a obsessão. Mas hoje, cada detalhe parecia uma acusação: os porta-retratos com fotos de viagens felizes, o sofá onde eles haviam feito amor pela última vez, a cozinha onde ela preparava jantares que ele mal provava. Lara tirou os sapatos e caminhou até o quarto, onde encontrou Ricardo ainda dormindo, o corpo virado para o lado, a respiração tranquila. Por um momento, apenas o observou. Ele era bonito, de uma forma clássica e segura, o tipo de homem que nunca precisava se esforçar para ser desejado. Mas agora, olhando para ele, Lara não sentia nada além de uma culpa fria, misturada a uma estranha indiferença. Entrou no banheiro e ligou o chuveiro novamente, deixando a água quente escorrer pelo corpo até que a pele ficasse vermelha. Quando saiu, Ricardo estava sentado na cama, esfregando os olhos. — Você chegou tarde — ele disse, a voz ainda sonolenta. — A festa se estendeu — ela respondeu, enrolando-se na toalha. — Não quis te acordar. Ricardo assentiu, como se a explicação fosse suficiente. Lara sabia que ele não suspeitava de nada—Ricardo nunca suspeitava. Ele confiava nela, ou talvez apenas não se importasse o suficiente para questionar. De qualquer forma, era conveniente. — Você vai trabalhar hoje? — ele perguntou, levantando-se e vestindo o roupão. — Sim. Tenho uma reunião importante. Ricardo se aproximou e beijou sua testa, como fazia todas as manhãs. — Não se atrase. Lara sorriu, mas o gesto não alcançou seus olhos. Quando ele saiu do quarto, ela se sentou na beira da cama, os dedos apertando o lençol com força. O telefone estava sobre a mesa de cabeceira, e ela o pegou, passando os dedos pela tela. Havia três mensagens não lidas—todas de Daniel. *"Você chegou bem?"* *"Pensei em você a noite toda."* *"Quando vamos repetir?"* Lara respirou fundo e bloqueou o número. Não porque não quisesse responder, mas porque sabia que, se o fizesse, estaria perdida. Mas então, como se o universo estivesse zombando dela, o telefone vibrou novamente. Era uma mensagem de um número desconhecido. *"Esqueceu algo no meu quarto. Sua pulseira. Vou guardar para você."* Anexada à mensagem, havia uma foto. A pulseira de ouro que Ricardo lhe dera no último aniversário de casamento, jogada sobre os lençóis amarrotados onde ela e Daniel haviam se perdido horas antes. Lara fechou os olhos, sentindo o chão se abrir sob seus pés. Não havia como voltar atrás. Não havia como fingir que nada havia acontecido. E, no fundo, ela sabia que não queria. Naquela noite, quando Ricardo saiu para jantar com um cliente, Lara ficou em casa, olhando para o telefone como se ele pudesse explodir a qualquer momento. Mas então, como se fosse inevitável, seus dedos começaram a digitar. *"Onde você está?"* A resposta de Daniel foi imediata. *"No mesmo hotel. Quarto 812."* Lara hesitou por apenas um segundo antes de se levantar, pegar as chaves do carro e sair. O caminho até o hotel foi uma névoa de adrenalina e desejo. Quando as portas do elevador se abriram no oitavo andar, ela já sabia que não havia mais volta. Daniel estava esperando por ela, encostado no batente da porta, o sorriso de quem já havia vencido. — Demorou — ele murmurou, puxando-a para dentro do quarto. Lara não resistiu. Não quando os lábios dele encontraram os seus, não quando as mãos dele deslizaram por baixo de seu vestido, não quando ele a empurrou contra a parede e sussurrou em seu ouvido: — Eu disse que você voltaria. E ela voltou. Porque, no fim das contas, algumas mentiras eram doces demais para serem abandonadas.

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