Labirinto de Desejos

LésbicoPor Tonkix9 leituras
Labirinto de Desejos
**Labirinto de Desejos** O salão de festas do *Grand Miramar* respirava opulência como se o próprio ar fosse feito de ouro líquido. Lustres de cristal despejavam luz em cascata sobre os convidados, transformando cada movimento em um brilho fugaz, cada riso em um fragmento de joia. O cheiro de champanhe francês, caro e fresco, misturava-se ao perfume das flores tropicais dispostas em arranjos que chegavam à altura dos ombros—hibiscos vermelhos como sangue, orquídeas pálidas como pele sob a lua. Clara ajustou a alça do vestido preto, um modelo impecável de corte reto que abraçava seu corpo sem ousar revelar demais. *Discrição*, pensou, era a armadura dos bem-sucedidos. Ela não pertencia àquele lugar. Não como os outros. Os homens de ternos sob medida que trocavam apertos de mão com sorrisos calculados, as mulheres de vestidos que custavam mais do que seu salário mensal, exibindo joias que brilhavam como se tivessem capturado estrelas. Clara era uma advogada de sucesso, sim, mas seu mundo era feito de contratos, prazos e cláusulas, não de champanhe derramado em taças de cristal nem de conversas vazias sobre iates e ações na bolsa. Ainda assim, ali estava ela, porque o sócio do escritório havia insistido. *"É importante ser vista, Clara. Networking não é só trabalho, é arte."* E arte, aparentemente, era o que Isabel fazia melhor. Clara a viu antes mesmo de saber seu nome. Estava perto da varanda, de costas para o salão, os cabelos negros e ondulados caindo em cascata sobre os ombros nus, a pele morena iluminada pela luz âmbar dos abajures. Usava um vestido vermelho, não o vermelho discreto das mulheres elegantes, mas um tom profundo, quase escarlate, que se agarrava ao seu corpo como uma segunda pele. O tecido parecia vivo, movendo-se com ela quando se virou para rir de algo que um homem ao seu lado disse. Clara não ouviu as palavras, mas viu o modo como Isabel inclinou a cabeça, os lábios entreabertos em um sorriso que não era para ele—era para o mundo, para a noite, para o jogo que ela claramente adorava jogar. — Você está encarando. A voz veio de trás, baixa e divertida. Clara se virou e encontrou uma mulher de cabelos loiros platinados, olhos verdes afiados como lâminas, segurando duas taças de champanhe. Ela estendeu uma para Clara, que aceitou por educação, mesmo sabendo que não deveria beber. Não naquela noite. Não quando precisava manter o controle. — Não estou— mentiu. A loira riu, um som leve e perigoso. — Está, sim. E não é a única. Isabel tem esse efeito nas pessoas. Faz com que até as mais... *contidas* percam a compostura. Clara franziu levemente o cenho. — Você a conhece? — Todo mundo aqui conhece Isabel. Ou quer conhecer. — A mulher tomou um gole do champanhe, os olhos verdes fixos em Clara com uma intensidade desconcertante. — Ela é como o mar, sabe? Bonita, perigosa, impossível de prender. E você... você parece o tipo que gosta de construir diques. Antes que Clara pudesse responder, a multidão se abriu como as águas do Mar Vermelho, e Isabel apareceu diante delas, como se tivesse sido convocada pela conversa. Seus olhos—castanhos, profundos, com um brilho de âmbar nas bordas—encontraram os de Clara, e algo neles fez o estômago da advogada se contrair. — Marina — Isabel cumprimentou a loira com um beijo no rosto, mas seus olhos não deixaram Clara. — Quem é sua amiga tão séria? — Clara — respondeu a loira, antes que Clara pudesse abrir a boca. — Advogada. Brilhante, segundo os boatos. Isabel sorriu, e Clara sentiu o peso daquele sorriso como um toque físico. — Advogada — repetiu, como se a palavra fosse uma delícia rara. — Então você é do tipo que gosta de regras. — Regras existem por um motivo — Clara disse, a voz mais firme do que se sentia. — Ah, mas as melhores coisas da vida acontecem quando as quebramos. — Isabel deu um passo à frente, reduzindo a distância entre elas a quase nada. Seu perfume era cítrico, com um toque de algo mais escuro, como sândalo ou âmbar. Clara respirou fundo sem perceber. — Diga-me, Clara... você já quebrou alguma regra hoje? O ar entre elas parecia carregado, como se uma tempestade estivesse prestes a desabar. Clara deveria ter desviado o olhar. Deveria ter dado uma desculpa educada e se afastado. Mas seus lábios se moveram antes que a razão pudesse detê-los. — Ainda não. Isabel riu, um som baixo e rouco que vibrou no peito de Clara. — Então ainda há esperança para você. Marina observava as duas com um sorriso de quem já sabia como aquilo terminaria. Isabel estendeu a mão, os dedos longos e elegantes, as unhas pintadas de um vermelho que combinava com o vestido. — Vamos dançar? Clara olhou para a mão oferecida como se fosse uma armadilha. E talvez fosse. Mas, pela primeira vez em anos, ela não queria escapar. — Eu não danço — disse, mas sua voz soou menos convincente do que pretendia. — Hoje você dança. E antes que Clara pudesse protestar, Isabel segurou sua mão e a puxou para o meio do salão, onde a música—uma batida sensual de jazz misturado com algo eletrônico—pulsava como um coração acelerado. A multidão se abriu para elas, como se soubesse que algo extraordinário estava prestes a acontecer. Clara sentiu o calor da mão de Isabel na sua, firme e possessiva. Quando a outra mulher a puxou para perto, seus corpos quase se tocando, Clara percebeu que estava prestes a quebrar mais do que uma regra naquela noite. E, pela primeira vez, isso não a assustou nem um pouco. O salão girava em câmera lenta, ou talvez fosse apenas Clara quem girava—o mundo reduzido a um borrão de luzes douradas e risos abafados, enquanto os dedos de Isabel se entrelaçavam aos seus com uma intimidade que parecia ter séculos. A música, agora mais lenta, envolvia-as como um manto de veludo, notas graves vibrando sob a pele de Clara, ecoando o ritmo acelerado de seu próprio coração. Ela nunca havia dançado assim, nunca havia permitido que alguém a guiasse com tanta segurança, como se Isabel soubesse exatamente qual movimento faria seu corpo responder antes mesmo que ela o fizesse. — Você está tensa — Isabel murmurou, os lábios roçando a orelha de Clara em um sussurro que era quase um beijo. O hálito quente fez um arrepio percorrer sua espinha, e Clara se odiou por não conseguir controlar a reação. — Relaxe. Não é um julgamento, advogada. Clara fechou os olhos por um segundo, sentindo o peso daquelas palavras. *Advogada.* Como se Isabel soubesse, desde o primeiro olhar, que ela era feita de regras e protocolos, de frases medidas e gestos calculados. Mas ali, entre os braços daquela mulher, as regras pareciam se dissolver como açúcar na língua. — Não estou acostumada a… — ela começou, mas as palavras morreram quando Isabel a puxou mais para perto, eliminando o espaço entre elas. O vestido de Isabel, um tecido fluido que se movia como água viva, roçou nas pernas de Clara, e ela sentiu o calor do corpo da outra mesmo através das camadas de seda. — A quê? — Isabel provocou, os dedos deslizando pela cintura de Clara, traçando círculos lentos que a faziam querer se arquear, mesmo sem querer. — A ser tocada? Ou a gostar? Clara engoliu em seco. A verdade era que ela não sabia. Anos de controle, de manter as mãos ocupadas com processos e contratos, de evitar qualquer contato que pudesse ser interpretado como fraqueza—e agora ali estava, derretendo sob o toque de uma desconhecida como se fosse feita de cera. Isabel riu baixinho, um som rouco que vibrou contra o pescoço de Clara. — Você fala demais — disse, e antes que Clara pudesse protestar, a mão de Isabel subiu, os dedos enredando-se nos cabelos presos de Clara, puxando-os com uma firmeza que a fez ofegar. Não doeu. Não exatamente. Mas a pressão súbita, o controle, a maneira como Isabel inclinou sua cabeça para trás, expondo sua garganta, fez algo dentro dela se retorcer. — Isso é… — Clara tentou encontrar uma palavra, mas sua mente estava nublada. O polegar de Isabel agora traçava a linha de sua mandíbula, descendo devagar, como se mapeando um território desconhecido. — Desnecessário — Isabel completou, os lábios quase tocando os de Clara. Quase. — Você não precisa explicar nada. Só precisa sentir. E então, como se tivesse esperado por um sinal que Clara não sabia que havia dado, Isabel a beijou. Não foi um beijo suave. Não foi uma pergunta. Foi uma afirmação, quente e úmida, a língua de Isabel invadindo sua boca com uma confiança que fez as pernas de Clara fraquejarem. Ela agarrou os ombros de Isabel por instinto, as unhas cravando-se no tecido do vestido, e Isabel gemeu contra seus lábios, um som que vibrou direto entre as coxas de Clara. Quando se afastaram, ambas estavam ofegantes, os lábios inchados, os olhos escuros de desejo. — Viu? — Isabel sussurrou, a voz rouca. — Não é tão difícil. Clara não respondeu. Não podia. Sua mente estava cheia de estática, de sensações—o gosto de Isabel, doce e levemente alcoólico, como o champanhe que haviam bebido; o cheiro de seu perfume, algo floral e escuro, como jasmim à meia-noite; a maneira como seus corpos se encaixavam, como se tivessem sido feitos para aquilo. Isabel sorriu, satisfeita, e a puxou de volta para a dança, girando-a com uma habilidade que fez Clara rir, apesar de tudo. — Você é boa nisso — Clara admitiu, quando Isabel a trouxe de volta contra seu corpo, uma mão possessiva na base de sua coluna. — Em quê? — Isabel brincou, os lábios roçando o lóbulo da orelha de Clara. — Em dançar? Ou em fazer você perder o controle? Clara não teve chance de responder. Alguém esbarrou nelas, um homem de terno que murmurou um pedido de desculpas apressado antes de desaparecer na multidão. O contato, por mais breve que fosse, quebrou o feitiço por um segundo, e Clara aproveitou para respirar fundo, tentando se recompor. Isabel observou-a com um sorriso lento, como se soubesse exatamente o que estava acontecendo dentro dela. — Está com medo? — perguntou, os dedos traçando círculos preguiçosos na nuca de Clara. — Não — Clara mentiu. Isabel riu, mas não insistiu. Em vez disso, inclinou-se e sussurrou algo que fez o estômago de Clara se contrair: — Então prove. Antes que Clara pudesse perguntar o que ela queria dizer, Isabel a puxou para fora da pista de dança, em direção a um canto mais escuro do salão, onde as luzes eram mais fracas e o barulho da festa parecia distante. Havia um sofá de veludo ali, quase escondido por uma cortina de contas, e Isabel a empurrou suavemente contra ele, prendendo-a entre seu corpo e o encosto macio. — O que você está fazendo? — Clara perguntou, a voz saindo mais baixa do que pretendia. — O que você quer que eu faça — Isabel respondeu, as mãos deslizando pelas coxas de Clara, levantando levemente o tecido do vestido preto que ela usava. — Mas primeiro, você precisa me dizer. Clara sentiu o coração bater tão forte que teve certeza de que Isabel podia ouvi-lo. O ar entre elas estava carregado, elétrico, como antes de uma tempestade. Ela sabia que deveria parar. Sabia que estava cruzando uma linha da qual não haveria volta. Mas então Isabel se inclinou, os lábios roçando o pescoço de Clara em um beijo leve, e ela soube que não queria parar. — Toque-me — ela sussurrou, as palavras escapando antes que pudesse detê-las. Isabel sorriu contra sua pele, os dentes roçando de leve, e Clara estremeceu. — Onde? — Isabel perguntou, as mãos parando logo abaixo da bainha do vestido, os dedos brincando com a pele sensível da parte interna das coxas de Clara. — Em qualquer lugar — Clara admitiu, a voz trêmula. — Em todos os lugares. Isabel não precisou de mais incentivo. As mãos subiram, deslizando sob o vestido, os dedos quentes contra a pele nua de Clara. Ela gemeu quando Isabel encontrou a borda da calcinha, traçando o contorno com um toque leve, quase reverente. — Você está molhada — Isabel murmurou, os lábios agora no ouvido de Clara. — Desde quando? Clara não respondeu. Não podia. Sua mente estava vazia de tudo, exceto da sensação dos dedos de Isabel, da pressão suave contra seu clitóris, do jeito como sua respiração falhava a cada movimento. Isabel riu baixinho, um som de pura satisfação feminina, e então seus dedos deslizaram para dentro, lentos, deliberados, enquanto a outra mão segurava Clara pelo quadril, mantendo-a imóvel. — Isabel… — Clara gemeu, as unhas cravando-se nos ombros da outra mulher. — Shhh — Isabel sussurrou, os lábios roçando os de Clara em um beijo que era mais uma promessa do que uma carícia. — Aqui não. Ainda não. Clara queria protestar, queria implorar, mas então Isabel retirou os dedos, deixando-a vazia e trêmula, e a puxou de volta para a pista de dança como se nada tivesse acontecido. O contraste entre o calor úmido entre suas pernas e o ar fresco do salão a deixou tonta, e ela se agarrou a Isabel, os dedos apertando sua cintura. — Você é cruel — ela conseguiu dizer, a voz rouca. Isabel sorriu, os olhos brilhando com malícia. — Você ainda não viu nada. A música mudou novamente, agora mais lenta, mais sensual, e Isabel a puxou para mais perto, seus corpos se movendo em sincronia, como se dançassem juntos há anos. Clara podia sentir o corpo de Isabel contra o seu, o volume dos seios, a pressão das coxas, e sabia que Isabel podia sentir o mesmo—o quanto ela estava excitada, o quanto precisava de mais. — Vamos embora daqui — Isabel murmurou, os lábios roçando a têmpora de Clara. — Antes que eu faça algo que nos faça ser expulsas. Clara olhou ao redor, percebendo pela primeira vez que algumas pessoas as observavam, curiosas, talvez até invejosas. Ela deveria se importar. Deveria se preocupar com o que pensariam, com o que diriam. Mas então Isabel segurou seu queixo, forçando-a a olhar em seus olhos, e Clara soube que não se importava com mais nada. — Sim — ela disse, a voz firme, apesar do tremor em suas mãos. — Vamos. A porta do hotel se fechou atrás delas com um clique suave, abafado pela música que ainda ecoava em seus ouvidos. O ar noturno era denso, carregado com o sal do mar e o perfume das gardênias que enfeitavam os jardins do hotel. Clara respirou fundo, como se tentasse preencher os pulmões com algo que não fosse o cheiro de Isabel—uma mistura de jasmim, suor limpo e algo mais primitivo, algo que fazia sua pele formigar. Isabel caminhava à frente, os saltos finos afundando levemente na areia compacta do caminho que levava à praia. A lua cheia pintava seu corpo de prata, destacando a curva dos ombros, a cintura estreita, o balanço dos quadris sob o vestido justo. Clara a seguia, os dedos ainda formigando com a memória do toque daquela pele, do calor que irradiava dela mesmo através do tecido. — Você está quieta — Isabel disse, sem olhar para trás, a voz baixa, quase perdida no som das ondas quebrando na areia. — Arrependida? Clara riu, um som curto e sem fôlego. — Não. Só... processando. — Processando o quê? — O fato de que eu acabei de concordar em sair de uma festa com uma mulher que mal conheço, para caminhar na praia no meio da noite. Isabel parou de repente e se virou, os olhos brilhando sob a luz pálida. A brisa bagunçava seus cabelos, fazendo-os dançar sobre os ombros como fios de seda escura. — E o que mais? Clara engoliu em seco. O vento trazia o cheiro do mar, misturado ao aroma doce e terroso de Isabel, e de repente ela se sentiu tonta, como se tivesse bebido demais. Ou talvez não o suficiente. — O fato de que eu quero fazer muito mais do que caminhar. Um sorriso lento se abriu nos lábios de Isabel, lento e perigoso, como se ela soubesse exatamente o efeito que aquelas palavras tinham sobre Clara. — Então vamos — ela disse, estendendo a mão. — Antes que você mude de ideia. Clara hesitou por um segundo, apenas o suficiente para que Isabel arqueasse uma sobrancelha, desafiadora. Então, com um suspiro que era quase um gemido, ela entrelaçou os dedos nos dela. A pele de Isabel estava quente, quase febril, e Clara sentiu um arrepio subir por seu braço. A areia fria sob os pés descalços era um contraste delicioso com o calor que se espalhava entre elas. Clara tirou os sapatos sem pensar, deixando-os para trás como se fossem uma parte de si que não precisava mais. Isabel fez o mesmo, e logo estavam caminhando à beira da água, as ondas lambendo seus tornozelos, a espuma branca se desfazendo entre os dedos dos pés. — Você vem sempre aqui? — Clara perguntou, tentando preencher o silêncio com algo que não fosse o som de sua própria respiração acelerada. — Às vezes. Quando preciso pensar. Ou quando quero esquecer. — Esquecer o quê? Isabel parou e se virou para o mar, os braços cruzados sobre o peito como se tentasse se proteger do vento. Ou de algo mais. — Tudo. Nada. Depende do dia. Clara se aproximou, até que seus ombros quase se tocassem. Ela podia sentir o calor do corpo de Isabel mesmo através do espaço mínimo entre elas. — E hoje? O que você quer esquecer hoje? Isabel riu, um som baixo e rouco, e se virou para encará-la. Seus olhos estavam escuros, quase negros sob a luz da lua, e Clara sentiu seu coração bater mais forte. — Hoje eu não quero esquecer nada. O vento soprou mais forte, trazendo consigo o cheiro de sal e algas, e Clara sentiu algo dentro dela se soltar, como uma corda que se rompe. Ela estendeu a mão e tocou o rosto de Isabel, os dedos traçando a linha da mandíbula, o contorno dos lábios. Isabel não se moveu, apenas observou, os olhos semicerrados, como se estivesse saboreando cada segundo. — Você é linda — Clara murmurou, a voz quase perdida no som das ondas. — Não é isso que você quer dizer. — Não? — Não. Você quer dizer que me deseja. Que não consegue parar de pensar em como seria me beijar. Me tocar. — Isabel se aproximou, até que seus lábios estivessem a centímetros dos de Clara. — Me provar. Clara sentiu o ar fugir de seus pulmões. Ela nunca tinha ouvido alguém falar assim, com tanta crueza, tanta certeza. E, Deus, como aquilo a excitava. — Sim — ela admitiu, a voz trêmula. — É isso que eu quero. Isabel sorriu, satisfeita, e segurou o rosto de Clara entre as mãos, os polegares acariciando suas bochechas. — Então peça. Clara hesitou. Ela nunca tinha sido boa em pedir o que queria. Sempre fora a que seguia as regras, a que esperava, a que se contentava com o que lhe era dado. Mas ali, com o mar rugindo ao fundo e o corpo de Isabel tão perto do seu, ela sentiu algo dentro dela se quebrar. — Beija-me — ela sussurrou. Isabel não precisou de mais incentivo. Seus lábios se encontraram em um beijo lento, profundo, cheio de promessas. Clara sentiu o gosto de Isabel—doce, com um toque de vinho e algo mais, algo selvagem e indomável. Ela se agarrou aos ombros de Isabel, as unhas cravando-se no tecido do vestido, enquanto a outra mão se enroscava nos cabelos dela, puxando-a para mais perto. Isabel gemeu contra sua boca, um som baixo e gutural que fez Clara estremecer. Suas mãos deslizaram pelas costas de Clara, puxando-a contra si, e Clara sentiu o corpo de Isabel moldar-se ao seu, como se fossem feitas para se encaixar. O beijo se tornou mais urgente, mais faminto, e Clara sentiu suas pernas fraquejarem quando Isabel mordeu seu lábio inferior, puxando-o suavemente entre os dentes. — Você gosta disso — Isabel murmurou, os lábios roçando os de Clara enquanto falava. — Sim — Clara admitiu, a voz rouca. — E disso? — Isabel deslizou a mão pela lateral do corpo de Clara, os dedos traçando a curva do quadril antes de se aventurarem mais para baixo, até que estivessem pressionados contra a coxa dela, logo abaixo da bainha do vestido. Clara engoliu em seco, o corpo inteiro tremendo com a expectativa. — Sim. Isabel sorriu, triunfante, e a beijou novamente, mais devagar dessa vez, como se tivesse todo o tempo do mundo. Suas mãos continuaram a explorar, subindo pela coxa de Clara, os dedos deslizando sob o tecido do vestido, até que estivessem roçando a pele nua de sua cintura. — Isabel — Clara gemeu, o nome dela um apelo, uma súplica. — Shhh — Isabel sussurrou, os lábios agora no pescoço de Clara, beijando, mordiscando, deixando uma trilha de fogo em sua pele. — Eu sei. Clara sentiu os dedos de Isabel se moverem mais para cima, até que estivessem roçando a borda de sua calcinha. Ela arqueou o corpo, implorando silenciosamente por mais, e Isabel riu baixinho, o hálito quente contra sua pele. — Tão impaciente — ela murmurou, os dedos deslizando para dentro do tecido, encontrando o calor úmido que esperava por ela. Clara gemeu, o som abafado contra o ombro de Isabel, enquanto os dedos dela começavam a se mover em círculos lentos, explorando, provocando. Ela se agarrou a Isabel, as unhas cravando-se em suas costas, enquanto o prazer se espalhava por seu corpo como uma onda. — Por favor — ela sussurrou, a voz quebrada. Isabel não respondeu com palavras. Em vez disso, ela a beijou novamente, profunda e possessivamente, enquanto seus dedos aumentavam o ritmo, pressionando, acariciando, até que Clara estivesse se contorcendo contra ela, o corpo inteiro tremendo com a necessidade de mais. — Você é tão linda assim — Isabel murmurou, os lábios contra a orelha de Clara. — Tão entregue. Tão minha. Clara sentiu algo dentro dela se romper, como uma represa cedendo sob a pressão. Ela se agarrou a Isabel com mais força, os quadris se movendo em sincronia com os dedos dela, perseguindo o prazer que se construía dentro de si. O mar rugia ao fundo, as ondas quebrando na areia, e Clara sentiu como se estivesse se dissolvendo, como se estivesse se tornando parte daquela noite, daquele momento, daquele desejo que as consumia. — Isabel — ela gemeu, o nome dela um grito abafado. — Goza para mim — Isabel ordenou, a voz firme, implacável. — Agora. E Clara obedeceu. O orgasmo a atingiu como uma onda, forte e avassalador, fazendo seu corpo inteiro tremer. Ela se agarrou a Isabel, os dedos cravando-se em sua pele, enquanto o prazer a atravessava, deixando-a sem fôlego, sem pensamento, sem nada além da sensação pura e intensa de estar viva. Quando finalmente voltou a si, Clara estava de joelhos na areia, o corpo ainda tremendo com os últimos espasmos do prazer. Isabel estava à sua frente, os olhos escuros brilhando com satisfação, os lábios inchados pelos beijos. — Vamos para o meu quarto — ela disse, estendendo a mão. — Antes que eu decida te tomar aqui mesmo, na praia. Clara olhou para ela, o coração ainda batendo descontroladamente, e soube que não havia nada no mundo que ela desejasse mais do que seguir Isabel para onde quer que ela a levasse. A porta do quarto de Isabel se fechou com um clique suave, mas definitivo, como se o mundo lá fora tivesse deixado de existir. O ar dentro do espaço era denso, carregado com o cheiro do mar que ainda impregnava a pele de ambas, misturado ao perfume cítrico e levemente amadeirado de Isabel—algo que Clara já associava ao perigo, ao desejo, àquela mulher que a olhava como se pudesse devorá-la inteira. O quarto era um refúgio de luxo e sombra. A luz da lua entrava pelas cortinas entreabertas, desenhando listras prateadas sobre os lençóis de seda negra, sobre o corpo de Isabel quando ela se virou para Clara. Não havia pressa agora. Não havia mais a necessidade de conter o que ambas sabiam que aconteceria desde o primeiro olhar na festa. Apenas a expectativa, o peso do que estava por vir, o conhecimento de que, ali, as regras de Clara não valiam mais. — Você está tremendo — Isabel murmurou, aproximando-se devagar, como se Clara fosse um animal selvagem prestes a fugir. Seus dedos roçaram o braço nu de Clara, traçando um caminho lento até o ombro, depois o pescoço, onde a pulsação batia descontrolada. — É o frio — Clara mentiu, a voz saindo mais rouca do que pretendia. Isabel sorriu, um sorriso lento, conhecedor. — Não é o frio. E então, sem aviso, seus lábios estavam sobre os de Clara, quentes, exigentes. Não era um beijo suave, de descoberta. Era posse. Era declaração. A língua de Isabel invadiu sua boca com uma confiança que fez Clara gemer contra ela, os dedos se enroscando no tecido fino do vestido de Isabel, puxando-a para mais perto. O corpo de Clara respondeu antes que sua mente pudesse protestar, arqueando-se contra o dela, sentindo o calor, a firmeza, a promessa de tudo o que estava por vir. Isabel a guiou até a cama com as mãos firmes, mas sem pressa. Cada passo era uma provocação, cada toque uma pergunta silenciosa: *Você quer isso? Você me quer?* E Clara respondia com o corpo, com os lábios, com os suspiros que escapavam entre os beijos. Quando a parte de trás de seus joelhos encontrou o colchão, ela se deixou cair, puxando Isabel consigo. O peso do corpo dela sobre o seu era delicioso. Isabel se apoiou nos cotovelos, os cabelos escuros caindo como uma cortina ao redor do rosto de Clara, enquanto seus lábios desciam pelo pescoço dela, mordiscando, lambendo, deixando um rastro de fogo. Clara arqueou o pescoço, oferecendo-se, e Isabel riu baixinho, um som escuro e satisfeito. — Você gosta disso — ela murmurou contra a pele de Clara, os dentes roçando a clavícula. — De ser tocada assim. Não era uma pergunta. Clara não respondeu com palavras. Em vez disso, suas mãos encontraram os quadris de Isabel, puxando-a para baixo, sentindo o atrito delicioso entre elas. Um gemido escapou de seus lábios quando Isabel se moveu contra ela, lenta, deliberada, fazendo-a sentir cada centímetro do desejo que as unia. — Isabel… — o nome dela saiu como um apelo, uma súplica. — Shhh — Isabel sussurrou, deslizando uma mão entre elas, os dedos encontrando o zíper do vestido de Clara. — Deixa eu te ver. O vestido foi aberto com uma lentidão torturante, o tecido deslizando pelos ombros de Clara, revelando a pele pálida, os seios pequenos e firmes, os mamilos já rígidos de antecipação. Isabel não desviou o olhar. Seus olhos escuros percorreram cada centímetro exposto, como se memorizasse cada detalhe, cada curva, cada imperfeição. E então, finalmente, sua boca estava sobre um dos mamilos, sugando com força, enquanto a mão livre apertava o outro, fazendo Clara arquear-se com um grito abafado. — Porra — Clara gemeu, os dedos se enroscando nos cabelos de Isabel, puxando-a para mais perto, querendo mais, precisando de mais. Isabel obedeceu, mas não da maneira que Clara esperava. Em vez de continuar, ela se afastou apenas o suficiente para encarar Clara, os lábios brilhantes, os olhos escuros cheios de uma intensidade que fez o coração de Clara bater ainda mais rápido. — Você é linda — ela disse, a voz rouca. — Mas eu quero mais do que isso. Antes que Clara pudesse perguntar o que ela queria dizer, Isabel deslizou para baixo, os lábios traçando um caminho úmido pelo estômago de Clara, pela curva do quadril, até chegar à barra da calcinha. Seus dedos engancharam no elástico, puxando-a devagar, revelando a pele macia, o cheiro de excitação que já impregnava o ar. Clara prendeu a respiração quando Isabel parou, os lábios pairando a centímetros de onde ela mais a queria. — Por favor — ela sussurrou, sem vergonha, sem controle. Isabel sorriu, um sorriso perverso, e então sua boca estava sobre ela, quente, molhada, implacável. A língua de Isabel encontrou o ponto certo com uma precisão que fez Clara gritar, as mãos agarrando os lençóis enquanto ondas de prazer a atravessavam. Ela nunca tinha sido tocada assim—com tanta confiança, tanta entrega. Cada movimento da língua de Isabel era calculado, cada sucção uma promessa de mais. — Você tem gosto de pecado — Isabel murmurou contra sua pele, os dedos se juntando à boca, deslizando para dentro dela com uma lentidão que fez Clara gemer. — E eu quero te devorar. Clara não conseguiu responder. As palavras se perderam em um emaranhado de sensações, de prazer que crescia, que a consumia. Ela se agarrou a Isabel, as unhas cravando-se em seus ombros, os quadris se movendo em um ritmo desesperado, buscando mais, sempre mais. Isabel não a deixou gozar. Não ainda. Quando sentiu Clara perto demais, ela se afastou, os lábios brilhantes, os dedos ainda dentro dela, movendo-se devagar, torturando-a. — Não — Clara gemeu, frustrada, os olhos se abrindo para encarar Isabel. — Ainda não — Isabel repetiu, a voz firme. — Eu quero que você se lembre disso. Que se lembre de *mim*. E então ela se levantou, deixando Clara ofegante, desesperada, enquanto começava a se despir. O vestido caiu no chão com um sussurro de tecido, revelando o corpo de Isabel—curvas generosas, pele dourada pelo sol, seios cheios, os mamilos escuros e rígidos. Clara a observou, hipnotizada, enquanto Isabel desabotoava a calça, deixando-a cair também, ficando apenas com uma calcinha de renda preta que mal cobria o que Clara mais desejava ver. — Sua vez — Isabel disse, aproximando-se novamente, as mãos encontrando os seios de Clara, apertando-os com força. — Me mostre o que é meu. Clara não hesitou. Com mãos trêmulas, ela tirou o que restava de suas roupas, deixando-se exposta, vulnerável, completamente à mercê de Isabel. E quando Isabel a puxou para si, pele contra pele, o calor entre elas era quase insuportável. — Agora — Isabel sussurrou, empurrando Clara de volta para a cama, montando sobre ela, os corpos se encaixando perfeitamente. — Goza para mim. E Clara obedeceu. O orgasmo a atingiu com uma força que a deixou sem ar, o corpo se contorcendo, os gemidos ecoando pelo quarto enquanto Isabel a observava, satisfeita, os dedos ainda dentro dela, prolongando o prazer até que Clara não aguentasse mais. Quando finalmente parou de tremer, Clara puxou Isabel para baixo, beijando-a com uma fome que não sabia que tinha. Seus dedos encontraram o elástico da calcinha de Isabel, puxando-a para baixo, desesperada para retribuir o que havia recebido. — Não — Isabel murmurou, segurando seus pulsos. — Ainda não. Clara franziu a testa, confusa, mas Isabel apenas sorriu, deslizando para o lado, puxando-a consigo. — Eu quero te ver — ela disse, virando Clara de costas para si, encaixando-se atrás dela, os seios pressionados contra as costas de Clara, a mão deslizando entre suas pernas novamente. — Quero sentir você gozar de novo. E de novo. E então, enquanto a boca de Isabel encontrava o pescoço de Clara, seus dedos começaram a se mover, lentos, profundos, implacáveis, e Clara soube que aquela noite estava longe de acabar. Clara sentiu o corpo inteiro queimar quando os dedos de Isabel voltaram a invadir seu sexo, agora com uma lentidão calculada, como se cada movimento fosse uma pergunta—e ela, uma resposta que não sabia dar em palavras. A respiração de Isabel roçava em sua nuca, quente e úmida, enquanto a outra mão deslizava por sua barriga, apertando-a levemente antes de subir até seus seios, os dedos brincando com os mamilos já rígidos. Um gemido escapou de seus lábios sem permissão, e ela arqueou as costas, buscando mais contato, mais pressão, mais *qualquer coisa* que pudesse aliviar a tensão que se enrolava dentro dela como um fio prestes a arrebentar. — Você gosta quando eu faço isso? — A voz de Isabel era um sussurro rouco, os lábios roçando a orelha de Clara enquanto seus dedos mergulhavam mais fundo, curvando-se em um movimento que fez estrelas explodirem atrás das pálpebras fechadas de Clara. — Ou prefere quando eu faço *assim*? O ritmo mudou. Agora não havia mais lentidão, apenas uma urgência implacável, os dedos de Isabel entrando e saindo com uma precisão que roubava o ar de seus pulmões. Clara tentou responder, mas as palavras se perderam em um emaranhado de gemidos e súplicas incoerentes. Sua mão agarrou o lençol com força, as unhas cravando-se no tecido enquanto o prazer se acumulava, uma onda prestes a quebrar. — *Isabel…* — O nome saiu como uma prece, um aviso, uma rendição. — Shhh — Isabel murmurou, mordiscando o lóbulo de sua orelha. — Eu sei. Eu *sei*. E então, como se tivesse esperado por aquele exato momento, Isabel retirou os dedos de repente, deixando Clara ofegante, o corpo inteiro tremendo em protesto. Antes que pudesse reclamar, porém, sentiu Isabel se mover atrás dela, o calor de seu corpo se afastando por um segundo antes de voltar—agora com algo a mais. O tecido da calcinha de Isabel roçou em suas coxas, e Clara percebeu, com um arrepio, que ela a havia tirado. A pele nua de Isabel pressionou contra a sua, úmida e quente, e o contato foi tão intenso que Clara quase gozou ali mesmo. — Você quer? — Isabel perguntou, a voz baixa, os lábios agora em seu ombro, os dentes marcando levemente a pele. — Quer que eu te mostre como é bom quando não há mais regras? Clara não precisava pensar. Assentiu, frenética, as palavras presas na garganta. — *Diga.* — *Sim.* — A palavra saiu em um sopro, quase inaudível, mas Isabel ouviu. E então, sem aviso, Isabel a virou de bruços, puxando seus quadris para cima com uma força que a deixou sem fôlego. Clara sentiu as mãos de Isabel em suas coxas, abrindo-a, expondo-a completamente. Um arrepio percorreu sua espinha quando sentiu o hálito quente de Isabel entre suas pernas, a língua deslizando devagar, explorando cada dobra com uma precisão torturante. — *Porra—* Clara arqueou as costas, os dedos se fechando em punhos enquanto Isabel a lambia com uma lentidão deliberada, como se tivesse todo o tempo do mundo. Cada movimento de sua língua era uma provocação, um lembrete de que ela estava no controle, de que Clara não tinha escolha a não ser se entregar. — Você tem gosto de pecado — Isabel murmurou contra sua pele, os dedos agora substituindo a língua, entrando nela enquanto a boca se movia para cima, mordiscando a parte interna de suas coxas, deixando marcas que Clara sabia que ainda estariam lá pela manhã. — E eu adoro pecar. Clara não conseguia mais pensar. O prazer era demais, intenso demais, uma pressão que crescia e crescia até que ela sentiu que iria explodir. Seus quadris se moviam por vontade própria, buscando mais contato, mais fricção, mais *ela*. Isabel riu baixinho, o som vibrando contra sua pele, e então seus dedos se curvaram dentro dela, encontrando aquele ponto que fez Clara gritar. — *Isabel, eu não— eu não aguento—* — Aguenta — Isabel ordenou, a voz firme, os dedos se movendo mais rápido, mais fundo. — Você vai gozar quando eu mandar. Não antes. Clara mordeu o lábio com força, tentando se controlar, mas era impossível. Cada célula de seu corpo estava em chamas, cada nervo à flor da pele, cada respiração um gemido. Isabel a estava levando ao limite, e ela sabia que, quando finalmente caísse, seria de uma altura da qual nunca mais voltaria inteira. — *Por favor—* — *Agora.* O comando foi acompanhado de um movimento preciso dos dedos, e Clara se desfez. O orgasmo a atravessou como uma corrente elétrica, arrancando um grito rouco de sua garganta enquanto seu corpo se contorcia, os músculos se contraindo em espasmos incontroláveis. Isabel não parou. Continuou movendo os dedos, prolongando o prazer até que Clara não soubesse mais onde terminava um orgasmo e começava outro. Quando finalmente parou de tremer, Clara caiu de bruços no colchão, o corpo mole, a respiração entrecortada. Isabel se deitou ao seu lado, puxando-a para perto, os braços envolvendo-a por trás. Clara podia sentir o coração de Isabel batendo contra suas costas, rápido, quase tão acelerado quanto o seu. — Você foi perfeita — Isabel murmurou, beijando seu ombro. — Mas ainda não acabou. Clara abriu os olhos, confusa, o corpo ainda formigando. — *O quê?* Isabel sorriu contra sua pele, os dedos traçando círculos preguiçosos em sua barriga. — Eu disse que queria te ver gozar de novo. E de novo. Antes que Clara pudesse protestar—não que tivesse forças para isso—Isabel a virou de costas, os lábios encontrando os seus em um beijo lento, profundo, que fez seu corpo reagir instantaneamente. As mãos de Isabel deslizaram por suas coxas, abrindo-as com gentileza, e Clara sentiu os dedos voltarem a explorá-la, agora com uma familiaridade que a fez gemer contra a boca de Isabel. — Você é *minha* esta noite — Isabel sussurrou, os dedos se movendo em um ritmo que fazia Clara arquear as costas, buscando mais. — E eu não vou parar até que você não consiga mais se lembrar do próprio nome. Clara fechou os olhos, rendendo-se. Não havia mais resistência, não havia mais controle. Havia apenas Isabel, seus dedos, sua boca, seu corpo contra o dela. E, pela primeira vez na vida, ela não queria que aquilo acabasse. A luz da manhã invadiu o quarto como um intruso delicado, filtrada pelas cortinas de linho branco que dançavam com a brisa salgada. Clara acordou primeiro, ou talvez fosse apenas a primeira a emergir do torpor em que seus corpos haviam se afogado. Seus músculos protestaram levemente quando se moveu, um lembrete suave de cada curva que Isabel havia explorado, de cada gemido arrancado de seus lábios. Ao lado dela, Isabel ainda dormia, a respiração lenta e profunda, os cabelos escuros espalhados pelo travesseiro como tinta derramada sobre seda. Clara observou-a por um longo momento, permitindo-se absorver cada detalhe: a curva do ombro nu, onde a luz da manhã desenhava sombras douradas; a linha da clavícula, marcada por pequenos arranhões—souvenirs de suas próprias unhas, cravadas ali na urgência do prazer. Os lábios de Isabel estavam ligeiramente entreabertos, como se ainda sussurrassem promessas inacabadas, e Clara sentiu o desejo de beijá-los novamente, de acordá-la com o mesmo fogo que as consumira horas antes. Mas algo a deteve. Não era medo, nem hesitação. Era apenas a consciência de que o amanhecer trazia consigo uma realidade diferente, uma que não podia ser ignorada. Ela se ergueu devagar, apoiando-se nos cotovelos, e o lençol deslizou até sua cintura, revelando a pele marcada por beijos e mordidas. O ar estava carregado com o cheiro delas—suor, sexo, o perfume cítrico de Isabel misturado ao sal do mar que ainda grudava em seus cabelos. Clara respirou fundo, sentindo o peso da noite em cada fibra do seu corpo. Não havia arrependimento, mas também não havia ilusões. O que acontecera entre elas não era um começo, mas um fim em si mesmo, uma chama que queimara tão intensamente que não deixara espaço para cinzas. Isabel se mexeu, os cílios tremulando antes de se abrirem lentamente. Os olhos verdes encontraram os de Clara, e por um instante, nenhuma das duas falou. Havia algo quase solene naquele silêncio, como se ambas soubessem que qualquer palavra seria insuficiente para capturar o que haviam compartilhado. — Bom dia — Isabel murmurou, a voz rouca de sono e de outras coisas. Sua mão se estendeu, os dedos roçando o quadril de Clara, como se precisasse confirmar que ela ainda estava ali, real. Clara sorriu, mas não se aproximou. Em vez disso, inclinou-se para pegar o copo de água na mesinha de cabeceira, tomando um longo gole antes de oferecê-lo a Isabel. A outra mulher aceitou, os lábios tocando o mesmo lugar onde os de Clara haviam estado, e o gesto pareceu carregado de uma intimidade que ia além do físico. — Você sempre acorda tão cedo? — Isabel perguntou, devolvendo o copo. — Só quando não tenho escolha — Clara respondeu, deixando o copo de lado. — O sol não costuma pedir licença. Isabel riu baixinho, o som vibrando no peito de Clara como um eco de prazer. Ela se sentou, deixando o lençol cair completamente, revelando o corpo nu em toda a sua glória. Clara não desviou o olhar, mas também não o devorou com a mesma fome da noite anterior. Havia algo de diferente agora, uma ternura que não existia antes, misturada àquela atração irreprimível. — Você está pensando demais — Isabel disse, inclinando-se para beijar o ombro de Clara. Seus lábios eram quentes, macios, e Clara fechou os olhos por um instante, deixando-se levar pela sensação. — Não é pensar — Clara corrigiu, virando-se para encará-la. — É só... perceber. Isabel arqueou uma sobrancelha, um sorriso brincando nos cantos da boca. — Perceber o quê? — Que isso não é algo que a gente repete. As palavras pairaram entre elas, pesadas, mas não carregadas de tristeza. Isabel não pareceu surpresa. Em vez disso, estendeu a mão e segurou o queixo de Clara, inclinando seu rosto para que seus olhares se encontrassem. — Quem disse que eu quero repetir? — ela perguntou, a voz suave, mas firme. — Às vezes, uma noite é exatamente o que precisa ser. Perfeita. Inesquecível. E sem amarras. Clara sentiu um nó se formar na garganta, mas não era de dor. Era algo mais complexo, uma mistura de alívio e gratidão. Isabel entendia. Ela sempre entendera, desde o primeiro olhar na festa, quando Clara ainda tentava se convencer de que podia controlar aquilo. — Você não é como eu imaginava — Clara admitiu, passando os dedos pelos cabelos de Isabel, sentindo a textura sedosa entre eles. — E como você me imaginava? — Alguém que... não sei. Que não aceitaria um fim tão fácil. Isabel riu, um som rico e profundo. — Não é um fim, Clara. É um presente. Você me deu uma noite que eu nunca vou esquecer. E eu te dei o mesmo. Isso não é pouco. Clara assentiu, mas algo dentro dela ainda se rebelava. Não era a ideia de não repetir que a incomodava, mas a sensação de que, de alguma forma, Isabel já estava se despedindo. Como se soubesse, desde o início, que aquilo não passaria daquela noite. — O que você vai fazer agora? — Clara perguntou, tentando manter a voz leve. Isabel se deitou de costas, olhando para o teto enquanto o sol pintava padrões dourados em sua pele. — Vou tomar um banho. Pedir café da manhã. E depois... — ela fez uma pausa, virando-se para Clara com um sorriso malicioso — ... vou te levar para tomar um café na praia. Antes que você volte para a sua vida de advogada controlada. Clara riu, mas o som morreu rápido. A menção à sua vida real era como um lembrete de que, fora daquele quarto, fora daquela noite, elas eram duas estranhas com mundos completamente diferentes. — E você? — Clara perguntou, tentando não deixar transparecer a pontada de melancolia. — O que vai fazer depois disso? Isabel se aproximou, os lábios roçando a orelha de Clara enquanto sussurrava: — Vou viver. Como sempre vivi. Sem planos, sem promessas. Só... sentindo. Clara fechou os olhos, deixando as palavras de Isabel se infiltrarem nela. Era isso, não era? A diferença entre elas. Isabel vivia no momento, sem medo do que viria depois. Clara, por outro lado, sempre precisara de um plano, de um controle, de uma certeza. Até a noite anterior. — Eu não sei se consigo fazer isso — Clara admitiu, a voz quase um sussurro. Isabel se afastou apenas o suficiente para olhar em seus olhos. — Não precisa. Você já fez. Esta noite foi sua. E ninguém pode tirar isso de você. Clara sentiu as lágrimas queimarem atrás das pálpebras, mas não deixou que caíssem. Em vez disso, inclinou-se e beijou Isabel, um beijo lento, profundo, cheio de tudo o que não podia ser dito. Isabel correspondeu, as mãos deslizando pelo corpo de Clara, não com a urgência da noite anterior, mas com uma ternura que fez o peito de Clara se apertar. Quando se separaram, Isabel sorriu, os dedos traçando o contorno dos lábios de Clara. — Vamos tomar banho — ela disse, levantando-se e estendendo a mão. — Antes que eu decida que prefiro ficar aqui com você. Clara aceitou a mão de Isabel, deixando-se ser puxada para fora da cama. O banheiro era espaçoso, com uma banheira de mármore e uma janela que dava para o mar, agora banhado pela luz da manhã. Isabel abriu a torneira, deixando a água quente encher o ambiente de vapor, e então se virou para Clara, os olhos verdes brilhando com uma intensidade que não diminuíra. — Você vem? — ela perguntou, entrando na banheira e estendendo a mão novamente. Clara não hesitou. Entrou na água, sentindo o calor envolvê-la, relaxando músculos que ainda guardavam a memória dos toques de Isabel. Esta se aproximou, os corpos se encontrando sob a água, e Clara sentiu a respiração acelerar quando Isabel a puxou para si, as pernas entrelaçadas, os seios se pressionando. — Eu disse que ia te levar para tomar café — Isabel murmurou, os lábios roçando o pescoço de Clara. — Mas acho que ainda não terminei com você. Clara riu, mas o som se transformou em um gemido quando as mãos de Isabel deslizaram por suas costas, puxando-a para mais perto. — Você é insaciável — Clara acusou, mas não havia reprovação em sua voz. — Só quando se trata de você — Isabel respondeu, os dentes mordiscando levemente o lábio inferior de Clara. E então não houve mais palavras. Apenas o som da água, o vapor subindo entre elas, os corpos se movendo em um ritmo lento e sensual, como se tivessem todo o tempo do mundo. Isabel beijou Clara com uma doçura que contrastava com a paixão da noite anterior, como se quisesse memorizar cada detalhe, cada sabor. Clara se deixou levar, os dedos enterrados nos cabelos de Isabel, os quadris se movendo em resposta aos toques experientes. Quando gozaram, foi quase ao mesmo tempo, os corpos tremendo sob a água, os gemidos abafados contra a pele uma da outra. Clara sentiu as pernas fraquejarem, mas Isabel a segurou, mantendo-a de pé, os lábios ainda colados aos seus em um beijo que parecia nunca querer terminar. Quando finalmente se separaram, Isabel descansou a testa contra a de Clara, os olhos fechados. — Isso — ela sussurrou — foi um adeus. Clara não respondeu. Não precisava. Ambas sabiam que era verdade. Depois do banho, vestiram-se em silêncio, trocando olhares que diziam mais do que qualquer palavra poderia. Isabel escolheu um vestido leve, de linho branco, que contrastava com a pele bronzeada, e Clara optou por um conjunto de calça e blusa de seda, algo que a fazia se sentir mais próxima da advogada que era durante o dia. Mas, por baixo da roupa, sua pele ainda guardava as marcas da noite, lembretes invisíveis do que acontecera. Elas desceram para o café da manhã na varanda do hotel, onde uma mesa estava posta com frutas frescas, pães crocantes e café forte. O mar brilhava ao longe, as ondas quebrando suavemente na areia, e Clara sentiu uma estranha paz invadi-la. Não era felicidade, nem tristeza. Era algo entre os dois, uma aceitação. — Você vai embora hoje? — Isabel perguntou, cortando uma fatia de manga. Clara assentiu. — Tenho uma reunião importante amanhã. Preciso voltar para São Paulo. Isabel não pareceu surpresa. — E eu tenho uma exposição em Barcelona daqui a duas semanas. Vou passar uns dias em Lisboa antes. Elas comeram em silêncio por um momento, o som dos talheres e das ondas preenchendo o espaço entre elas. — Você vai me mandar uma mensagem? — Clara perguntou, surpreendendo a si mesma. Isabel sorriu, mas havia uma sombra de tristeza em seus olhos. — Não acho que seja uma boa ideia. Clara assentiu, sentindo o peito apertar. Sabia que Isabel estava certa. Algumas coisas eram melhores deixadas como lembranças. — Então... isso é um adeus — Clara disse, a voz firme, apesar da emoção que a atravessava. Isabel estendeu a mão sobre a mesa, os dedos roçando os de Clara. — Não é um adeus. É um "até nunca mais". Porque, de alguma forma, eu sei que nossos caminhos não vão se cruzar de novo. Clara segurou a mão de Isabel, apertando-a com força, como se pudesse guardar um pouco daquela noite em suas palmas. — Obrigada — ela disse, a voz embargada. — Por tudo. Isabel sorriu, os olhos verdes brilhando. — Obrigada a você. Por ter se permitido. Elas se levantaram, e Clara sentiu o peso da despedida em cada passo. Isabel a acompanhou até o saguão do hotel, onde um táxi já esperava. Quando Clara se virou para se despedir, Isabel a puxou para um último beijo, longo e profundo, como se quisesse gravar o sabor de Clara em sua memória. — Vá — Isabel sussurrou, afastando-se. — Antes que eu mude de ideia e te leve de volta para a cama. Clara riu, mas havia lágrimas em seus olhos. Entrou no táxi, e quando olhou para trás, Isabel ainda estava lá, observando-a partir. Ela ergueu a mão em um aceno, e Clara fez o mesmo, sabendo que aquela seria a última vez que se veriam. O táxi se afastou, e Clara encostou a cabeça no banco, fechando os olhos. Não havia arrependimento. Não havia promessas quebradas. Havia apenas a lembrança de uma noite que a marcara para sempre, uma paixão que a consumira por completo e a deixara diferente. E, de alguma forma, isso era suficiente.

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