A Massagista do Horário Proibido

MassagemPor Anônimo85 leituras
A Massagista do Horário Proibido
Eu nunca fui de marcar massagem tão tarde. Normalmente, quando a lombar gritava depois de uma semana puxada, eu procurava algum horário comum, fim de tarde, no máximo oito da noite. Mas naquela sexta-feira eu estava moído, irritado, com a cabeça cheia e o corpo parecendo pedra. Achei o estúdio por indicação de um amigo. "O lugar é discreto, limpo, profissional", ele disse. Entrei no site, vi que ainda havia um horário disponível: 23h30. Ri sozinho. Horário proibido, pensei. Mesmo assim, marquei. Quando cheguei, a rua já estava quase vazia. O letreiro do prédio era discreto, uma luz amarelada na recepção e cheiro de óleo essencial no ar. A atendente me cumprimentou baixo, como se naquele lugar todo mundo falasse em segredo. — O senhor é o Rafael? — Sou eu. — A massagista de hoje é nova na casa. Pode ficar tranquilo, ela é excelente. Assenti, tentando parecer natural. Mas a verdade é que aquele horário, aquele silêncio e aquela frase mexeram comigo de um jeito estranho. Fui levado até uma sala pequena, meia-luz, música baixa, uma maca coberta por toalhas brancas. No canto, uma vela acesa tremia devagar. A atendente explicou que eu poderia tirar a roupa até onde me sentisse confortável e me cobrir com a toalha. Fiquei sozinho. Tirei a camisa, os sapatos, a calça, respirei fundo e deitei de barriga para baixo. O ar-condicionado estava suave, o ambiente morno, quase íntimo demais para ser apenas profissional. A porta abriu com duas batidas leves. — Posso entrar? A voz dela era calma, doce, mas tinha alguma coisa firme por trás. — Pode. Ela entrou. Eu virei o rosto só um pouco. Ela devia ter uns trinta anos, talvez um pouco mais. Cabelos presos, uniforme escuro ajustado ao corpo, postura segura. Bonita sem esforço. Não bonita de propaganda, mas bonita de presença. — Boa noite. Eu sou a Helena. Alguma região incomodando mais? — Costas e ombros. Principalmente ombros. Ela se aproximou da maca, lavou as mãos numa cuba pequena e aqueceu óleo entre as palmas. — Então hoje a gente vai cuidar disso. O primeiro toque foi totalmente profissional. Firme, preciso, quase terapêutico demais para qualquer pensamento errado. As mãos dela deslizaram pelos meus ombros, encontrando pontos de tensão que eu nem sabia que existiam. — Você está bem travado — ela comentou. — Semana difícil. — Dá pra sentir. Ela pressionou a base do meu pescoço e eu soltei o ar sem perceber. Por alguns minutos, só houve silêncio, música baixa e o som discreto das mãos dela espalhando óleo pelas minhas costas. Eu comecei a relaxar de verdade. Helena tinha um jeito cuidadoso, mas não frio. Tocava como quem sabia exatamente o limite entre aliviar e provocar. O problema é que, aos poucos, esse limite começou a ficar confuso. As mãos dela desceram um pouco mais pela lateral das minhas costas. Nada indevido. Nada que eu pudesse chamar de ousado. Mas o ritmo mudou. Ficou mais lento. Mais demorado. Cada movimento parecia calculado para me fazer prestar atenção. — Melhorou? — ela perguntou perto demais. A voz veio ao lado do meu ouvido. — Muito. — Você parece alguém que segura tudo no corpo. — Talvez eu segure mesmo. Ela riu baixo. — Isso cansa. Senti o polegar dela desenhar uma pressão lenta perto da minha cintura. Meu corpo respondeu antes da minha cabeça. Fiquei imóvel, tentando fingir que nada tinha mudado. Mas tinha. A sala parecia menor. A música parecia mais distante. O toque dela, antes apenas técnico, agora tinha pausas. Pequenos atrasos. Como se ela soubesse exatamente o que estava fazendo e esperasse para ver se eu também percebia. — Quer virar de barriga para cima? — ela perguntou. Engoli seco. — Quero. Ela segurou a toalha de um jeito cuidadoso, me dando privacidade. Virei. Quando abri os olhos, ela estava ao meu lado, expressão serena, mas com um brilho discreto no olhar. Helena colocou mais óleo nas mãos e começou pelos meus ombros, depois braços, peito alto, sempre respeitando a toalha, sempre mantendo aquela fronteira invisível. Só que agora a tensão era outra. Eu estava atento a cada respiração dela, a cada movimento do tecido do uniforme, a cada vez que seus dedos demoravam um segundo a mais. — Você está mais quieto — ela disse. — Estou tentando não atrapalhar. — Você não atrapalha. Ela falou isso olhando nos meus olhos. O toque dela continuou lento, descendo pelos braços, voltando ao peito, subindo ao pescoço. Quando seus dedos alcançaram minha mandíbula, ela fez uma pressão suave, quase carinhosa. Eu fechei os olhos. — Tem gente que chega aqui precisando mais do que massagem — ela murmurou. Abri os olhos de novo. — E você percebe isso sempre? — Quase sempre. O silêncio depois dessa frase foi pesado. Não desconfortável. Pesado de intenção. Ela se inclinou para ajustar a toalha, e o perfume dela ficou mais forte. Algo limpo, quente, misturado ao óleo. Meu coração acelerou. Helena notou. Claro que notou. — Respira — ela disse, sorrindo de canto. — Estou respirando. — Não parece. Eu ri baixo, sem graça. Ela passou para a massagem nas mãos, dedo por dedo, palma contra palma. Um gesto simples, mas íntimo demais naquela hora da noite. Quando terminou, não soltou minha mão de imediato. — Posso continuar? — perguntou. A pergunta tinha mais de um sentido. Eu olhei para ela. Não havia pressa, não havia pressão. Só aquela mulher adulta, segura, me oferecendo uma escolha clara no meio da penumbra. — Pode. Helena respirou fundo, como se aquela resposta também tivesse atravessado alguma coisa nela. O toque mudou de vez. Continuou delicado, mas agora assumidamente provocante. Não era mais acidente. Não era mais impressão. Era desejo sendo construído com calma. Ela se aproximou mais, e o clima profissional ficou para trás como uma porta se fechando devagar. O resto aconteceu sem pressa, como se o tempo tivesse sido desligado do lado de fora. O som da cidade desapareceu, a música virou só um fundo distante, e a sala ficou tomada por respirações, pele quente e aquele tipo de silêncio que não precisa de explicação. Quando tudo terminou, ficamos alguns instantes sem dizer nada. Ela ajeitou a toalha sobre mim com cuidado, como se devolvesse a calma ao ambiente. Depois lavou as mãos, apagou a vela e olhou para mim uma última vez. — Sua lombar deve melhorar amanhã — disse, séria demais para o que tinha acabado de acontecer. Eu ri. — Só a lombar? Ela abriu a porta, sorriu de lado e respondeu: — Depende se você vai marcar outro horário proibido. Eu marquei antes mesmo de sair dali.

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